segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Vincere, ou cartas de amor


Vincere

Tenho um assistente particular para assuntos de cinema, ele me diz que filmes assistir e quase nunca erra. No entanto, nos serviços não inclui sair do cinema feliz, normalmente é uma porrada.
Ontem ele escolheu “Vincere” de Marco Bellocchio. Usando o titulo de uma música fascista ele conta a história de uma amante secreta de Mussolini, e do filho deles.
Um filme bem feito e divinamente encenado, misturando cenas de filmadas na época aonde nós assistimos a loucura do ditador e sua prepotência.
Mas, o que me chocou não foi a loucura de Mussolini, mas a loucura amorosa de Ilda Dalser, a amante. Ela conheceu Mussolini antes dele se tornar Duce, ficou fascinada por ele e o perseguiu. Eles foram amantes por algum tempo e tiveram um filho, embora ele já tivesse uma esposa e uma filha.
Ele, embora ocupado em fazer política, ficou curioso com a atenção que ela lhe dedicou e com o amor incondicional que ela lhe demonstrou. Ilda chegou a vender uma casa e seu negocio de costureira para comprar um jornal para o Benito. Entregue a paixão e ao encantamento ela encarnou o que Freud chamaria de “masoquismo feminino”. Ilda estava sempre presente aonde Mussolini ia, se apresentou com ele em publico, embora todos saibam de sua esposa. Ele a tratou como um objeto, um verdadeiro objeto de seu prazer, sem, no entanto, maltratá-la, afinal a gente não chuta o próprio cachorrinho.
Nessa abnegação e nessa entrega sem limites, Ilda usou das armas femininas para esconder uma identificação com o poder do ditador, na verdade ela estava identificada com ele. Mussolini era o que ela seria se fosse homem e quanto mais poderoso ele fosse, mais orgulhosa ela ficava, às vezes o exibindo como seu troféu, ou como seu falo.
Benito Mussolini sobe ao poder e o brinquedo perde sua importância.
Ilda Dalser não havia se perguntado se aquilo que percebia no amante era amor, estava ocupada em sentir e pensava que isso seria suficiente para que ele percebesse a importância da presença dela ao seu lado. Esperou. Ele não veio. Esperou. Escreveu uma carta, duas, três e ele não responde a nenhuma delas. Ela o desculpa, escreve mais.
Naquela hora, na ponta da cadeira do cinema, eu pensei: Sorte do Mussolini, não havia e-mail naquela época, muito menos celular ou mensagem de texto. Na verdade, sorte dela, pois teria sido fuzilada e não apenas internada como louca.
Ilda não suporta a rejeição e quando ele decide não mais vê-la, exige seus direitos e os direitos de seu filho, acaba sendo internada por louca e seu filho também, como uma resposta do prepotente amante. Ela se diz esposa dele, diz que ele a ama e que um dia irá procurá-la explicando o motivo de tanto distanciamento, talvez uma estratégia política. Ele certamente a ama e irá um dia admitir isso, ela conclui.
As manifestações que Ilda percebe no amante são entendidas como demonstrações de amor, apesar de ser apenas demonstração de tesao e do lugar desqualificado que ele coloca a mulher.
Tenho a promessa de escrever sobre o livro de Julia Kristeva, Historias de amor, a falta tempo para organizar as idéias e de terminar o livro em impedem, mas ainda assim permanece a pergunta: Afinal, teoricamente o que é o amor? Bem, na vivencia eu sei, preciso de uma definição cientifica, teórica.
Erotomania diria alguém diante de Ilda Dalser. Ela não era unicamente uma mulher apaixonada, sim isso também, mas possuía um amor dedicado, abnegado e às vezes ate masoquista. Ilda se entrega ao amante sem restrições ou defesas. No entanto, não era a única amante do Duce que se distraía conquistando novas mulheres.
Ele mandou interná-la em um hospital para loucos e transformou o seu amor em delírio. Ela não desistiu e tentou provar para os outros que o amor existiu e que não foi uma alucinação sua. Escreveu cartas que nunca foram enviadas, escreveu nas paredes da solitária, escreveu cartas aos juízes, ao Papa, aos políticos, as freiras sem obter nenhum sucesso. Morreu nessa luta.
Ela amou loucamente um louco e isso não a faz ser menos louca na tentativa de fazê-lo engolir boca abaixo seu desejo.
Hoje enquanto escrevia assistia na TV outro filme, Sandra Bullock é Mary Horwitz, outra mulher que confunde a relação com um homem e quase morre por isso.

Ela diz: “Se você ama alguém o deixe ir. Se precisa persegui-lo era porque não era seu”

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Ramirez ------Tributo a Morosoli





Ao entardecer, no ranchinho emprestado, o vento triste entrando pelas frestas da palha, o foguinho ralo e as pilhas do rádio quase acabando, Ramirez pensou que a cidade até poderia ser um bom lugar para um velho gaúcho.
Não que se importasse em tomar mate com erva lavada, afinal, há alguns anos aprendera a poupar, dava para tomar dois ou três mates com a mesma erva.
De manhazinha preparava o chimarrão com erva nova, virava ao meio-dia e depois, dependendo do quentume do dia, ainda podia aproveitá-la à tardinha. Também não se importava com a precariedade do rancho. Chita nas janelas para fazer de postigo, chão batido, gelado de dar dó, fogãozinho todo remendado com lata de óleo velho. Era homem de poucos luxos e devia agradecer a Dom Vasco pela generosidade, mesmo tendo lhe demitido havia deixado que ficasse ali.
Havia apenas duas coisas que deixavam Ramirez assim, taciturno e mal humorado; pedir fiado e quando o dinheiro não dava mais para a pinga, nem para a farinha do pão. Isso já vinha acontecendo fazia meses.
Verdade que sua vida não tinha sido de muitas farturas. Filho de gente pobre foi habituado com pouco na infância. Longe da casa paterna, desde muito cedo, trabalhava para pagar seus vícios e seus prazeres. Mas, já havia pensado em degolar gente que tinha insinuado que ele era preguiçoso, nunca recusou trabalho, só não gostava de patrão e de ficar muito tempo em um só lugar.
Doutra feita, quando o trabalho já tinha começado a rarear, foi obrigado a trabalhar em uma fazendola perto da fronteira, uma pequena leiteria, para cuidar das vacas de leite. Odiava gado leiteiro, andar atrás das vacas, sentar em banquinhos, ficar amassando suas tetas e depois passar o resto do dia fedendo a leite, tal qual um bezerro.
Já na primeira semana, após o pagamento, foi na venda da vila e tomou um trago. Não levantou para tirar o leite, foi demitido e se não fosse o posteiro tinha ficado sem pouso, ele e o velho gatiado.
Sabia que já não conseguiria empregos como os de antigamente. As fazendas rareavam, sem gado, sem pasto e sem cavalos não precisavam mais de peões. Ria-se sozinho pensando que precisaria aprender a domar um pé de eucalipto. Nem para cortá-los precisavam de gente, vinham as máquinas e em dois minutos acabavam com um mato inteiro.
Agora se sentia cansado. A coragem para domar potros fazia muitos anos que o abandonara, desde o último tombo e do braço quebrado.
A última vez que deparou com o sobrinho tentou lhe vender a encilha de alpaca que tinha sido de seu pai, a única coisa que lhe restava além do gatiado. Não era dado a sentimentos, mas seria melhor que ficasse na família.
Como todo rapazote da cidade ele respondeu com ar de doutor: “sai daqui, vai para a cidade, a vida aqui não tem mais jeito”. E encerrou dizendo que não precisava de encilha para andar de carro. Ramirez chegou a levar a mão ao relho, em outros tempos teria lhe dado uma sova, mas era em outros tempos.
Não tinha se preocupado quando soube que um grande fazendeiro tinha vendido suas terras para plantar mato. Pensou que era coisa de velho caduco, chegaram a falar que a morte do filho o deixou assim. Quem em saúde perfeita venderia uma bela fazenda, um rebanho de primeira, água e muito pasto? Apenas um maluco, pensava Ramirez. Passou com a tropa pela porteira e foi pedir pouso na fazenda ao lado.
Meses depois ficou sabendo que esta também fora vendida, foi quando Dom Vasco lhe ofereceu o ranchinho.
Todo dia, enquanto mateava cuidava o rumo dos caminhões. Eles passavam cheios de lenha para a cidade e Ramirez ficava pensando em como seria sua vida lá.
Recebera noticia de José, o bodegueiro, que se mudou para a cidade. Acabou trocando a venda por uma carroça. Dizem que com ela junta latinhas de cerveja. Ramirez ficou acabrunhado, não tinha dinheiro para carroça e muito menos vontade de catar lixo na rua.
O sobrinho falou da aposentadoria do governo e de um advogado para tratar do assunto. Venderia o gatiado e compraria uma casa com luz elétrica, assim além de não precisar mais de pilha não precisaria nem de rádio, poderia ver televisão. Talvez até uma mulher nova para cortar seus casco e coçar suas costas. Ramirez suspirava a poeira do último transporte de lenha enquanto decidia que no dia seguinte saberia com Dom Vasco se o caminhão iria carregar a lenha para a cidade e se teria um lugarzinho para ele.

Valdeci

Da ponta da mesa Valdeci sorria encabulado. Um sorriso meio de canto de boca, a cabeça inclinada para baixo para que os outros não percebessem as bochechas vermelhas, e balançando-a, tentava uma negação difícil de acreditar.
Essa cena se repetia quase todas as noites. Naquela espécie de bolanta o fazendeiro, o administrador, eu, um amigo também da cidade e Valdeci, o capataz, nos reuníamos depois do jantar.
Apesar da luz elétrica, a escuridão dos campos fora da casa e a falta da televisão, faziam com que essa gente da cidade tivesse uma sensação de estar em outros tempos. Talvez fosse por isso que insistiam naquelas conversas até mais tarde, regadas por alguma bebida mais forte que o chimarrão. Era como se estivéssemos em torno do fogo de chão em algum galpão de tropeada.
-Conta ai, interpelava o administrador, provocativo, insistindo na mesma história fazia dias.
-Conta ai Valdeci, tu comias ou não comias a Landa?
Valdeci parecia não querer lembrar, muito menos contar, mas a bebida providenciada era de qualidade muito melhor do que ele estava acostumado, o que lhe fazia abusar, então, ir afrouxando a memória e soltando a língua.
Parecia pensar que ao contrário do povo dali, nós, as pessoas mais estudadas e da cidade deveríamos estar acostumados com histórias estranhas. Estávamos mais instigados por outra curiosidade, do que pela vontade de saber sobre a vida do pobre sujeito. Queríamos saber se ele teria coragem de contar ou se negaria tudo como vinha fazendo até então.
Aos poucos e de tanto ser cutucado Valdeci foi contando.
-Homem, eu tinha só uns 16 para 17 anos quando meu pai foi transferido de peão da fazenda nas margens do Jaguarão, para capataz da outra fazenda dos Silveira, a Ovelha Negra, onde moravam os patrões. Nasci na fazenda da fronteira, e vivi embrenhado lá até a mudança.
Enquanto falava passava a mão nos cabelos negros de índio mestiço e andava para acender no fogão a lenha o palheiro apagado.
Era um homem parrudo embora não fosse gordo. Os braços e as mãos marcados pelo trabalho pesado pareciam talhados a formão. Tinha os dentes brancos que formavam com a tez escura um contraste bonito, embora o vasto bigode já estivesse amarelado pelo tabaco. Encostado na mesa sustentava um pé no outro joelho e ia alternando-os em uma posição semelhante a das cegonhas.
O administrador quase não acreditou que ele finalmente falaria, olhou o fazendeiro e pediu permissão com o olhar para continuar no assunto. Permissão concedida estimulou:

- Más diga lá índio veio. Tentando parecer mais íntimo usou do mesmo linguajar campeiro. Então é fato mesmo?
Valdeci lembrou-se do dia em que conheceu Orlando e a casa grande.
-Ala putia, era bonita e grande barbaridade, mas vocês precisavam mesmo era ver o carro que ele tinha. Isso sim me encantou, bati o olho e já queria aprender a trepar no bicho. Era vermelho, conversível, lembram do Puma..Um Puma GT 1600 conversível, uma lindeza. Tentando assim desviar a nossa atenção para uma conversa mais de macho e não sobre o que estávamos querendo saber.
O administrador voltou à carga, queria fazer Valdeci ir adiante e contar mais um pouco.
-Não desconversa, desembucha logo homem, comeste ou não comeste a Landa?
Assim, de noite a noite, de frase a frase, ele foi falando de sua relação com Orlando Silveira, a Landa, para os íntimos.
Ficava difícil para Valdeci admitir e falar de como estranhou a cor dos cabelos e dos olhos de Orlando. Uma vez sua mãe disse que os cabelos eram amarelos como espigas de milhos e os olhos azuis como céu de verão, não teria definido melhor, mas ficava bem falar assim de outro homem.
Orlando era um sujeito magrinho, nariz fino sempre para cima e gestos delicados como de moça educada. No entanto, montava um cavalo cuido baio com firmeza e de seu lombo tocava a estância inteira na ausência do pai que vivia levando a mãe para os médicos da cidade.
Não demorou muito para que Orlando percebesse o interesse de Valdeci pelo carro vermelho. Primeiro pediu para o rapaz lavá-lo. Deixou que entrasse, sentasse nos bancos de couro, e de longe cuidava o fascínio do guri pelo brinquedinho luxuoso.
Um dia finalmente Orlando propôs ensinar Valdeci a dirigir o carro, era irrecusável. Claro que ele já estava sentindo que o patrão andava lhe olhando estranho e quando chegava perto falava com voz mais mansa do que com a peonada, mas o carro era tudo que lhe interessava no momento. Sonhava com ele.
Na estância Valdeci pode estudar e na volta da escola ajudava o pai no campo e a mãe nas lidas de pátio. O resto do tempo dedicava ao carro e a circular pela casa grande com a permissão de Orlando.
- Eu era como um potro chucro, se define. Nunca tinha ouvido falar dessas coisas de homem com homem, a coisa mais estranha que vi foi outro peão barranqueando uma égua. Bem, naquela época mulher era escasso, se justificava.
Aos poucos foi sendo envolvido pelas propostas de Orlando e pelas facilidades que disso advinha. O carro passou a ser seu meio de locomoção até a escola.
-Apesar de tudo o mais difícil era sustentar o olhar do “véio” meu pai. Eu sabia que ele não diria nada, mas ele não achava aquilo certo. Mesmo que eu não fosse “a mulherzinha” da história era o filho do patrão que estava sendo enrabado e isso ele achava que acabaria mal.
Diante da história contada e da emoção que ia tomando conta da voz de Valdeci, o administrador foi ficando desconcertado e tentou dar um ar de seriedade ao relato
- Vocês sabem, não é? Esse tipo de anomalia era comum desde o tempo dos gregos. Os ricos, os nobres, os filósofos adoravam ter gurizinhos. Bem, afinal, homem é quem come.
Valdeci se sentiu aliviado e seguiu contando que jamais beijara Orlando na boca e que a única vez que ele havia tentando tinha lhe dado “um murro nos beiços.” E também não o chamava pelo apelido, Landa, por mais que ele pedisse, e ele sempre pedia naquela hora mais agitada.
-Eu ia lá fazia o serviço e caia fora. Depois cobrava caro. Várias voltas no carro vermelho.
A coisa já estava ficando corriqueira quando uma noite se dormem nos lençóis de linho. Pela manhã quando a estância mal amanhecia os pais de Orlando chegam de surpresa da cidade. O fazendeiro logo pergunta pelo filho que ainda dormia com sol já alto. Entra no quarto sem ser impedido pela criada, avisada por Orlando para barrar qualquer acesso.
-Filha da puta, deixaste ele entrar, gritava Orlando, enquanto arrumava as malas. Foi se tratar em Montevidéu, “para curar sua doença”,
- Para que ele visse que tem um filho puto, gritava do outro lado a velha empregada que já andava indignada com a pouca vergonha do patrãozinho.
-Quanto tempo ele ficou lá, pergunta o administrador tentando manter o assunto apesar do espanto dos demais presentes.
- Uns meses, não me lembro quantos, dizem que até andaram lhe costurando o rabo, mas se foi fato ele descosturou por lá mesmo, pois já voltou querendo mais.
-Tu estavas louco de saudades, retrucou um dos presentes.
-Que nada homem, meus pés já tinham virado cascão de ir sem o carro para a escola. Orlando bem que quis me deixar a chave, mas a empregada velha tomou da minha mão e ameaçou contar para o patrão. Ele voltou pior do que foi. Não passava uma noite sem que fosse me chamar em casa.
Acontece que enquanto Orlando esteve fora Valdeci foi algumas vezes na vila próxima e estava se interessando por umas gurias que moravam por lá.
Orlando desconfiou e teve uma crise de ciúmes:
-Filho de uma puta, eu te capo, seu veadinho de merda, tu pensas que és homem, vais ver.
-Fiquei uma fera, conta Valdeci, parti para cima dele e quase matei o homem de tanta porrada, acho que no fundo ele gostava de mim feito mulher mesmo.
- Isso me deixou muito mal parado, só que faltava a bixa querer exclusividade. Eu já estava com quase 20 anos, na hora de conhecer mulher de verdade. Sentir pena dele estava me deixando mole demais. Fiquei lá por mais um tempo, mas depois achei melhor ir embora. Já andavam insinuando que eu estava ficando igual a ele, acho que era por causa dos estudos. Com a vida facilitada eu acabei estudando mais que os outros guris e isso me tornava meio maricas e com os modos finos como Orlando. Valdeci baixou a cabeça, olhou pela janela, e com a voz trôpega finalizou.
-Ate hoje, quando me lembro de tudo isso tenho muita vergonha.
- Te ter comida a bicha, diz apressado o administrador, tentando remendar o que tinha feito.
-Não, de ter tratado o cara com tanta falta de respeito.
E Valdeci, pigarreia, cospe no chão, se despede, sai da bolanta segurando as bombachas com os cotovelos e arrastando as alpargatas.

domingo, 10 de outubro de 2010

Sueli Rolnik comentanto o arigo de Maria Rita Kelh

Caros,
Vale a pena ler o exelente e corajoso texto que Maria Rita publicou em sua coluna no Estadão na véspera do primeiro turno (segue abaixo). Para os que não sabem, a publicação deste texto causou sua demissao do jornal. A punição, do tipo velhos métodos não tão longínquos quanto gostaríamos, teve como simples objeto o fato de uma jornalista (diga-se de passagem, de alta respeitabilidade, também como intelectual e psicanalista) ter ousado expressar uma mínima parcela do que todos nós temos obrigação de pensar face à situação perigosamente pervera que vem se apresentando nestas eleições.Ao que ela escreve, eu acrescentaria que não podemos bobear de agora até o segundo turno (pelo menos). Estejamos alertas aos estragos provocados pelo monopólio da informação em nosso país que expressa os interesses de apenas uma parcela mínima da população, monopólio que convoca o que temos de mais reativo: a memória colonial e escravocrata inscrita em nossos corpos de classe média e elite brasileiras, amputada de sua dimensão de vida pública, intoxicada de preconceitos de classe e de raça, etc, etc. -- sintomas de um narcisismo ancestral, baseado no deprezo pelo outro (mesmo quando, no melhor dos casos, este sentimento se tranveste de bondade politicamente correta). São estes microfacismos que estão subindo à superfície midiática sem disfarce, sem o menor pudor e cada vez mais violentamente. O buraco de onde emergem estas forças reativas está bem mais embaixo do que o simples ódio ao PT ou à Dilma. E é isto o que assusta.Ativemos nosso senso de responsabilidade na construção da realidade, tão debilitado na história que nos constitui. Não podemos responsabilizar um candidato ou um partido pela corrupção que certos elementos do mesmo possam ter cometido, senão teríamos que responsabilizar todos aqueles que participam ou participaram do Estado brasileiro, desde a fundação da República, profundamente bichado por subjetividades tacanhas e corruptas. É ridículo cairmos neste argumento da mídia, que explora a despolitização doentia de nosso país. Tampouco podemos decidir nosso voto em função de nossa simpatia ou antipatia por este ou aquele candidato, mas sim em função de nossa maior ou menor identifcação com um projeto político. Não estou me referindo a projeto político no sentido de um puro blablabla retórico e/ou ideológico, mas daquilo que, de fato, o governo lula realizou neste 8 anos. Sabemos dos grandes avanços conquistados, seja por nossa própria participação direta ou indireta nas diferentes ações levadas nas áreas da educação, saude, cultura, economia, etc, seja pela participação de amigos ou amigos de amigos. Foram muitas, mas muitas mesmo, as pessoas que vararam noites e mais noites para fazer mover o mais possível o estado de inércia patológica do pensamento em nosso país pós-ditadura, de modo a abrir espaços inéditos de exercício democrático, de construção de vida pública, etc. Infelizmente, a grande maioria não tem acesso a estas informações, em razão do tal monopópio da informação em nosso país (no que ele aliás se distingue da grande maioria dos países do planeta, inclusive de nosso continente). Muitos de nós nos angustiamos com esse monopólio e o microfascismo que tem emporcalhado as páginas dos jornais e a tela das TVs, mas na hora H as forças reativas tendem a vencer em nós mesmos, talvez por nossa incapacidade de lidar com o que nos causa tamanho desconforto com a situação atual e ainda com a memória do trauma da ditadura que até hoje não conseguimos sequer começar a elaborar. É patético, por exemplo, deixarmos passar a operação sinistra do pior de nossas elites, via midia, que transforma a resistência à ditadura em coisa de vagabundo e assassino. Morro de vergonha!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! Bem é um desabafo. Espero contar com muitos outros ousando pensar e agir na audaciosa direção da afirmação da vida, como vem ocorrendo pelo menos via internet.Abs,Suely

Dois pesos...
02 de outubro de 2010 0h 00
si
Maria Rita Kehl - O Estado de S.Paulo
Este jornal teve uma atitude que considero digna: explicitou aos leitores que apoia o candidato Serra na presente eleição. Fica assim mais honesta a discussão que se faz em suas páginas. O debate eleitoral que nos conduzirá às urnas amanhã está acirrado. Eleitores se declaram exaustos e desiludidos com o vale-tudo que marcou a disputa pela Presidência da República. As campanhas, transformadas em espetáculo televisivo, não convencem mais ninguém. Apesar disso, alguma coisa importante está em jogo este ano. Parece até que temos luta de classes no Brasil: esta que muitos acreditam ter sido soterrada pelos últimos tijolos do Muro de Berlim. Na TV a briga é maquiada, mas na internet o jogo é duro.Se o povão das chamadas classes D e E - os que vivem nos grotões perdidos do interior do Brasil - tivesse acesso à internet, talvez se revoltasse contra as inúmeras correntes de mensagens que desqualificam seus votos. O argumento já é familiar ao leitor: os votos dos pobres a favor da continuidade das políticas sociais implantadas durante oito anos de governo Lula não valem tanto quanto os nossos. Não são expressão consciente de vontade política. Teriam sido comprados ao preço do que parte da oposição chama de bolsa-esmola.Uma dessas correntes chegou à minha caixa postal vinda de diversos destinatários. Reproduzia a denúncia feita por "uma prima" do autor, residente em Fortaleza. A denunciante, indignada com a indolência dos trabalhadores não qualificados de sua cidade, queixava-se de que ninguém mais queria ocupar a vaga de porteiro do prédio onde mora. Os candidatos naturais ao emprego preferiam viver na moleza, com o dinheiro da Bolsa-Família. Ora, essa. A que ponto chegamos. Não se fazem mais pés de chinelo como antigamente. Onde foram parar os verdadeiros humildes de quem o patronato cordial tanto gostava, capazes de trabalhar bem mais que as oito horas regulamentares por uma miséria? Sim, porque é curioso que ninguém tenha questionado o valor do salário oferecido pelo condomínio da capital cearense. A troca do emprego pela Bolsa-Família só seria vantajosa para os supostos espertalhões, preguiçosos e aproveitadores se o salário oferecido fosse inconstitucional: mais baixo do que metade do mínimo. R$ 200 é o valor máximo a que chega a soma de todos os benefícios do governo para quem tem mais de três filhos, com a condição de mantê-los na escola.Outra denúncia indignada que corre pela internet é a de que na cidade do interior do Piauí onde vivem os parentes da empregada de algum paulistano, todos os moradores vivem do dinheiro dos programas do governo. Se for verdade, é estarrecedor imaginar do que viviam antes disso. Passava-se fome, na certa, como no assustador Garapa, filme de José Padilha. Passava-se fome todos os dias. Continuam pobres as famílias abaixo da classe C que hoje recebem a bolsa, somada ao dinheirinho de alguma aposentadoria. Só que agora comem. Alguns já conseguem até produzir e vender para outros que também começaram a comprar o que comer. O economista Paul Singer informa que, nas cidades pequenas, essa pouca entrada de dinheiro tem um efeito surpreendente sobre a economia local. A Bolsa-Família, acreditem se quiserem, proporciona as condições de consumo capazes de gerar empregos. O voto da turma da "esmolinha" é político e revela consciência de classe recém-adquirida.O Brasil mudou nesse ponto. Mas ao contrário do que pensam os indignados da internet, mudou para melhor. Se até pouco tempo alguns empregadores costumavam contratar, por menos de um salário mínimo, pessoas sem alternativa de trabalho e sem consciência de seus direitos, hoje não é tão fácil encontrar quem aceite trabalhar nessas condições. Vale mais tentar a vida a partir da Bolsa-Família, que apesar de modesta, reduziu de 12% para 4,8% a faixa de população em estado de pobreza extrema. Será que o leitor paulistano tem ideia de quanto é preciso ser pobre, para sair dessa faixa por uma diferença de R$ 200? Quando o Estado começa a garantir alguns direitos mínimos à população, esta se politiza e passa a exigir que eles sejam cumpridos. Um amigo chamou esse efeito de "acumulação primitiva de democracia".Mas parece que o voto dessa gente ainda desperta o argumento de que os brasileiros, como na inesquecível observação de Pelé, não estão preparados para votar. Nem todos, é claro. Depois do segundo turno de 2006, o sociólogo Hélio Jaguaribe escreveu que os 60% de brasileiros que votaram em Lula teriam levado em conta apenas seus próprios interesses, enquanto os outros 40% de supostos eleitores instruídos pensavam nos interesses do País. Jaguaribe só não explicou como foi possível que o Brasil, dirigido pela elite instruída que se preocupava com os interesses de todos, tenha chegado ao terceiro milênio contando com 60% de sua população tão inculta a ponto de seu voto ser desqualificado como pouco republicano.Agora que os mais pobres conseguiram levantar a cabeça acima da linha da mendicância e da dependência das relações de favor que sempre caracterizaram as políticas locais pelo interior do País, dizem que votar em causa própria não vale. Quando, pela primeira vez, os sem-cidadania conquistaram direitos mínimos que desejam preservar pela via democrática, parte dos cidadãos que se consideram classe A vem a público desqualificar a seriedade de seus votos.