Mais um conto:
A Peleia
Maria Cristina Petrucci Sole
Fevereiro/2011
Oswaldo sabia que tinha muito pouco tempo. Era cada vez mais forte o falatório de que em Porto Alegre e em Pelotas rinhedeiros haviam sido fechados pela policia federal. As brigas de galo de rinha eram agora ilegais.
Aqueles que criavam, os galistas, os donos de rinhedeiros ou os meros apreciadores de galos de briga, a partir dessa data seriam considerados fora da lei.
Oswaldo nunca se imaginou um delinqüente, nunca pensou estar fazendo algo passível de ser preso. Criar galos de rinha era um prazer que tinha herdado de seu pai, assim como outros herdaram gosto pela caca ou pela pesca.
No último domingo havia tentado convocar os parceiros para uma manifestação publica, pensou em uma passeata, uma greve ou algo semelhante.
Alfredo, mais uma vez Alfredo, levantou-se na arena transformada em assembléia e gritou: -“Qual é tua, tche? Queres nos juntar para ficar mais fácil pros porco nos prender? Assim, todos nóis bem juntinhos?”
Os outros caíram na risada deixando Oswaldo muito encabulado.
No jornal de Pelotas apareceu a foto de uma batida da policia federal em um rinhedeiro. Caras que já tinham participado de rinhas com Oswaldo saindo algemados e sendo tratados como marginais. Ele não era capaz de entender.
De qualquer maneira, precisava então se apressar. De forma alguma abandonaria as rinhas sem vingar a morte de seu grande campeão, o “Naranjo”.
Ele não poderia deixar Alfredo saboreando o resto da vida, mais essa vitória.
Alfredo era seu inimigo publico numero 1, mesmo que não fosse tão publico assim, para os outros do Rinhedeiro Calcutá, eram amigos de infância. Oswaldo odiava-o desde sempre, embora as mães fossem amigas da igreja, e os pais corressem retas juntos.
Muitas vezes teve vontade de avançar sobre Alfredo e quebrar todos seus dentes. Aquele sorriso largo e debochado acabaria com um soco certeiro.
A primeira vez que disse em voz alta: “Um dia ainda quebro a cara desse imbecil” a mãe lhe prometeu uma semana sem janta. Depois na escola, em um ataque de fúria e cheio das provocações de Alfredo, tentou, mas ficou um recreio inteiro escrevendo: “Não devo bater no meu amigo”
Oswaldo era mais corpulento que Alfredo, durante toda a vida soube que poderia massacra-lo, embora, por razoes que jamais poderia explicar a oportunidade de mostrar sua superioridade nunca aconteceu.
Alfredo foi o primeiro a ir para a escola montado em um cavalo e não mais em um petiço. Passava a galope rindo-se do trote duro do Socado, o petiço gordo de Oswaldo. Nos bailes de bolanta sempre na frente, convidava a moca mais bonita para dançar. Casou cedo com a Marcinha, a mais bunduda e com a tranca mais dourada.
Alfredo torcia pelo time que sempre chegava as finais e não tinha nenhum pudor em lembrá-lo disso.
Como se não bastasse, presenciou sua primeira queda de um cavalo, e passou o resto da vida lhe perguntando: “quebrou o relógio?”,
Alem disso, agora, depois de adultos, Oswaldo precisava engolir que Alfredo era dono do galo que assassinou seu grande campeão.
Não era uma coisa simples criar um galo bom de briga, precisava de um excelente faro na escolha do animal com apenas 6 meses e muita paciência no treinamento.
As discussões com a esposa perdiam a importância quando Oswaldo se imaginava acabando com o Alfredo, ou melhor, seu galo acabando com o galo do Alfredo.
Helena não suportava sua criação de galos de rinha desenvolvida em um galpão no fundo do pátio. Dizia que eles juntavam ratos e que Oswaldo passava todos os fins de semana limpando as gaiolas e treinando os bichos.
A esposa odiava que tivesse transformado sua casa em um grande galinheiro.
Oswaldo tentava explicar que era um Centro Esportivo de Treinamento de Campeões, mas ela parecia não entender.
Ele usou toda a habilidade que herdou do avo marceneiro para construir as gaiolas de madeira, quadradas com pequenas janelas por onde os galos comiam e bebiam. Deveriam ser distante o suficiente e bem fechada para que os galos não fugissem e não fossem brigar na gaiola dos outros. Eram forradas com serragem que necessitava ser trocada de tanto em tanto para não juntar piolhos e mesmo assim, Oswaldo sempre encontrava alguns. Tinha orgulho de dizer que sua criação contava com 10 galos adultos e já preparados e mais uns dois franguinhos em crescimento.
Todos os sábados ele chegava do trabalho e sentava no banquinho de madeira para preparar os galos. Um a um era massageado nas coxas com cachaça, na mesma direção, de cima para baixo, para a musculatura pegar firmeza. As penas das coxas aparadas bem rentes e estas ficavam vermelhas e firmes. Depois de muitos minutos nessa massagem, atirava-se o guerreiro para o alto mais um numero incansável de vezes, as asas ficavam firmes e ele aprendia a cair já preparado. Depois de treinado o atleta ficava preso pela pata ao amarrador para estar um pouco livre sem o risco de ir brigar com os outros galos.
Galos como o Naranjo precisavam ser treinados e vitaminados. A crista bem aparada e as puas substituídas por puas de aço para fazerem um estrago mortal no adversário.
Depois de massageados os galos eram pesados em balanças de feira, separados segundo o peso e a idade e então, colocados frente a frente no tambor.
Aos domingos, enquanto Helena ia a missa das 10hs, Oswaldo pegava o galo que tinha treinado toda a semana e com ele na sacola de lona, se dirigia para o Rinhedeiro Calcutá. O bicho ia com a cabeça para fora já pronto, como que chamando o adversário.
Todo o esforço era compensado pela manha de domingo.
Encontrava os amigos, comia ovos cozidos com um martelinho ou dois e com isso a coragem para as apostas fluía fácil.
Nas suas rinhas, era orgulhoso do resultado, ganhava muitas lutas e até algumas tacas que depois Helena as exibia na sala de visitas.
Quando acontecia de perder, seja porque o galo, mesmo valente, era derrotado ou porque era um daqueles covardes, que não ia para o careio e se comportava como galo crioulo que foge do outro, rodando em círculos pela arena, ele virava canja. Torcia-lhe o pescoço e preparava-o para a janta.
Helena dormia sem comer. “A carne é dura”, dizia. Verdade, de tanto treino a musculatura ficava ruim para o apetite. Oswaldo comia vingado do bicho covarde que o tinha feito passar vergonha.
Naranjo era um galo inglês puro, diferente, grande, altivo, corajoso, uma penugem amarelo acobreado, daí o nome copiado de um castelhano. Tinha patas longas e fortes, uma ferroada de suas puas era na certa uma garganta estrangulada ou um olho perfurado. Desde frangote era o campeão de varias rinhas e responsável por outros tantos virarem canja.
Todos no Rinhedeiro Calcutá temiam o seu galo Naranjo, até o dia que Alfredo apareceu com um galo velho, meio caolho e todo cheio de cicatrizes. Caolho era um galo ressagado, matreiro, que batia pelo cheiro, tinha um ar fingido que parecia o próprio Alfredo. Ele comprou o galo de um colono de Morro Redondo e apareceu de surpresa naquele domingo chuvoso.
Oswaldo devia ter desconfiado do ar maldoso que Alfredo portava e ter ido para casa pegar Helena para almoçar na sogra, mas ele nunca conseguia sair antes do portão fechar. E depois passou semanas se culpando.
O sino soou e Oswaldo jogou Naranjo no tambor. Era a segunda luta agendada para aquela manha.
Naranjo, se aprumou, soltou um canto de guerra, baixou a o bico na direção do tal Caolho, arrepiou as penas do lombo, levantou as asas e foi valente como sempre fora. Ele estava pronto, bem preparado, fazia alguns domingos que não entrava no tambor, só em casa comendo e treinando. Andou ate o Caolho e o bicou forte na penugem da cara, segurou as penas e bateu com as puas no peito do outro galo. Caolho balançou, foi e voltou. Os dois galos ficaram rodando por alguns minutos, bico com bico, cara a cara, ate parecendo luta de gente, poderia se sentir o ódio de um pelo outro.
Os companheiros sentiram que seria luta boa e corriam da arquibancada ao tambor, apostando primeiro no Naranjo, para depois, aos poucos, irem se dividindo. A diretoria e os mais importantes, sentados nas cadeiras da primeira fila chegavam a levantar e eram vaiados pela galera dos puleiros. Oswaldo foi ficando preocupado e pressentindo que seria difícil para o Naranjo. O galo velho sabia do recado. Alguém sussurrou ao seu ouvido: “Tira o galo Oswaldo. Olha que el diablo és diablo mas por viejo..” ele só escutou depois, se lamentando em casa. No entanto, não faria isso, não perderia para o Alfredo por covardia, mesmo que lhe valesse o Naranjo e valeu.
A principio chegou a pensar que Alfredo poderia ter drogado seu galo, depois pela sangueira, que ele tivesse colocado giletes nas puas do caolho, mas no intervalo enquanto refrescavam os galos, pode verificar que nada disso havia acontecido.
Depois de alguns minutos muito sangue estava espalhado pelo tambor. Quando os galos sacudiam a cabeça tentando se livrar da dor, jogavam o sangue até nos parceiros do puleiro. Naranjo estava quase cego de um olho, mas batia e caia, deixou Caolho na lona duas vezes e mesmo assim o maldito galo velho levantava e com forca acertava o peito de Naranjo com as puas. Foi numa destas, entre gritos dos parceiros, apostas e torcidas que Oswaldo viu o maldito acertar a pua no ouvido do seu galo e dali jorrar um jato fino de sangue. Naranjo rodou, deixou cair a cabeça e depois de algumas voltas caiu durinho.
Na saída, Alfredo gritou: “Oswaldo! Me esqueci de te dizer o nome do meu galo: Ele era chamado de Caolho, O assassino” e foi- se, rindo”.
Oswaldo não chorou, macho não chora. Voltou acabrunhado para casa, brigou com a Helena pelo excesso de sal no feijão e passou o resto do domingo fechado no quarto. Jurou vingança.
Passou a procurar sem descanso um galo capaz de destruir o tal Caolho, O assassino.
Primeiro procurou no seu criatório, depois sondou os amigos e nada.
Sentado no pequeno banco de lona olhava os frangos que um parceiro treinava no seu pátio, e apareceu o aquele que iria se chamar Pimenta. Os galos só adquiriam nomes quando tomavam alguma importância para seus donos.
Esse frangote era o galo certo para vingar Oswaldo, rápido como a juventude, feliz, debochado, daqueles que não respeita nem a própria linhagem.
Ele passou a treiná-lo e por sorte o verão tinha dias mais longos, então, ao chegar do trabalho, Oswaldo ainda tinha luz o suficiente para mais algumas horas de preparo.
Pimenta, com a penugem pintada, magro, esguio, e rápido, muito rápido, tão rápido que nenhum velho poderia com ele, estaria pronto no próximo domingo.
O sábado parecia interminável, o sol de domingo acordou Oswaldo nos primeiros raios que não conseguiu esconder de Helena a euforia. “Vais mesmo ao rinhedeiro? Estás tão afoito que estou achando que ai tem coisa. Não pensas que me enganas.”
O café, a ração vitaminada do Pimenta, a sacola de lona e era só esperar... O relógio não andava.
Helena iria a missa mais cedo, dia de batizado precisava ajudar as amigas a enfeitar a igreja. 9:30hs Oswaldo pronto se dirige ao Rinhedeiro Calcutá, todos amigos avisados para não faltarem, mesmo em caso de chuva.
Ao cruzar a Rua Marechal Deodoro, Oswaldo vê Helena, quase correndo em sua direção, parecia saltitando e no seu rosto um olhar estranho fez com que ele desconfiasse de alguma noticia surpreendente.
Ela se aproximou e praticamente gritando, até parecendo meio feliz, contou:
“Oswaldo! Oswaldo! A Policia bateu no Rinhedeiro Calcutá. Prenderam todo mundo. Vim correndo te avisar, ainda bem que ainda estás ai.
Prenderam também o Alfredo. Ele tentou resistir, irritou os guardas e eles encheram o coitado de porrada. Bateram com cassetetes por todos os lados da cabeça. Enquanto ele espirrava sangue pelo nariz a mulherada da igreja gritava e rezava. “Foi um Deus nos acuda”.
Foi quando Pimenta aprendeu a voar e da igreja só se ouviu Oswaldo gritar:
“Filhos de uma puta, chegaram antes de mim”.
Maria Cristina Petrucci Sole
Fevereiro/2011
Oswaldo sabia que tinha muito pouco tempo. Era cada vez mais forte o falatório de que em Porto Alegre e em Pelotas rinhedeiros haviam sido fechados pela policia federal. As brigas de galo de rinha eram agora ilegais.
Aqueles que criavam, os galistas, os donos de rinhedeiros ou os meros apreciadores de galos de briga, a partir dessa data seriam considerados fora da lei.
Oswaldo nunca se imaginou um delinqüente, nunca pensou estar fazendo algo passível de ser preso. Criar galos de rinha era um prazer que tinha herdado de seu pai, assim como outros herdaram gosto pela caca ou pela pesca.
No último domingo havia tentado convocar os parceiros para uma manifestação publica, pensou em uma passeata, uma greve ou algo semelhante.
Alfredo, mais uma vez Alfredo, levantou-se na arena transformada em assembléia e gritou: -“Qual é tua, tche? Queres nos juntar para ficar mais fácil pros porco nos prender? Assim, todos nóis bem juntinhos?”
Os outros caíram na risada deixando Oswaldo muito encabulado.
No jornal de Pelotas apareceu a foto de uma batida da policia federal em um rinhedeiro. Caras que já tinham participado de rinhas com Oswaldo saindo algemados e sendo tratados como marginais. Ele não era capaz de entender.
De qualquer maneira, precisava então se apressar. De forma alguma abandonaria as rinhas sem vingar a morte de seu grande campeão, o “Naranjo”.
Ele não poderia deixar Alfredo saboreando o resto da vida, mais essa vitória.
Alfredo era seu inimigo publico numero 1, mesmo que não fosse tão publico assim, para os outros do Rinhedeiro Calcutá, eram amigos de infância. Oswaldo odiava-o desde sempre, embora as mães fossem amigas da igreja, e os pais corressem retas juntos.
Muitas vezes teve vontade de avançar sobre Alfredo e quebrar todos seus dentes. Aquele sorriso largo e debochado acabaria com um soco certeiro.
A primeira vez que disse em voz alta: “Um dia ainda quebro a cara desse imbecil” a mãe lhe prometeu uma semana sem janta. Depois na escola, em um ataque de fúria e cheio das provocações de Alfredo, tentou, mas ficou um recreio inteiro escrevendo: “Não devo bater no meu amigo”
Oswaldo era mais corpulento que Alfredo, durante toda a vida soube que poderia massacra-lo, embora, por razoes que jamais poderia explicar a oportunidade de mostrar sua superioridade nunca aconteceu.
Alfredo foi o primeiro a ir para a escola montado em um cavalo e não mais em um petiço. Passava a galope rindo-se do trote duro do Socado, o petiço gordo de Oswaldo. Nos bailes de bolanta sempre na frente, convidava a moca mais bonita para dançar. Casou cedo com a Marcinha, a mais bunduda e com a tranca mais dourada.
Alfredo torcia pelo time que sempre chegava as finais e não tinha nenhum pudor em lembrá-lo disso.
Como se não bastasse, presenciou sua primeira queda de um cavalo, e passou o resto da vida lhe perguntando: “quebrou o relógio?”,
Alem disso, agora, depois de adultos, Oswaldo precisava engolir que Alfredo era dono do galo que assassinou seu grande campeão.
Não era uma coisa simples criar um galo bom de briga, precisava de um excelente faro na escolha do animal com apenas 6 meses e muita paciência no treinamento.
As discussões com a esposa perdiam a importância quando Oswaldo se imaginava acabando com o Alfredo, ou melhor, seu galo acabando com o galo do Alfredo.
Helena não suportava sua criação de galos de rinha desenvolvida em um galpão no fundo do pátio. Dizia que eles juntavam ratos e que Oswaldo passava todos os fins de semana limpando as gaiolas e treinando os bichos.
A esposa odiava que tivesse transformado sua casa em um grande galinheiro.
Oswaldo tentava explicar que era um Centro Esportivo de Treinamento de Campeões, mas ela parecia não entender.
Ele usou toda a habilidade que herdou do avo marceneiro para construir as gaiolas de madeira, quadradas com pequenas janelas por onde os galos comiam e bebiam. Deveriam ser distante o suficiente e bem fechada para que os galos não fugissem e não fossem brigar na gaiola dos outros. Eram forradas com serragem que necessitava ser trocada de tanto em tanto para não juntar piolhos e mesmo assim, Oswaldo sempre encontrava alguns. Tinha orgulho de dizer que sua criação contava com 10 galos adultos e já preparados e mais uns dois franguinhos em crescimento.
Todos os sábados ele chegava do trabalho e sentava no banquinho de madeira para preparar os galos. Um a um era massageado nas coxas com cachaça, na mesma direção, de cima para baixo, para a musculatura pegar firmeza. As penas das coxas aparadas bem rentes e estas ficavam vermelhas e firmes. Depois de muitos minutos nessa massagem, atirava-se o guerreiro para o alto mais um numero incansável de vezes, as asas ficavam firmes e ele aprendia a cair já preparado. Depois de treinado o atleta ficava preso pela pata ao amarrador para estar um pouco livre sem o risco de ir brigar com os outros galos.
Galos como o Naranjo precisavam ser treinados e vitaminados. A crista bem aparada e as puas substituídas por puas de aço para fazerem um estrago mortal no adversário.
Depois de massageados os galos eram pesados em balanças de feira, separados segundo o peso e a idade e então, colocados frente a frente no tambor.
Aos domingos, enquanto Helena ia a missa das 10hs, Oswaldo pegava o galo que tinha treinado toda a semana e com ele na sacola de lona, se dirigia para o Rinhedeiro Calcutá. O bicho ia com a cabeça para fora já pronto, como que chamando o adversário.
Todo o esforço era compensado pela manha de domingo.
Encontrava os amigos, comia ovos cozidos com um martelinho ou dois e com isso a coragem para as apostas fluía fácil.
Nas suas rinhas, era orgulhoso do resultado, ganhava muitas lutas e até algumas tacas que depois Helena as exibia na sala de visitas.
Quando acontecia de perder, seja porque o galo, mesmo valente, era derrotado ou porque era um daqueles covardes, que não ia para o careio e se comportava como galo crioulo que foge do outro, rodando em círculos pela arena, ele virava canja. Torcia-lhe o pescoço e preparava-o para a janta.
Helena dormia sem comer. “A carne é dura”, dizia. Verdade, de tanto treino a musculatura ficava ruim para o apetite. Oswaldo comia vingado do bicho covarde que o tinha feito passar vergonha.
Naranjo era um galo inglês puro, diferente, grande, altivo, corajoso, uma penugem amarelo acobreado, daí o nome copiado de um castelhano. Tinha patas longas e fortes, uma ferroada de suas puas era na certa uma garganta estrangulada ou um olho perfurado. Desde frangote era o campeão de varias rinhas e responsável por outros tantos virarem canja.
Todos no Rinhedeiro Calcutá temiam o seu galo Naranjo, até o dia que Alfredo apareceu com um galo velho, meio caolho e todo cheio de cicatrizes. Caolho era um galo ressagado, matreiro, que batia pelo cheiro, tinha um ar fingido que parecia o próprio Alfredo. Ele comprou o galo de um colono de Morro Redondo e apareceu de surpresa naquele domingo chuvoso.
Oswaldo devia ter desconfiado do ar maldoso que Alfredo portava e ter ido para casa pegar Helena para almoçar na sogra, mas ele nunca conseguia sair antes do portão fechar. E depois passou semanas se culpando.
O sino soou e Oswaldo jogou Naranjo no tambor. Era a segunda luta agendada para aquela manha.
Naranjo, se aprumou, soltou um canto de guerra, baixou a o bico na direção do tal Caolho, arrepiou as penas do lombo, levantou as asas e foi valente como sempre fora. Ele estava pronto, bem preparado, fazia alguns domingos que não entrava no tambor, só em casa comendo e treinando. Andou ate o Caolho e o bicou forte na penugem da cara, segurou as penas e bateu com as puas no peito do outro galo. Caolho balançou, foi e voltou. Os dois galos ficaram rodando por alguns minutos, bico com bico, cara a cara, ate parecendo luta de gente, poderia se sentir o ódio de um pelo outro.
Os companheiros sentiram que seria luta boa e corriam da arquibancada ao tambor, apostando primeiro no Naranjo, para depois, aos poucos, irem se dividindo. A diretoria e os mais importantes, sentados nas cadeiras da primeira fila chegavam a levantar e eram vaiados pela galera dos puleiros. Oswaldo foi ficando preocupado e pressentindo que seria difícil para o Naranjo. O galo velho sabia do recado. Alguém sussurrou ao seu ouvido: “Tira o galo Oswaldo. Olha que el diablo és diablo mas por viejo..” ele só escutou depois, se lamentando em casa. No entanto, não faria isso, não perderia para o Alfredo por covardia, mesmo que lhe valesse o Naranjo e valeu.
A principio chegou a pensar que Alfredo poderia ter drogado seu galo, depois pela sangueira, que ele tivesse colocado giletes nas puas do caolho, mas no intervalo enquanto refrescavam os galos, pode verificar que nada disso havia acontecido.
Depois de alguns minutos muito sangue estava espalhado pelo tambor. Quando os galos sacudiam a cabeça tentando se livrar da dor, jogavam o sangue até nos parceiros do puleiro. Naranjo estava quase cego de um olho, mas batia e caia, deixou Caolho na lona duas vezes e mesmo assim o maldito galo velho levantava e com forca acertava o peito de Naranjo com as puas. Foi numa destas, entre gritos dos parceiros, apostas e torcidas que Oswaldo viu o maldito acertar a pua no ouvido do seu galo e dali jorrar um jato fino de sangue. Naranjo rodou, deixou cair a cabeça e depois de algumas voltas caiu durinho.
Na saída, Alfredo gritou: “Oswaldo! Me esqueci de te dizer o nome do meu galo: Ele era chamado de Caolho, O assassino” e foi- se, rindo”.
Oswaldo não chorou, macho não chora. Voltou acabrunhado para casa, brigou com a Helena pelo excesso de sal no feijão e passou o resto do domingo fechado no quarto. Jurou vingança.
Passou a procurar sem descanso um galo capaz de destruir o tal Caolho, O assassino.
Primeiro procurou no seu criatório, depois sondou os amigos e nada.
Sentado no pequeno banco de lona olhava os frangos que um parceiro treinava no seu pátio, e apareceu o aquele que iria se chamar Pimenta. Os galos só adquiriam nomes quando tomavam alguma importância para seus donos.
Esse frangote era o galo certo para vingar Oswaldo, rápido como a juventude, feliz, debochado, daqueles que não respeita nem a própria linhagem.
Ele passou a treiná-lo e por sorte o verão tinha dias mais longos, então, ao chegar do trabalho, Oswaldo ainda tinha luz o suficiente para mais algumas horas de preparo.
Pimenta, com a penugem pintada, magro, esguio, e rápido, muito rápido, tão rápido que nenhum velho poderia com ele, estaria pronto no próximo domingo.
O sábado parecia interminável, o sol de domingo acordou Oswaldo nos primeiros raios que não conseguiu esconder de Helena a euforia. “Vais mesmo ao rinhedeiro? Estás tão afoito que estou achando que ai tem coisa. Não pensas que me enganas.”
O café, a ração vitaminada do Pimenta, a sacola de lona e era só esperar... O relógio não andava.
Helena iria a missa mais cedo, dia de batizado precisava ajudar as amigas a enfeitar a igreja. 9:30hs Oswaldo pronto se dirige ao Rinhedeiro Calcutá, todos amigos avisados para não faltarem, mesmo em caso de chuva.
Ao cruzar a Rua Marechal Deodoro, Oswaldo vê Helena, quase correndo em sua direção, parecia saltitando e no seu rosto um olhar estranho fez com que ele desconfiasse de alguma noticia surpreendente.
Ela se aproximou e praticamente gritando, até parecendo meio feliz, contou:
“Oswaldo! Oswaldo! A Policia bateu no Rinhedeiro Calcutá. Prenderam todo mundo. Vim correndo te avisar, ainda bem que ainda estás ai.
Prenderam também o Alfredo. Ele tentou resistir, irritou os guardas e eles encheram o coitado de porrada. Bateram com cassetetes por todos os lados da cabeça. Enquanto ele espirrava sangue pelo nariz a mulherada da igreja gritava e rezava. “Foi um Deus nos acuda”.
Foi quando Pimenta aprendeu a voar e da igreja só se ouviu Oswaldo gritar:
“Filhos de uma puta, chegaram antes de mim”.