domingo, 19 de agosto de 2012


Maria da Luz

Seus passos eram largos e firmes, pisavam a terra e enterravam o salto agulha com força. Só parou quando chegou à porta da casa da Osmidia.
 Maria Afonsina, para os inimigos e para os amigos, Mariazinha. Não era doce, nem meiga, nem tinha a voz macia, mas insistia em ser chamada de Mariazinha, dizia que assim esqueceriam  o Afonsina. 
Usava o cabelo loiro platinado, mesmo com a tez morena. Era a moda das artistas. A boca vermelha ainda em forma de coração, como se continuasse sendo uma melindrosa. Nos olhos, sombra muito azul e uma pinta bem preta feita com lápis, um dedinho acima do lábio. Nunca esquecia os brincos enormes. Quando caminhava, e principalmente quando tinha pressa como naquele dia, as ancas balançavam para cima e para baixo, dando a ideia de um transatlântico navegando ao sabor das ondas do mar. Devia ser isso que fazia os homens pararem e rodarem a cabeça ao vê-la passar. Mas, apenas os forasteiros, porque os moradores da vila não teriam coragem de serem pegos naquele ato de cobiça, ela virava uma zorrilha furiosa, sendo capaz até de capar um, como vociferava.
   Era ousada para o vilarejo. Deixava bem claro que seguia os ditames da cidade maior que visitava com frequência para fazer as compras para a botica que mantinha no armazém do irmão. Um quadradinho no canto, com uma prateleira e uma vitrina que era também virada para a calçada. Vendia cortes de tecidos, pentes, escovas, esmaltes, batons, água de colônia , metros de fita mimosa colorida, novelos de lã, agulhas e muitas utilidades femininas que jamais poderiam faltar para as mulheres da região. Orgulhava-se de ter sido a primeira a vender um pacote de absorvente higiênico Modess, assim como vaselina e alguns remédios de senhores. Pensava em tudo.
    Foi por seu dinamismo, sua popularidade e carisma que se tornou cabo eleitoral. Nomeada pelo próprio candidato a prefeito quando esteve em campanha na vila. Ela foi ao comício, levou um lenço vermelho e abanou bem alto enquanto gritava: “já ganhou!” Ele ficou muito impressionado com sua animação, e com o decote que pulava junto com o lenço. A convidou para o almoço, para o café e dizem até que para a sesta, mas isso ninguém pode provar.
     Teve orgulho de ser cabo eleitoral na primeira campanha do tal candidato, subiu no palanque com ele nos comícios seguintes. Inventou de levar o gaiteiro para alegrar e foi um sucesso de publico, fez bandeirinhas e usou um megafone. Distribuía balas para as crianças e quilos de mantimentos do armazém do irmão, até deixa-lo furioso e quase acabar com os estoques.  Com a vitória esmagadora foi para a cidade participar da posse. Depois disso, ele nunca mais voltou, nunca mais a recebeu na prefeitura e nunca cumpriu o combinado de trazer “O progresso e a luz elétrica”
    Na eleição seguinte se candidatou ela própria a vereadora e decidiu que faria campanha para si mesma e teria ela as benesses da popularidade.
   À noite, à luz de lampião bolava os slogans da campanha, como nos grandes centros. Confeccionaria faixas com os tecidos de fraldas e nelas pintaria bem grande em vermelho seu nome, mas precisava de algo mais forte, de mais impacto. “ Maria de Deus”, não, muito religioso.  “Maria do povo”, não, muito vulgar. Então, resolveu por: “Maria da Luz” por prometer a luz elétrica para todos.
   E assim foi. Em letras enormes escreveu: Vote em Maria da Luz e você nunca mais viverá no breu. Luz para todos, do Peão ao Patrão. Vamos acabar com os namoros no escurinho, luz no bailão. As faixas foram espalhadas pela vila.
  Uma trupe de meninos corriam atrás dela, algumas mulheres e as beatas, loucas para  ver no que daria o produto de suas fofocas. Os carroceiros e os cavalheiros pararam, enquanto os bêbados chegaram nas portas dos bares. Um e outro arriscou perguntar aonde ia com tanta pressa, ao que ela respondeu:” venha comigo e verá”.
    Do outro lado da praça o irmão da porta do bar gritou: “Volta para casa, Maria! Para de arranjar bolo, não vês que tu vais perder a inquilina” Ela apenas levantou a mão e continuou.
 Na frente da casa da Osmidia parou e com as mãos nas cadeiras gritou pela inquilina e amiga, atrás dela toda a trupe que a seguia.
- Osmidia, Osmidia!
Uma fresta da porta se abre e uma mulher de idade semelhante aparece meio escabelada.
-Bom Dia Maria. Que fazes aqui tão cedo? E fingindo não perceber o ar afobado da amiga, pergunta: Aconteceu alguma coisa com tua família?
- Coisa nenhuma Osmidia. Estavas dormindo até a essa hora? Afinal o que fazes a noite, o que acontece ai na minha casa?
- Não, não Mariazinha, acordo bem cedinho, agora estava apenas descansando, ontem foi sábado. Nós ficamos, eu e as meninas, até tarde jogando uma canastra, às brinca, nada de dinheiro. Não quero que elas agarrem o vicio.
-É justamente sobre isso Osmidia, quero saber sobre tuas meninas. O que elas fazem aqui, quem são?
Atrás dela uma mulher gritou:
“Isso! Isso! Fora com essas vagabundas”
Ela na virou a cabeça e continuou:
 -Dizem, as senhoras da igreja que tu transformaste a casa que era dos meus pais, onde morava a minha santa mãezinha, em uma casa de tolerância. Elas disseram isso para o Santo Padre e pediram a ajuda dele para acabar com a minha candidatura. Disseram que sou conivente com essa pouca vergonha. Que vão boicotar minha campanha, que a luz que darei é a do fogo do inferno. Isso vai acabar comigo, Osmidia. Tu não vês que estás prejudicando a minha candidatura?
-Maria, minha grande amiga! Como podes acreditar em tamanha calúnia? Logo eu, tão devota de Santo Antônio e Santa Rita. Como eu poderia? Tu não podes acreditar em tudo que essas invejosas dizem.  Minhas meninas são meninas de bem, me ajudam na lida da casa, estão aqui por uns dias, seus pais tem muitos filhos, eu as ajudo nos estudos. Pobre de mim, Maria, tu não podes acreditar nisso e tirar a minha casinha”. Chorava  e tentava  se abraçar na Mariazinha. No rosto lhe escorria os restos do rímel barato.  Maria a afastou gentilmente cuidando para não sujar sua blusa.
Osmidia arrematou dizendo:  “Agora mesmo eu e as meninas estávamos preparando faixas e bandeirinhas para irmos ao teu comício, logo mais a tarde”
 Cabeças amarradas em lenços e grandes rolos aparecem nas janelas, chambres transparentes de cores fortes envolvem corpos jovens e visivelmente tresnoitados.
 Mente rápida e capaz de fazer cálculos de cabeça, Maria soma o número de beatas, de esposas enfurecidas, que possuíam titulo eleitoral e vontade de votar  e compara com o números de rapazes, de maridos mal amados. Pensa em ter todas aquelas belas jovens no comício na praça e se refaz.
Se solta do abraço da Osmidia, dá um passo para trás, coloca as mãos em torno da grossa cintura bem marcada pela cinta e:
-Então , pergunta quase aos gritos, para que todos escutem, o que tu tens aqui é uma pensão para moças? E não uma casa de tolerância como dizem?
-Por Deus Mariazinha? Como eu poderia? Seria uma safadeza contigo, todas as moças são como que minhas filhas, estão se preparando para voltar aos estudos. Uma delas até sonha em ir para o convento. A música que escutam a noite é coisa de jovem, sabes como é? Mas vou tratar de fazer com que parem com isso.
 E querida, que horas mesmo é o teu comício? Sabes, todas nós temos titulo de eleitor e aquelas que votam em outras cidades já trataram de trocar a Zona eleitoral.  Precisas de ajuda com os balões ou com as bandeirinhas? Já cortamos um monte, levamos que horas para a praça?
Ninguém sabe como as 5 moças cortaram tão rápido tantas bandeirinhas coloridas, mas o certo é que depois da sesta, a porta da pensão da Osmidia se abriu e de lá saíram saltos bem altos, ancas bem marcadas, cabelos coloridos e muita maquiagem, além de perfumes e  bandeiras em profusão para enfeitar o palanque do comício da “Maria da Luz”.
Uma faixa dizia: “Maria trará a Luz estroboscópica  para nossas vidas, vamos votar nesse prazer” E mais, vivas a “Maria da Luz”
Foi o maior sucesso. Todos os homens e rapazes presentes, as crianças, algumas mulheres, na maioria professoras e as solteiras, os gaiteiros e violonistas. Maria discursou, chorou, prometeu e ganhou.
 A luz?
 Veio muito depois.

quarta-feira, 25 de julho de 2012


 Tempo. Que tempo?
Eu não tenho tempo para escrever sobre o tempo.
Lembrei  daqueles filmes onde o tempo se repete, onde  temos a chance de refazer o tempo.
Que momentos da minha vida eu refaria. Não vale dizer todos, como foi o que pensei em um relâmpago.  Quando criança as inúmeras vezes que me envergonho ainda hoje. Quando aceitei o convite da colega de aula para andar pela ponte, cheguei tarde a casa carregando minha irmã caçula, meus pais desesperados? Ainda lembro seus rostos. Não, não refaria, foi muito divertido. Uma liberdade que até hoje procuro. Bem, não me sentiria tão culpada e voltaria a fugir. Quem sabe quando entrei no deposito da loja de pneus a convite da melhor amiga e o tio aleijado dos donos, nossos parceiros de travessuras, me assustou com todos seus atributos acomodados sobre um pneu? Também não desta vez, aprendi com aquilo. A não aceitar qualquer convite, a não entrar onde não conheço e a não confiar cegamente.
  Quem sabe não ter beijado ardentemente meu par no baile dos 15 anos? Não seria possível, ele gostava de mim assim, assustada, ingênua e até meio burra. Teria perdido meu primeiro namorado. A gravidez aos 20 anos? Faria diferente, faria de outro modo, mas não perderia a oportunidade de ter comigo minha doce filha.
   Vamos lá, tenho pouco tempo. Que tempo eu refaria? Se eu tivesse a chance de viver de novo, que história eu mudaria? Congelaria o tempo naquela noite na praia paradisíaca em que das pedras eu via apenas a lua prateada refletida nas pedras e as estrelas? Não, apesar de inesquecível  muitas coisas vieram depois. O gosto daquele amor não foi mais definitivo que o sorriso do neto, nem que o calor de seu abraço.
   Mudaria quem sabe aquela noite em que te encontrei naquele bar? Quem sabe se não tivesse te esperado no banheiro e te beijado ardentemente?  Lembras? Estavas com as amigas que nos apresentaram? Quando levantaste e foste ao banheiro fui junto e sem pudor te beijei.  Quem sabe seria isso que eu mudaria. Não seria tão oferecida, teria esperado que mostrasses interesse por mim.  
  Não, nem isso eu mudaria. Na verdade, se o tempo voltasse e eu tivesse a possibilidade de viver novamente um dia, uma hora, um tempo, seria isso que eu mudaria. Depois do beijo eu não teria saído correndo e sumido da tua vida, eu teria ficado contigo e para sempre teria teu rosto iluminado pelas poucas luzes tendo o corcovado como moldura.  

quinta-feira, 15 de março de 2012




 Eu já fui Primeira Prenda

               Em cada cartela havia 10 números, cada numero custava 1 cruzeiro. Juntei todas com uma borrachinha de dinheiro assim que elas me foram entregues pela professora.
-Contaste todos os números? Perguntou-me ela. Verificaste se não pulei nenhuma sequência?
-Sim senhora, respondi. Mesmo sabendo que meu nervosismo me impedia de processar o que tinha contado.
Até  hoje não sei como tive coragem. Eu era tímida, insegura e sempre parecia estar inadequada ao ambiente. Mesmo assim levantei a mão quando a professora perguntou:
-Quem quer se candidatar? Coragem meninas! Vamos votar em uma representante da turma. Quem quer concorrer a Primeira Prenda? As meninas se candidatam e a turma vota em uma para ser a sua representante.
    Parada na frente da sala ela olhava para todas as alunas, passando os olhos por cima da minha cabeça.
  A proposta era que os colegas elegessem uma candidata entre aquelas que se habilitasse a concorrer.
   Levantei um pouco a mão, ficando ainda com o antebraço colado ao corpo, mas não o suficiente para que toda sala visse. Pensei que teria tempo de recolhê-la caso percebesse uma reação desfavorável.
  A reação desfavorável não veio e a professora rapidamente acolheu minha candidatura.
   Outra colega também se candidatou, olhei furtivamente para trás, a tensão me impedia de pensar, mas fiquei segura em ver que fora Ada, ainda mais feia, mais insegura e mais burra que eu. Eles não teriam escolha. No quadro negro a professora escreveu nossos dois nomes, o meu encima, o dela embaixo. Por ordem de chamada ela ia perguntando aos colegas para qual das duas eles dedicavam o voto.
Momentos tensos, quase a beira do pânico.
Ao lado do nome ela formava quadrados e quem obtivesse mais quadrados ganhava a disputa. Os colegas mais próximos me olhavam surpresos e eu não conseguia acompanhar a contagem.
 Apesar de não ser nada popular, ganhei. A outra era mais infeliz que eu.
Quando a professora me entregou as cartelas uma etapa de meu martírio estava vencida. Senti-me um tanto satisfeita, afinal eu tinha sido melhor.
Eu não saberia dizer se ali começou os dias de angustia que vieram ou se foi uma dor a menos. Junto com elas vinha a responsabilidade do ato que assumi.
-Aqui tens as 10 cartelas, em cada uma têm 10 números. Cuida bem delas, pois elas valem muito dinheiro, precisas vender todos os votos e depois podes pedir mais outros, se venderes todos, é claro. Teus colegas vão te ajudar, cada um vai levar uma cartela para casa, quem quiser mais pode pedir depois. Eles vão vender para ti e colocar teu nome no canhoto. Quanto mais números venderes melhor, vai ganhar quem vender maior número de votos em toda a escola. Quem, de toda escola, conseguir vender mais votos será A Primeira Prenda e dia 20 de setembro receberá a faixa no chá com desfile da escola.
  Sai apressada. Sem em sequer pensar no que diria minha mãe? Somente depois da minha eleição lembrei que ela poderia não gostar e me fazer devolver todas as cartelas. Agora era tarde, só me cabia torcer. Eu ainda poderia recorrer a meu pai, ele certamente me apoiaria.
 Eu precisava vender no mínimo 10 cartelas, menos do que isso eu não teria a menor chance.
  A segunda etapa de minha jornada, rumo ao trono, era contar para minha mãe. Entrei em casa e gritei aquele “mãe” grave, arrastada, típico de quem quer alguma coisa. Ao que ela já respondeu sem paciência. –O que menina?  Senti que era melhor deixar para depois do almoço, mas muito depois ela iria sestear, depois sair, depois jantar, depois não seria hora, já para a cama, e assim se passaria uma semana.
 A professora já havia contado. “Que progresso! Tão tímida”  Quem sabe agora assumiria mais suas responsabilidades, aprenderia a cumprir com os deveres, “lhe fará bem”.
   Não muito convencida, no entanto, sem querer contrariar a colega e mesmo não nutrindo a mesma expectativa, minha mãe sentenciou: Vou te ajudar, mas não vou fazer tudo sozinha, só te ajudar, tu terás que vender teus votos.
  Minha avó ficou envaidecida com a ideia, percebi que ela não tinha entendido exatamente em que condições eu havia obtido a vitória, preferi sorver os sabores desse equivoco e lhe vendi duas cartelas inteiras, mesmo assim faltavam 8.
   A Minha mãe, desta vez, estava se empenhando, vendeu alguns votos  para minhas tias e vizinhas.
 O inverno estava começando e eu tinha ate a entrada da primavera para obter o primeiro título da minha vida e agora posso dizer o único.
      Uma equipe foi montada contando com irmãos, vizinhos, mas, principalmente com minha prima Carla.  Ela era uma espécie de criança que ficava perdida entre o abandono total e a superproteção.  Filha de uma tia rica que morava em uma estância, ficava na cidade com nossa avó com a desculpa de estudar, mesmo que seus estudos não tenham se iniciado aos 6 meses de idade. Por conta da culpa pelo abandono fazia todo e qualquer absurdo que viesse a sua cabeça, sempre tendo a conivência e a desculpa da avó.  Determinada e corajosa foi o marketing político de minha candidatura e mais importante cabo eleitoral. Todas as manhas ela passava na minha casa e me fazia recorrer as ruas da cidade batendo de porta em porta com o mesmo discurso: Bom dia, sou aluna da escola N. Senhora Medianeira e candidata a Primeira Prenda da minha turma, a senhora gostaria de colaborar comprando alguns votos? É só um cruzeiro cada?  Ao final haverá o sorteio de uma caixa de bombons, quanto mais a senhora comprar, mais chance de ganhar. Rapidamente minha prima vendia 5 cupons e passávamos a casa seguinte.
     Mês de junho, mês de julho, as férias de inverno, uma pausa nos negócios e uma temporada na estancia, eu na de meus pais e minha “cabo eleitoral” visitando os seus. Nunca um mês durou tanto tempo.
    Os votos foram apurados no dia 15 de agosto. Na sala da merenda a diretora coloca no quadro negro o numero de votos vendidos. Fico tonta ao ver meu nome escrito por extenso e incrédula diante da soma de 536 votos vendidos contra 511 da adversária, uma loira magrinha uma série a frente da minha. Quem em sã consciência vota em Primeira Prenda loira? Será que não sabem que as gaúchas são morenas? Ana Terra era morena, a Bibiana também.  
       Eu venci, e agora?
     Meu pai olhava tudo aquilo com certa distância, minha mãe, entre o divertida e o enfarada. O vestido! Agora precisamos tratar do vestido. Dia 20 de setembro seria o dia de receber a faixa, um chá, um desfile e o trono. Eu precisava decorar um discurso para agradecer o apoio dos colegas, a professora esclarecia enquanto eu ia pensando um jeito de desistir.
    Em casa minha mãe me colocou pena na vida: Vamos acabando com as visagens, disse, diante dos argumentos de que fico nervosa, que minha voz não iria sair e outros mais. Quem te mandou entrar nisso? Agora vais até o fim.
     O vestido foi reaproveitado da filha da vizinha, na altura era só uma pequena bainha, na largura, nada que uma nesga não resolvesse. Depois colocando uma faixa de fita colorida e uma flor, tudo ficaria lindo e sem um tostão.
      No dia 20 de setembro eu estava pronta. Com meus cabelos fizeram duas tranças grossas e bem pretas, como manda o figurino, arrematados por uma flor vermelha combinando com a faixa da cintura.
   O salão da igreja cedido para a escola estava lotado. Nas mesas redondas mães de alunos e professores tomavam o chá com pequenos pratos de pizza, croquetes e docinhos, tudo feito por algumas voluntárias. 
   O CTG dançou meu pezinho e a chula. A diretora entrou no salão para agradecer a presença e anunciar a Primeira Prenda do ano de 1963. Os agradecimentos foram intermináveis, até que ela convidou a antiga Primeira Prenda, a rainha deposta, para transferir a faixa de Primeira Prenda do ano de 1963 à....à...à e anunciou meu nome como se estivesse falado em um Grande Páreo.
     Entrei no salão lotado e olhando acima das cabeças, ergui meu nariz no teto. “Igual a Ieda Maria Vargas no Maracanãzinho, vamos arrasar” eu lembrei Carla me dizendo.  O desfile foi de princesa, a faixa de miss, no trono, olhando os súditos eu me sentia uma rainha. Faltava o discurso que com voz muito firme iniciei: “Caros Professores, Senhores Pais, Sra. Diretora, queridos colegas, estamos aqui...

domingo, 11 de março de 2012



 O homem velho
Sentado a minha frente um homem da minha idade faz adaptação de sua filhinha de 2 anos na escola infantil.
Em uma pequena sala, com mesas e cadeiras de criança, algumas de mulheres jovens, atacadas pela mesma angústia, trocam experiências. Presente apenas dois homens, o velho e um rapaz que acompanha seu filho desde o primeiro dia.  O pequeno e meu neto enfrentam seus destinos sem covardia. As meninas, no entanto, choram, se lamentam e torturam suas mães, cobrando caro a falta do pênis. Observo o velho pai. O jovem não precisou de muitos estímulos para entrar na conversa e falar acaloradamente de suas experiências. O velho continua fingindo que consegue não ouvir e com arrogância intelectual lê seu livro fazendo anotações.
  Muitas coisas eu pude retirar dessa experiência nesse universo já tão distante para mim.
A dificuldade das mães em se desprenderem dos filhos, a inabilidade das escolas para esclarecer o que é o ingresso na escolinha, a histeria sendo instalada em meninas tão pequenas. Mas, o que mais me chamou a atenção foi o homem da minha idade e sua filha fora de época.
    Casar com mulher mais jovem, sendo um homem mais velho, é um hábito muito antigo que se mantém como pratica em algumas culturas que tomamos como atrasadas. Foi muito comum antes dos métodos contraceptivos, as mulheres precisavam ser jovens para aguentar tantas gravidezes.
    Depois, o corpo jovem desse objeto de carne, servia de adorno para homens velhos e bem sucedidos, mas um pouco desprovidos de outras virilidades. Aos poucos essa pratica foi sendo restrita a alguns vaidosos de si mesmo, arrogantes e que já não queriam seguir os tempos e as convenções, populares, ricos e ridicularizados.
     Minha surpresa foi constatar que um número expressivo de homens vinculados à cultura, artistas, jornalistas, intelectuais de toda ordem, casavam com jovenzinhas quem sabe encantadas com um discurso de modernidade, disfarçando o velho e antiquado machismo.
   Em pouco tempo eles perdem a paciência com a infantil jovialidade de suas parceiras. Elas se tornam velhas amargas e mal comidas em busca do reconhecimento profissional e da posição que eles têm. A triste nova cara de algo muito antigo. 





O amante

 De onde estava podia ver o filho, a nora, os netos e o cachorro da família. As vezes tinha vontade de congelar as imagens. Poderia tentar fotografar alguma delas, talvez fosse uma boa maneira de parar o tempo, as cenas, mas será que seria capaz de enquadrar na fotografia o sentimento que elas lhe causavam?

Um pouco acima de onde estava, em uma pequena coxilha, eles estavam parados, o cachorro correndo, o verde do capim alto, o vento e o sol dourado, bem ao fundo, fazendo de tudo um enquadre perfeito. Era, sem duvida nenhuma, a imagem da paz, do amor. Na sua frente o marido abraçava pelo pescoço a égua manga larga, o potro agitado corria na volta. Ela ainda gostava muito de tudo aquilo. Ele estava feliz. No campo ele era assim, diferente da cidade, que o transformava em um sujeito tenso, mal humorado. Estava bonito, ela achava que assim, de botas, bombachas e demonstrando seu poder sobre o animal que docemente se entregava aos seus afagos, ele ainda era bonito.

Não queria preocupar-se com nada, não iria decidir coisa alguma naquele momento e talvez nunca viesse a se decidir. A visão da família na casa de campo, depois de tanto tempo, lhe emocionava, lhe entristecia. Sabia que tinha ali o que mais amava: o campo, os filhos, os animais, e também o marido, claro, ela também o amava.  Desde pequena foi uma pessoa gulosa, queria tudo, sem precisar perder, sem precisar escolher. Agora estava impossível, não poderia sustentar essa situação por muito tempo.

No inicio tinha tentado fazer dos encontros com o amante uma aventura passageira. Cada vez que marcava um encontro se dizia que seria o último e mesmo que fosse bom, jamais teriam a oportunidade de se verem novamente. Essa era a formula que encontrava para ter coragem de ir. Escolhia calmamente o vestido, o perfume, a calcinha. Tudo podia ser bem cuidado, se tratava de uma encenação, de uma personagem que não voltaria a encenar. Como uma atriz se despedia da sua platéia, cada vez como se fosse a última. Mas, como toda diva, ela voltava, mesmo após cada despedida e após cada ultimo espetáculo.

Passaram-se tantos encontros que não pode mais contar e mesmo que tenha esperado o encanto ir embora as ultimas horas passadas juntos eram sempre melhores que as anteriores, a intimidade aumentava o encantamento, ao invés de acabar com ele.

Saia de cada momento juntos, encharcada do amante. Não se tratava do cheiro impregnando nas suas narinas, não podia lembrar o cheiro que ele tinha, mas o sorriso estava sempre colado na sua memória, as mãos marcadas na sua anca, a imagem dos corpos nos seus olhos, as propostas ainda sussurravam ao seu ouvido. Banhava-se, a água não era suficiente para lavar.  Não sabia se com o amante acontecia algo semelhante, não importava, na verdade não esperava reciprocidade, não esperava continuidade. Primeiro tinha se apaixonado pela própria paixão, viver as emoções, os prazeres. Entregava seu corpo aquele estranho, e se empolgava ainda mais com o prazer que via nos olhos dele.  Sentia pena de si mesma, deveria ter tido a chance de viver isso na juventude, se sentia roubada. Alguém tinha lhe usurpado o direito ao gozo livre. Agora aprendera a se entregar, a viver as mãos do outro como sendo parte de sua pele, agora era presa das suas convenções, da sua historia, das suas escolhas.

Chorava lágrimas secas para que ninguém percebesse.

Quando voltasse a cidade iria tentar marcar mais um encontro e sem duvida deveria ser o ultimo.  Gostaria de encontrá-lo em um bar ou restaurante, assim poderiam conversar sem que ele tentasse tapar suas palavras com beijos e fingir que ali não havia nada além de desejo. Os homens ainda fazem isso melhor que as mulheres, são capazes de se convencerem que amor e desejo são coisas tão separadas que não precisam se questionar sobre o que eles sentem pelas amantes. Sabia que ele não iria aceitar outro tipo de encontro e os motéis ainda continuavam sendo o lugar mais seguro para que as atividades secretas se mantivessem secretas.

O fundamental era que nada daquela historia saísse dali, aquele conto de fadas jamais poderia se tornar uma parte de sua realidade. Afastou a ideia do restaurante.

O vento bateu nos seus cabelos, enterrou o chinelo na lama, ficou descalça e sentiu medo da possibilidade de seus segredos serem desvendados. O marido lhe estendeu a mão, o neto lhe alcançou outra laranja. Teria que acabar com aquele absurdo imediatamente, não suportaria o sofrimento daquela gente que ingenuamente acreditava em seu amor, se sentia desonesta, horrorosa.

              Seus prazeres e seus amores sempre estiveram na mesma bagagem. Seus filhos, seu lar, seu trabalho na mesma ordem que era de esperar a uma boa mulher. Agora tudo ficou assim, sem lógica, sem prioridades, aquilo que é o amor estava a léguas do dever.

            Tinha tentado brincar com seus sentimentos, tinha tentado se fazer outra, menos romântica, menos sonhadora. Precisou de pouco tempo para descobrir que continuava sendo uma menina boba, de hábitos e sonhos medíocres. O que poderia ter sido uma aventura perversa, estrondosa e sem fronteiras, transformou-se em um delírio de união e um desejo infantil de estar junto. A seguir vieram as músicas, os presentes, os perfumes, o interesse pelo trabalho dele, por sua intimidade, sabia que esse era o caminho mais rápido para finalizar um romance furtivo.

       A ponta da camisa tinha virado uma sacola improvisada onde o neto colocava as frutas do pomar, parada olhando a si própria, viu a sacola encher e ir-se derramando. As laranjas caindo pelo morro e ela acompanhou aquilo com o olhar preso nas frutas que rolavam como se sua vida estivesse assim, rolando, rolando.

     Há alguns meses tinha descoberto a fórmula para acalmar sua angústia e diante de tudo pensou que ao final estava segura, bastava nunca mais procurá-lo. E, aquilo que poderia ser a morte de qualquer amante, saber que seu amado não lhe buscaria e que o fim dependia dela, tornou-se um calmante para ela. No outro dia, já na rotina urbana, enviou ao amante uma mensagem, nela escreveu: “Oi, ainda lembra de mim?”

quinta-feira, 1 de março de 2012

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012


 O encontro  



  Novembro,2005



           Procuro parecer um pouco mais calma, mesmo que a mão não pare de tremer, é pelos olhos que começo a maquiagem. Primeiro, a sombra marrom nas pálpebras para dar profundidade, depois, a branca nas sobrancelhas para levantar a expressão dos olhos, o delineador junto aos cílios superiores para marcar a expressão, e por último, um contorno escuro de lápis, tudo isso após várias expressões no espelho e olhando fixamente não nos meus olhos, mas nos teus, naquilo que vais ver.

Chegou aquele dia do encontro esperado. Durante muito tempo fiquei imaginando como seria e por mais que tenha me preparado sempre acabam em surpresas.  Estou nervosa, mas não quero me apurar. Apressar as coisas e pular etapas seria por em risco todo um planejamento. Tudo precisa sair conforme os sonhos, caso contrário vai parecer realidade.

Novamente um leve tremor interno revela a angústia que procuro esconder.

Todo o ritual perde o sentido se ele for denunciado pelo resultado, ao final deve parecer que tudo foi muito casual e tu não deves perceber que foi meticulosamente preparado.

Tomo um longo banho como de uma virgem sendo preparada para o matrimônio, cada parte do corpo calmamente lavada, o pescoço, a virilha, as pernas, os cabelos. O sabonete perfumado de jasmim guardado para este momento.

O xampu o mais cheiroso deve se fazer notar toda vez que o vento levar meus cabelos para perto de ti, por isso eles devem estar bem limpos, bem brilhantes.

 Precisam te provocar a vontade de pega-los e se isso acontecer, estarem macios.

Em toda minha vida sempre dei muita importância para os cabelos. Minha relação com eles parece semelhante à história de Sansão e Dalila e depende do estado deles me sentir capaz de dominar uma situação ou não. É uma norma jamais enfrentar nada perigoso de cabelos sujos, presos ou mal penteados, está neles a possibilidade de vencer.

A água quente do banho me fez pensar no tempo que posso estar perdendo e o quanto gostaria de já estar lá. Procuro me acalmar.

Coloco o perfume de sempre, nisso não é bom inovar. É fundamental que meu cheiro seja reconhecido, trocar o perfume é como trocar o nome e te fazer crer que poderia ser uma mulher qualquer.

Passo aos poucos o creme no corpo, que além de tornar a pele macia, faça-a ficar cheirosa, não demais, não de longe, apenas quando encostares o rosto, para sintas bem de perto. O perfume do creme não deve competir com o perfume escolhido, esse deve se salientar e ser sentido com o menor movimento, como uma onda que vai e volta sem te impregnar, com cuidado, sem querer te tontear.

Assim começa então a maquiagem; o creme, a base para dar colorido ao rosto, o pó para cobrir a base, não muito, não demais, lembrando que não deve emplastar, nem sujar tua roupa se for preciso encostar-me ao teu ombro ou na tua gola. E, finalmente, o blush que torna as maças do rosto salientes e com aquele ar de menina que bebeu champanhe. O rimel que alonga os cílios; o batom agora não, este deve ficar por último, quase na hora de sair, para que se mantenha por mais tempo.

Sobre a cama já está o vestido que foi calmamente escolhido.

Saia vaporosa para que no menor movimento a perna apareça; seda macia para que seja suave ao toque ou desperte essa vontade. Um decote insinuante que te mostre bem menos do que prometa mostrar, mas o suficiente para permitir a tua imaginação viajar e procurar, a cada movimento, aquilo que ele esconde. Nas costas o vestido deve marcar a calcinha de um modo despretensioso, não evidente, apenas a sombra, sugerindo-te, no momento apropriado, o contorno da nádega no balanço do caminhar que deve ter um gingado.

            Um gingado de um samba mudo e assim, a escolha dos sapatos altos, bem altos, salto fino alongando os pés e que transforme o caminhar em passos de bailarina. Não coloco meias, a perna deve estar livre como que a esperar as tuas mãos.

            Os brincos combinando com a cor do vestido, muitos anéis e pulseiras por que sei que gostas de me ver adornada.

Por fim, no pescoço, um colar de duas voltas de pérolas pequenas sobre o colo nu, pois, depois de tudo, é apenas com ele que eu desejo me cobrir ao teu olhar.