Maria da Luz
Seus passos eram largos e firmes, pisavam a terra e enterravam
o salto agulha com força. Só parou quando chegou à porta da casa da Osmidia.
Maria Afonsina, para
os inimigos e para os amigos, Mariazinha. Não era doce, nem meiga, nem tinha a
voz macia, mas insistia em ser chamada de Mariazinha, dizia que assim esqueceriam o Afonsina.
Usava o cabelo loiro platinado, mesmo com a tez morena. Era
a moda das artistas. A boca vermelha ainda em forma de coração, como se
continuasse sendo uma melindrosa. Nos olhos, sombra muito azul e uma pinta bem
preta feita com lápis, um dedinho acima do lábio. Nunca esquecia os brincos
enormes. Quando caminhava, e principalmente quando tinha pressa como naquele dia,
as ancas balançavam para cima e para baixo, dando a ideia de um transatlântico
navegando ao sabor das ondas do mar. Devia ser isso que fazia os homens pararem
e rodarem a cabeça ao vê-la passar. Mas, apenas os forasteiros, porque os
moradores da vila não teriam coragem de serem pegos naquele ato de cobiça, ela
virava uma zorrilha furiosa, sendo capaz até de capar um, como vociferava.
Era ousada para o
vilarejo. Deixava bem claro que seguia os ditames da cidade maior que visitava
com frequência para fazer as compras para a botica que mantinha no armazém do
irmão. Um quadradinho no canto, com uma prateleira e uma vitrina que era também
virada para a calçada. Vendia cortes de tecidos, pentes, escovas, esmaltes,
batons, água de colônia , metros de fita mimosa colorida, novelos de lã,
agulhas e muitas utilidades femininas que jamais poderiam faltar para as
mulheres da região. Orgulhava-se de ter sido a primeira a vender um pacote de
absorvente higiênico Modess, assim como vaselina e alguns remédios de senhores.
Pensava em tudo.
Foi por seu
dinamismo, sua popularidade e carisma que se tornou cabo eleitoral. Nomeada
pelo próprio candidato a prefeito quando esteve em campanha na vila. Ela foi ao
comício, levou um lenço vermelho e abanou bem alto enquanto gritava: “já
ganhou!” Ele ficou muito impressionado com sua animação, e com o decote que
pulava junto com o lenço. A convidou para o almoço, para o café e dizem até que
para a sesta, mas isso ninguém pode provar.
Teve orgulho de
ser cabo eleitoral na primeira campanha do tal candidato, subiu no palanque com
ele nos comícios seguintes. Inventou de levar o gaiteiro para alegrar e foi um
sucesso de publico, fez bandeirinhas e usou um megafone. Distribuía balas para
as crianças e quilos de mantimentos do armazém do irmão, até deixa-lo furioso e
quase acabar com os estoques. Com a
vitória esmagadora foi para a cidade participar da posse. Depois disso, ele
nunca mais voltou, nunca mais a recebeu na prefeitura e nunca cumpriu o
combinado de trazer “O progresso e a luz elétrica”
Na eleição
seguinte se candidatou ela própria a vereadora e decidiu que faria campanha
para si mesma e teria ela as benesses da popularidade.
À noite, à luz de
lampião bolava os slogans da campanha, como nos grandes centros. Confeccionaria
faixas com os tecidos de fraldas e nelas pintaria bem grande em vermelho seu
nome, mas precisava de algo mais forte, de mais impacto. “ Maria de Deus”, não,
muito religioso. “Maria do povo”, não,
muito vulgar. Então, resolveu por: “Maria da Luz” por prometer a luz elétrica
para todos.
E assim foi. Em
letras enormes escreveu: Vote em Maria da Luz e você nunca mais viverá no breu.
Luz para todos, do Peão ao Patrão. Vamos acabar com os namoros no escurinho,
luz no bailão. As faixas foram espalhadas pela vila.
Uma trupe de meninos
corriam atrás dela, algumas mulheres e as beatas, loucas para ver no que daria o produto de suas fofocas.
Os carroceiros e os cavalheiros pararam, enquanto os bêbados chegaram nas
portas dos bares. Um e outro arriscou perguntar aonde ia com tanta pressa, ao
que ela respondeu:” venha comigo e verá”.
Do outro lado da
praça o irmão da porta do bar gritou: “Volta para casa, Maria! Para de arranjar
bolo, não vês que tu vais perder a inquilina” Ela apenas levantou a mão e
continuou.
Na frente da casa da
Osmidia parou e com as mãos nas cadeiras gritou pela inquilina e amiga, atrás
dela toda a trupe que a seguia.
- Osmidia, Osmidia!
Uma fresta da porta se abre e uma mulher de idade semelhante
aparece meio escabelada.
-Bom Dia Maria. Que fazes aqui tão cedo? E fingindo não
perceber o ar afobado da amiga, pergunta: Aconteceu alguma coisa com tua
família?
- Coisa nenhuma Osmidia. Estavas dormindo até a essa hora?
Afinal o que fazes a noite, o que acontece ai na minha casa?
- Não, não Mariazinha, acordo bem cedinho, agora estava
apenas descansando, ontem foi sábado. Nós ficamos, eu e as meninas, até tarde
jogando uma canastra, às brinca, nada de dinheiro. Não quero que elas agarrem o
vicio.
-É justamente sobre isso Osmidia, quero saber sobre tuas
meninas. O que elas fazem aqui, quem são?
Atrás dela uma mulher gritou:
“Isso! Isso! Fora com essas vagabundas”
Ela na virou a cabeça e continuou:
-Dizem, as senhoras
da igreja que tu transformaste a casa que era dos meus pais, onde morava a
minha santa mãezinha, em uma casa de tolerância. Elas disseram isso para o
Santo Padre e pediram a ajuda dele para acabar com a minha candidatura.
Disseram que sou conivente com essa pouca vergonha. Que vão boicotar minha
campanha, que a luz que darei é a do fogo do inferno. Isso vai acabar comigo,
Osmidia. Tu não vês que estás prejudicando a minha candidatura?
-Maria, minha grande amiga! Como podes acreditar em tamanha
calúnia? Logo eu, tão devota de Santo Antônio e Santa Rita. Como eu poderia? Tu
não podes acreditar em tudo que essas invejosas dizem. Minhas meninas são meninas de bem, me ajudam
na lida da casa, estão aqui por uns dias, seus pais tem muitos filhos, eu as
ajudo nos estudos. Pobre de mim, Maria, tu não podes acreditar nisso e tirar a
minha casinha”. Chorava e tentava se abraçar na Mariazinha. No rosto lhe
escorria os restos do rímel barato. Maria a afastou gentilmente cuidando para não
sujar sua blusa.
Osmidia arrematou dizendo:
“Agora mesmo eu e as meninas estávamos preparando faixas e bandeirinhas
para irmos ao teu comício, logo mais a tarde”
Cabeças amarradas em
lenços e grandes rolos aparecem nas janelas, chambres transparentes de cores
fortes envolvem corpos jovens e visivelmente tresnoitados.
Mente rápida e capaz
de fazer cálculos de cabeça, Maria soma o número de beatas, de esposas
enfurecidas, que possuíam titulo eleitoral e vontade de votar e compara com o números de rapazes, de
maridos mal amados. Pensa em ter todas aquelas belas jovens no comício na praça
e se refaz.
Se solta do abraço da Osmidia, dá um passo para trás, coloca
as mãos em torno da grossa cintura bem marcada pela cinta e:
-Então , pergunta quase aos gritos, para que todos escutem,
o que tu tens aqui é uma pensão para moças? E não uma casa de tolerância como
dizem?
-Por Deus Mariazinha? Como eu poderia? Seria uma safadeza
contigo, todas as moças são como que minhas filhas, estão se preparando para
voltar aos estudos. Uma delas até sonha em ir para o convento. A música que
escutam a noite é coisa de jovem, sabes como é? Mas vou tratar de fazer com que
parem com isso.
E querida, que horas
mesmo é o teu comício? Sabes, todas nós temos titulo de eleitor e aquelas que
votam em outras cidades já trataram de trocar a Zona eleitoral. Precisas de ajuda com os balões ou com as
bandeirinhas? Já cortamos um monte, levamos que horas para a praça?
Ninguém sabe como as 5 moças cortaram tão rápido tantas
bandeirinhas coloridas, mas o certo é que depois da sesta, a porta da pensão da
Osmidia se abriu e de lá saíram saltos bem altos, ancas bem marcadas, cabelos
coloridos e muita maquiagem, além de perfumes e
bandeiras em profusão para enfeitar o palanque do comício da “Maria da
Luz”.
Uma faixa dizia: “Maria trará a Luz estroboscópica para nossas vidas, vamos votar nesse prazer” E
mais, vivas a “Maria da Luz”
Foi o maior sucesso. Todos os homens e rapazes presentes, as
crianças, algumas mulheres, na maioria professoras e as solteiras, os gaiteiros
e violonistas. Maria discursou, chorou, prometeu e ganhou.
A luz?
Veio muito depois.



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