domingo, 10 de abril de 2011
Resposta a Raul Vidal
Prezado Raul, Sinto-me em divida, pois certamente ja deveria ter produzido alguma resposta aos textos que, tão gentilmente, me enviaste. O ano foi muito intenso. Colocou-me em uma posição nova na vida e em uma nova ordem geracional que ate agora não encontrei palavras para melhor definir, me restou apenas ficar em estado hipnótico de apaixonamento, tornei-me avó, abuelita, dirias. Seus textos foram escolhidos, junto com outras leituras que me cobravam para serem lidas nesse momento de trégua na praia. Comecei por “Contar el desaparecido” Talvez a proximidade fisica com o espanhol e por estar quase dentro do Uruguai eles façam tanto sentido para mim. Eu já havia lido esse artigo. Apesar da proximidade que temos com a cultura espanhola, nós temos pouco acesso a produção literário dos outros países latino-americanos. Há algumas semanas falava a um amigo bahiano que o Rio Grande do Sul é muito mais espanhol que português e que os tratados que nos levaram para os portugueses não pagaram a cultura. No entanto, existem as fronteiras e não conheço as obras que citas no artigo, excluindo Borges, Lacan e Primo Levi. Faz alguns anos que tenho feito um percurso pela literatura, faço parte de uma oficina de criação literária e isso melhorou minha leitura e escrita. Trouxe na minha bagagem de férias o livro de Primo Levi, A trégua, sem nenhuma razão consciente além da curiosidade pela obra. Muitas pessoas argumentariam que é um texto pesado para ser lido ao sol. Sem a intenção de minimizar o sofrimento que pode ser intuído do livro, a dramatização do relato, como colocas, a literalidade com que ele relata exatamente a sua condição de sobrevivente, torna o discurso possível de ser escutado e não um drama insuportável mente triste. Claro que tenho que considerar minha escuta especializada em sofrimento e minha curiosidade pelos relatos dos outros. Foi exatamente a condição de sobrevivente que me interessou no livro. Pouco ou nada eu havia pensado sobre isso ate então: A guerra acabando e os sobreviventes dos campos ainda não haviam sobrevivido a tragédia. Andavam sem pátria, sem casa, eu diria sem pai. Eu poderia agregar ao seu texto a minha experiência clinica. Influenciada, penso agora, pela escritura e pela literatura, tenho estimulado meus pacientes a relatarem mais e mais as experiências vividas como trauma, por exemplo: A violência urbana que vivemos faz com que a cada dia alguém chegue ao meu consultório saído de uma experiência assustadora de um assalto com armas e seqüestros. A tendência do senso comum tem sido banalizar o ocorrido e o assaltado se sente constrangido de fazer um relato minucioso do vivido. Tenho estimulado o relato, em analise e fora dela, oriento meus analisantes a falarem do ocorrido sempre que se sentirem com vontade de fazer isso. Trocas de experiências do tipo, “meu assaltante era assim e o seu?” Essa foi uma mudança na minha clinica e outra foi a escritura propriamente. Claro que não por acaso Tenho pacientes que escrevem, alguns são profissionais, outros passaram a me escrever. Eu não costumo ler, enquanto o sujeito esta em analise, mas estimulo a escrita. Embora alguns escritores recusem a idéia de que toda criação artística há um testemunho do autor, eu não tenho nenhuma duvida de que o autor esta colocado em tudo que realiza. E por ultimo seu artigo me recordou o livro de Marguerite Duras, A Dor, aonde ela narra a angustia de esperar o marido que estava em um campo de concentração. Li esse livro há alguns anos e jamais esqueci o sentimento de espera que ela reproduz brilhantemente. O rosto do desaparecido e esperado sendo construído insistentemente na memória sem que possamos vê-lo, a dimensão do tempo nessa espera. Todo e qualquer mulher fala dessa angustia na clinica. E, isso me faz pensar o quanto tem isso de feminino, a espera, a angustia da espera, pelo filho, pelo homem que não telefona, que não retorna da guerra, do trabalho, da boemia, quem sabe? Agora, depois de ter escrito tudo, espero que possas ler o meu português e acompanhar minhas idéias. Vou seguir te lendo, acompanhando tuas idéias. Abraços Maria Cristina Sole. Barra do Chuí.
Serei uma Ilda Dalser?
Freud aproximou o feminino do masoquismo, foi condenado pelas feministas por isso. Estava errado, estava certo, a forma de amar da mulher pode ser masoquista. Na verdade, ele entendia a passividade das mulheres como masoquismo. No entanto, Lacan depois distinguiu a feminilidade da histeria. A mulher em uma posição feminina e que aceita essa condição concorda em ocupar o lugar de objeto na fantasia masculina sem se sentir ameaçada por isso. Ela estará apenas retornando a posição de objeto de amor que um dia foi para um Outro, sua mãe. Essa experiência primordial de ter sido tomada como objeto de desejo e de gozo na fantasia materna. A essa entrega passiva Freud chamou de posição masoquista. Trocando em miúdos é a capacidade de amar sem demandar mais que amor, de não se sentir envergonhada, nem ameaçada por isso. As mulheres mais afetadas pela histeria, que não conseguiram supor nada de fálico no seu pai e que a relação com sua mãe foi muito problemática, não suportam essa posição de objeto na fantasia de um homem, não suporta nem seu próprio gozo, muito menos o de um homem. Elas irão competir a posição com seu parceiro e elas, sim, usarão a dependência deles para aquilo que os homens tanto temem: “colocar o cabresto”. Os homens dificilmente são capazes de diferenciar uma da outra, ate porque a histérica cria, naqueles mais neuróticos, a ilusão de estar conquistado um troféu, elas fazem semblante de uma entrega. O homem que se apaixona por essas mulheres deve mesmo temer ser destruído, pois elas usam o amor para transformá-los em tão castrados quanto elas, vingança. A mulher em uma posição feminina enaltece os valores do homem que ama. Ao final fiquei me perguntando serei uma Ilda? Eu ficaria louca? E qual minha diferença dela, afinal? “Com vc fico louca de vez Um pouco eu já era, outro pouco vc me fez” Eu jamais me apaixonaria por Mussolini. Por Fidel, sim. A amante de Fidel suportou a clandestinidade, mas a clandestinidade do amor, da relação e não dela, ela ocupou papel importante na revolução. Algumas mulheres foram, e são capazes de suportar a clandestinidade de uma relação amorosa, mas não são capazes de suportar a instabilidade do amor. Quero dizer que ninguém suporta alguém que é uma onda: vai e volta, ama e não ama mais, quer e não quer mais, isso é veadagem. A clandestinidade pode ser romântica, estável, parceira e gratificante. Duas pessoas não precisam mais do que quatro paredes para serem felizes, ao menos que o mais importante seja o que precisam exibir aos outros, tipo uma garota gostosa, um guri sarado, ou um talão de cheque ambulante, quem sabe uma posição. O que deixou a Ilda louca foi a mentira. Ela, assim como Antígona, defendia uma verdade: O seu filho era filho do Duce, ele tinha lhe feito promessas. Não há eternidade nos casos de amor? Às vezes eu até acho que sim. Por fim a resposta: sou Ilda Dalser sim. Sou louca. Capaz de guerrear até a loucura pelos meus amores, e como ela eu incluo os filhos. Sou perigosa, invasiva, ciumenta e gulosa. Já estamos em guerra?
Culto ao narcisismo
Faz tempos que me prometo escrever alguma coisa sobre o artigo da Rudinesco onde ela faz uma teorização das mudanças na cultura e a influencia do capitalismo americano nessas mudanças. Não sei bem se concordo com isso, se entendo que efetivamente é o capitalismo selvagem o responsável pela cultura narcísica que vivemos. Acho que para isso precisaríamos pensar que o capitalismo americano dirige o desejo das mães que criam filhos que não se desvinculam de uma imagem narcísica de si. Seguindo essa linha de raciocínio talvez possamos dizer que sim o capitalismo americano selvagem é responsável pelas mudanças na cultura, transformando-a em um culto ao narcisismo. Essas mães e pais que foram forcados a renunciar a onipotência narcísica acham que essa perda é injusta. Eles prometem a seus filhos uma vida sem castrações. Nesse sentido sim o que penso se aproxima da Roudinesco, pois, essas crianças seriam criados em um culto onde o mito de narciso ira substituir o mito de Édipo. Rudinesco diz que uma sociedade regida pelo mito de Narciso, seria uma sociedade idealizada, que nela não há interdição, nela os seus sujeitos estariam fascinados pelo poder ilimitado de seu eu. Isso é demonstrado no dia a dia, nos carros que atropelam ciclistas, nas Brunas surfistinhas que acreditam e fazem outras acreditarem que se oferecer ao desejo ilimitado dos outros não traz conseqüências, não se perde nada. Onde as drogas são usadas na compulsão de não deixar a solidão aparecer e o sofrimento é tido como algo injusto e não merecido. De outra maneira, quando abandonamos o mito edípico como a base da nossa cultura, estamos abandonando uma sociedade onde o poder patriarcal, mesmo sendo ultrapassado pelo filho, está presente para ser superado. O pai edípico morre para que os filhos sobrevivam, cresçam e se tornem eles mesmos pais. A referencia para o crescimento é o pai, a criança crescerá reconhecendo outro que possui um saber a ser superado e que ela própria não é o topo desse saber. No mito narcísico ninguém pode perder e quando perde ninguém pode herdar. Esse é o caso de algumas mulheres que se recusam a envelhecer ao ponto de parecerem irmãs das filhas, coisa que lhes causa um orgulho visível. Homens que buscam mulheres jovens supondo manter a virilidade. Os pais não renunciam a sua posição e impedem os filhos de seguirem a corrente simbólica se tornado eles próprios pais. É dessa obsessão por si mesmo que surgem as violências contra os diferentes (gays, raciais, etc..) o outro que nos mostra nossa diferencia precisa ser destruído e como possuo um poder ilimitado nada pode me constranger. A violência urbana sem medida que muitas vezes atribuímos a miséria é, além disso, originada pela impossibilidade do sujeito aceitar que outro tenha acesso aquilo que ele jamais terá. Não estou enquadrando nessa violência o massacre na escola carioca. Esse episódio, embora muito mais violento e chocante é um fenômeno privado do delírio de um rapaz doente mental. Sem nenhuma duvida a psicose é a responsável pela sua a ação delirante. Alguns tentaram responsabilizar as crenças religiosas ou a política equivocadamente. O teor religioso que aparece em sua carta é decorrente do delírio psicótico que sempre é envolvido por algo dessa ordem. Esse tipo de doença também é uma impossibilidade do sujeito deparar-se com a castração mas não há uma recusa como na perversão ou na neurose, e sim uma forclusao, isto é, ela não existe para o sujeito. O ato não e uma tentativa de retornar a onipotência narcísica e sim algo que parte dela, da onipotência narcisisca, não há fantasia e sim uma realidade. Na violência urbana não há o reconhecimento de que a diferença social estará sempre presente e de alguma maneira em todos os níveis. Mesmo que todos tenham acesso aos bens de consumo, alguns terão mais acesso aos símbolos fálicos capitalistas e marcaram uma diferença de poder. Se o sujeito não aceitar essa diferença e senti-la como uma injustiça e um ataque ao seu narcisismo vai tentar pela violência obter para si o que o outro possui. Claramente é a falta de uma ação efetiva da metáfora paterna que mantém a cultura nessa necessidade exacerbada de auto-estima. As terapias e a literatura de auto-ajuda proliferam e a psicanálise é quase insuportável. As pessoas não querem saber de sua responsabilidade na sua doença e buscam remédio imediato.
quarta-feira, 6 de abril de 2011
A Pelotas
Um azul infinito emendado ao verde do chao.
A terra também é infinita quando amada Plantada cuidada concebida. O vestido chique todo barrado todo barrado de arvores na bainha certa das planicies, fazia da estrada uma verdadeira noiva pra mim, a grinalda de um poema dessa maneira estou no altar, ornada desse amor e desse carinho. Porto Alegre-Pelotas, Sou devota desse caminho (Elisa Lucinda)
A terra também é infinita quando amada Plantada cuidada concebida. O vestido chique todo barrado todo barrado de arvores na bainha certa das planicies, fazia da estrada uma verdadeira noiva pra mim, a grinalda de um poema dessa maneira estou no altar, ornada desse amor e desse carinho. Porto Alegre-Pelotas, Sou devota desse caminho (Elisa Lucinda)
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