quinta-feira, 8 de julho de 2010

Tia Quinquinha

Um conto, para ganhar mais um ponto. Uma outra historia a ser contada.



Tia Quinquinha

Podíamos voltar lá mais de mil vezes que minha mãe repetia a mesma coisa. Ela sempre fazia aquele relato enfadonho e, como se fosse um guia turístico, descrevia aquela cidadezinha pequena, silenciosa e quase acabada.
Nós entravamos pela ponte, vindos da fazenda, e isso era motivo para que ela começasse a sua descrição turística:
- É claro que essa ponte não existia quando eu morava aqui. Tínhamos que atravessar a cavalo e só no verão, porque no inverno o rio enchia demais. Nos meses de verão a água em algumas partes dava no casco do petiço. No inverno eu não sei como eles faziam, nessa época eu voltava para o internato....
Eu já cansada de saber, virava os olhos para a paisagem na tentativa de me acalmar, sabia o que viria depois e me sentia um pouco aliviada porque ao menos não ouviria as repetidas histórias do internato no qual ela tinha vivido grande parte de sua mocidade. Ainda não sei dizer por que as histórias dos nossos velhos nos cansam tanto.
No carro estávamos eu, minha mãe e meu marido. Este desenvolveu uma técnica especial de filtragem auditiva. Esta técnica filtra os tons de voz femininos e monocórdios e dá a ele aquele olhar vidrado de quem olha, mas não vê. Apenas eu escutava sua voz, os ouvidos femininos não possuem essa espécie de acessório.
Talvez tenha sido essa a razão que o impedia de escutar o caso apaixonado que eu vivia com meu colega de oficina literária. Um argentino, barbudo que escrevia contos divinamente e usava um cabelo longo, mal preso por uma borrachinha, dando-lhe um constante aspecto de quem acabara de fazer amor.
Uma semana antes, meu mante argentino me revelou sua intenção de abandonar o trabalho, a cidade e ate o país. “Madrid, ele me disse, Paris é coisa de escritor americano, ou de Guiraldes. Sou mais Almodóvar” Ainda impactada por essa noticia, eu tentava sobrepor ao barulho da fala de minha mãe o barulho de minhas perguntas de como e por que. Sem êxito, continuava sem respostas.
Conforme íamos entrando na cidadezinha o marasmo da sesta me invadia. Eis uma coisa que jamais irá deixar de me surpreender: a sesta. Chegar nessas cidadezinhas e ver tudo fechado me faz imaginar que deveria haver uma placa no pórtico de entrada dizendo: “Já volto” ou “Reabre às 14hs”. Hora que oficialmente no mundo todo, deve acabar a sesta.
Ainda me intrigo em verificar como pode, em algum lugar desse mundo, alguém ignorar a rapidez da troca de informação, a internete, o celular e dormir após o almoço. Lojas que se fecham, janelas entre abertas, até os cachorros sem latir, transformam aquela cidadezinha em um espaço no tempo que se recusa a evoluir. Enfiada nesse pensamento crítico escuto a voz de minha mãe fazendo trilha sonora a esses fantasmas e a minha angústia.
Ela continuava contando sua história como se fosse a primeira vez.
- Nós moramos aqui depois da enchente que levou a casa Cor de Rosa, naquela época eu já estava no colégio interna, só vinha nas férias. Meus pais ficaram até a morte do meu irmão caçula. Este aqui é o colégio das freiras, meus irmãos estudaram aqui. Viste? Olha lá, está igualzinho, nada mudou.....
Mostrava de novo, apontando para ele, olhando para mim e esperando resposta. Embora já o tenha visto muitas vezes, por delicadeza sou obrigada a concordar. Ela se sente escutada e continua:
- Logo ali, nos fundos do colégio ficava a casa da nossa avó.....
Eu voltava a bocejar diante das portas e janelas entreabertas e da calmaria da cidade. Ela continuava entusiasmada como se estivesse verdadeiramente percorrendo as ruas da sua história.
- Ali, estás vendo, do lado daquele ginásio que não existia, na casa aonde agora é aquela coisa da prefeitura...
Interrompi, sem paciência, para de novo lembra-la que aquela coisa da prefeitura era a secretária de saúde.
- Pois é, está certo. Onde é a secretária de saúde, era a nossa casa. Vistes como era boa? Era bem nova, uma das melhores da cidade....
E, sem pausa para respirar e sem que eu conseguisse dizer que já sabia daquilo tudo, me contava novamente sobre o salso chorão na frente da casa que foi cortado para não trazer má sorte e que mesmo assim acabou sendo um dos períodos mais tristes da vida da família.
Na quadra seguinte, antes de acabar nosso trajeto até o armazém, passamos por outra e por outra parte da história.
-Aqui era a casa da Tia Quinquinha. Ela diz apontando para uma construção que parece ter sido azulada, pequena, com um arco na fachada. A cada vez que ela repetia isso a casa me parecia moderna demais para a época em que foi construída, assim como aquele relato sobre a tal tia.
Lembro-me do que elas, minha mãe e minha avó, me contaram inúmeras vezes. Pensei o quanto é curiosa àquela história e o quanto ela sempre me intrigou. Alguém precisava desvendá-la, conclui. Minha mãe continuava ciceroneando os outros ocupantes do carro e eu viajei nos pensamentos.
Tia Quinquinha não era nossa tia de verdade, era irmã da Tia Helena, esposa do tio de minha mãe, dono do armazém.
Morte horrível da Tia Helena que nos foi contada desde que eu era muito pequena. No parto do seu terceiro filho o útero lhe foi arrancado junto com a placenta, por uma parteira incompetente. O viúvo, nunca mais se casou e demorou muito para conhecer o filho.
Nessa parte do relato eu sempre imagino Tia Helena que deveria ser uma moça de no máximo 20 anos, na cama inundada de sangue e uma mulher velha, de avental branco, com seu útero na mão, cena daqueles quadros antigos reproduzindo os primeiros médicos.
Mesmo sem ter vivido esse momento, posso descrevê-lo como se o tivesse visto, ou como um filme muitas vezes repetido.
Eu já conheci Tia Quinquinha muito velha, morando de agregada na casa da sobrinha que ela criou. Era uma velha magrinha, enrugada, sempre vestida como uma freirinha pobre. Seus cabelos eram brancos e mal cortados e tinha sempre um ar cansado de cuidar os filhos ranhentos da tal sobrinha.
Eu nunca pude imaginá-la protagonista desse romance, pareciam duas pessoas diferentes.
Minha mãe me contava, com a confirmação da minha avó, a trágica história de amor da qual a coitada da Tia tinha sido vítima. Eu sempre percebi nas duas uma intenção pedagógica no relato.
Assim, esperava a hora que iria aparecer a legenda onde nitidamente se poderia ler a “moral da história”: “Isto é o que acontece às moças que ingenuamente acreditam nos homens e se entregam a eles sem pudor”, ela não aparecia.
Seu final e sua moral sempre ficaram implícitos no olhar acusador e proibitivo das duas professoras de educação sexual para jovens como eu.
Minha mãe e minha avó são mulheres curiosas, apesar de terem sido maliciosas, moralistas e repressoras a vida toda, em algumas situações e com algumas pessoas tornavam-se condescendentes e compreensivas.
Eram assim com a homossexualidade da Tia Joaninha, guarda carcereira do presídio feminino em Porto Alegre, com as taras do Tio Antoninho, pedófilo conhecido e com a história da Tia em questão.
Falavam dessa com pena e criticavam sua ingenuidade, sem nunca se referirem àquilo que a havia colocado nessa situação, seu desejo.
Eitor era o nome do vilão. Jornalista, educado e bonito, ganhava a vida como telegrafista. Foi transferido para aquela cidade que na época em que ela era uma estação de trem muito importante.
Devia ser moda apaixonarem-se por homens letrados e poetas ou as mulheres de minha família possuíam uma queda por eles. Outra tia avó também sucumbiu na mão de um professor e poeta com quem viveu dividindo-o com um número incalculável de mulheres. Depois percebi, com uma ponta de culpa, o quanto fui muito avisada por minha avó que se casou com um tropeiro, para ter cuidado com essa classe de homens.
Na chegada de Eitor à cidade Tia Quinquinha teria uns 14 anos, e pouco me falaram dela, o que me faz crer que o importante era me contar o fato e não a sua história. Segundo contam seus pais não queriam o namoro. Ele era um pouco mais velho que ela e não sabiam sua origem. Embora culto e estudado, não possuía um vintém ou um cavalo. Teria vindo de alguma cidade da fronteira norte e não parecia boa gente, segundo os pais dela.
Tia Quinquinha magrela e pouco mais que uma criança teimou e encontrou-se escondida com o amado pelas ruas daquela cidade adormecida. Lembro da velha que pouco conheço e o que imagino dela não combina com a jovem apaixonada que minha fantasia reproduz.
Aquela velha ranzinza que brigava com as crianças não teria tido uma paixão arrebatada e nem poderia ter vivido um romance de filme antigo, não combinava com ela. Cheguei a suspeitar da veracidade da história e a pensar que não passava de uma ameaça de minha mãe na tentativa de reprimir meus sonhos adolescentes.
Conta minha mãe que a Tia Quinquinha fugiu com o tal jornalista na noite em que ele recebeu a notícia de sua transferência. Ela com 16 anos e ele com mais de 20, não se sabe quanto. Entretanto, ao contrário do que se pode chamar de final feliz, ele teria passado uma noite com ela em Pelotas e no outro dia a devolvido para a casa dos pais. Dessa noite sobrou a gravidez do menino Elton e agora a minha curiosidade.
Na verdade eu nunca entendi porque Eitor, o amante, teria devolvido, segundo as palavras das mulheres, Tia Quinquinha para a casa dos pais no outro dia da fuga. Algo na história não tem sentido e não me convence. Que espécie de homem rapta uma adolescente, fica uma noite com ela e a devolve grávida no dia seguinte?
Elton morreu de sarampo aos dois anos e o pai, Eitor, que aparentemente recusou a paternidade, compareceu ao enterro, embora não se tenha notícias de que tenha sido avisado.
Muitos furos nessa história, eu penso. Nesse momento da turnê, já estamos na porta do armazém, pergunto à minha mãe que repete o que sabe, sem questionar ou mudar uma vírgula. “ assim, ele só queria sua virgindade”, ela diz sem qualquer dúvida.
Tia Quinquinha morava em uma casa para idosos. Tinha 94 anos e carregava consigo o segredo daquela noite.
Ela ainda guardava a resposta da pergunta que me fiz desde a primeira vez que escutei sua historia e não convencida com os argumentos da mãe. Decidi procurá-la.
Ao contrário do que esperava a casa não era pobre ou suja, não fedia a velhos ou a mijo morno.
Na entrada, atrás de um grande portão encontrei um jardim ensolarado, bem cuidado, bancos e rosas.
Ao sol uma senhora gorda que fazia crochê sorriu docemente para mim como se tivesse visto a neta, me senti acolhida.
Entrei na sala principal e fiquei surpresa com o aspecto de sala de estar. Várias outras senhoras faziam trabalhos com as mãos e conversavam como se estivessem se visitando. Todas pararam e me olharam, eu iria virar atração da tarde.
Alguma coisa naquela casa, apesar da tentativa de se parecer com o lar de alguém, estava fora do lugar, só muitos dias depois percebi que era a quantidade excessiva de conjuntos de sofás e conjuntos de jantar de estilos completamente diferentes um do outro, deixando nítidas as diferenças que ali se juntavam.
Eram partes de histórias, pedaços de passados que alguém não conseguiu se desfazer e iam formando uma espécie de sala de retalhos, todos arrumados e distribuídos na tentativa de fazer deles um arranjo e daquilo um lar.
Quando uma mulher mais jovem me abordou percebi que eu não sabia o verdadeiro nome da tia e fiquei desconcertada sem saber por quem perguntar. Acabamos nos entendendo.
Entrei em um quarto pequeno que Tia Quinquinha dividia com outra mulher tão idosa quanto ela. Ela de costas para a porta, tentava dobrar umas roupas e falava baixo alguns insultos que deviam ser para suas mãos que não obedeciam a suas ordens.
Após uma introdução desajeitada pergunto-lhe sobre o acontecido que ela denomina de: “a noite que deitei com Eitor”
Apesar do medo que eu estava de magoá-la seu rosto se modifica, os olhos brilharam e então eu vejo neles um azul que eu nunca tinha percebido antes.
Ela começou a falar.
“Eitor era moreno, miúdo, tinha um cabelo crescido, óculos de aro de ouro, era míope, não tinha nada de muito belo, não sei o que vi nele. Não era muito forte, nada igual artista de novela de hoje, meio tísico, usava um cavanhaque que lhe fazia parecer mais velho. Esbarrei nele na saída da estação e achei que ele não tinha me visto. Ele sorriu para mim e disse “opaa”, mas não me viu, tenho certeza. Anos depois entendi que no sorriso de menino perdido, ele carregava a tristeza pela morte precoce da mãe que o tinha deixado, assim, meio desgarrado. Fiquei encantada e passei a vê-lo em todos os lugares que ia. Era uma cidade pequena, não era difícil nos encontrarmos. Um dia ele me notou e passou então a me controlar e me esperar nas esquinas. Encontrávamos-nos atrás da estação, depois da missa de domingo e assim todos os dias na hora da sesta, mamãe dormia e esquecia o mundo. Fazia dois anos que namorávamos escondido quando chegou a transferência dele. Eu sabia que a mamãe não aprovaria nosso namoro, vivia falando do guri dos Rodriguez, que era moço trabalhador, tinha fazenda, gado, cavalos, um gordo nojento. Eitor vivia com livros, escrevia poemas, dizia que quando conseguisse transferência para Porto Alegre iria trabalhar em jornal. Eu, muito boba, ficava encantada, e ele se ria do meu encantamento, mas gostava, ficava vaidoso. Quando ele soube que a transferência estava por vir me perguntou se eu iria com ele. Na ocasião a Helena recém havia morrido, aquela tragédia toda, tua mãe deve ter te contado. As crianças pequenas, meus pais chorando pelos cantos, todo mundo muito acabrunhado. Não deixei Eitor falar com meus pais, mas prometi fugir com ele para Porto Alegre. Naquela tardinha ele me esperou na estação, o último trem passava às 6hs, era inverno, um dia cinza e tinha um chuvisco fino, mais de frio do que de chuva mesmo, o mundo parecia que estava parando. Eu não entendia direito porque meu peito ia se apertando, eu tinha sonhado com tudo aquilo. Minha mão estava gelada quando ele me segurou para subir no vagão, não consegui lhe explicar. No caminho até Pelotas pouco falei, as árvores iam correndo na janela e eu tonteando de medo, nunca tinha me afastando tanto de casa. Avistei as luzes da cidade através do vidro molhado. Eu tinha decidido, pois bem, não iria decepcioná-lo, iria até o fim, me tornaria sua mulher, mas voltaria para casa no primeiro trem da manhã. No dia seguinte, ele ainda dormia quando fugi, se eu tivesse lhe dito que era essa minha intenção, ele jamais aceitaria. Boba, eu pensava na mamãe, e nas crianças tão pequenas, não podia abandoná-los nessa hora tão triste. Além do que, jamais saberia viver em um lugar com tantas luzes. Eu só não poderia imaginar que sairia dali prenha. No mais, a noite valeu minha vida.”
E, Tia Quinquinha arremata: “Guria, até poucos anos ainda lembrava do cheiro dele” e ergue o rosto em uma sonora gargalhada como se tivesse deitado com Eitor na noite anterior.
Deixei-a para trás, comendo avidamente os doces que lhe levei, e com a sensação de ter desvelado o terceiro milagre de Fátima.
O que minha mãe diria sobre os homens agora?
E eu, na verdade eu teria coragem de morar em Madrid?.