sexta-feira, 26 de agosto de 2011
quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Minha amiga morreu.
Recebi a noticia de uma forma inusitada, mas sem duvida nenhuma muito moderna. Um torpedo foi seu anuncio fúnebre. Não poderia ter sido diferente.
O nome dela é/era Christina, eu Cristina, eu sempre pensei que isso poderia significar que eramos iguais. Chirissssstina, brincavam.
Um redemoinho na franja negra que a deixava com um topete de menino levado, os dentes da frente um tanto tortinhos e olhos vibrantes, me receberam no meu primeiro dia de aula no ginásio.
Mais uma das inúmeras vezes em minha vida eu estava assustada. Minha mãe havia decidido que nessa escola eu faria o ginásio. Apesar de ter sido classificada em uma escola municipal, para onde iriam alguns dos meus conhecidos do grupo escolar, ela decidiu por mim. Incomodada novamente pela impossibilidade de decidir sobre meu caminho, morta de medo dos desconhecidos, entrei na 1 série B do Colégio Estadual D. João Braga. Christina me recebeu e me conduziu adivinhando meu constrangimento e dificuldade. Falava sem parar, as vezes impedindo que eu escutasse os professores. Não me lembro sobre o que falava, mas agora me parecem instruções de um manual da vida que me ajudariam a me conduzir no universo complicado da adolescencia que se iniciava.
Posso vê-la falando e me explicando tudo. Ela decidiu sentar ao meu lado, me mostrou como comprar merenda no bar e coisas sobre os colegas que parecia conhecer desde sempre. Tinha desenvoltura e segurança. Eu a admirava, depois a invejava. Ela parecia ser anos mais velha que eu. Christina fumava e levava cigarros escondidos no estojo, tinha coragem de roubá-los de sua mãe. No banheiro me ensinou de maneira professoral como sempre, a fumar.
Agora percebo como essa foi apenas uma das primeiras coisas que me ensinou. Os batons, os sutiãs e como era gordinha como eu, ou nos achávamos, ela usava cinta-liga para apertar a bunda e a barriga, que inveja da coragem de ser mulher.
Ela morava longe do centro da cidade, um lugar difícil de chegar, eu não podia estar em sua casa tanto quanto queria.
Christina se apaixonou primeiro, vivia apaixonada por uns tipos estranhos (ate conhecer o Leonardo), namorou antes e transou antes. Fez todos os meus desenhos de geometria analítica permitindo que eu fosse aprovada. Ela bordava, desenhava, fazia tricot e era capaz de ter cadernos impecavelmente sublinhados de varias cores. Durante quase toda minha adolescência foi um ideal que tentei atingir. Tenho certeza que ela nunca soube disso, não tive tempo para lhe dizer.
Afastamo-nos na faculdade quando pela primeira vez fizemos escolhas diferentes e nos aproximamos rapidamente nos casamentos apressados pelas nossas primeiras gravidezes. Outra vez a casa linda e sua organizacao foi mais um motivo da minha admiração, umas das ultimas vezes que estivemos juntas antes de nos mudarmos de cidade.
Há alguns anos a revi, não era mais a adolescente gordinha, mas ainda falava muito. Eu percebi que alguma coisa complicada passava por sua cabeça, mas nossa relação não permitia desabafos, eu também passando por um momento ruim só pensei nisso depois.
Envelhecer é difícil. A vida nos impõe perdas. Apenas quem morre não passa pela dureza das perdas. Não poderei mais dizer para minha amiga o quanto ela me ensinou e o quanto me ajudou a viver. Perdi o “time”, naquela hora eu não poderia, porque a vida é assim, no apré-coup, só sabemos que perdemos o tempo depois que ele passou. Não podemos dizer o que ainda não sabemos.
Eu ainda não sei porque morreu minha amiga.
Recebi a noticia de uma forma inusitada, mas sem duvida nenhuma muito moderna. Um torpedo foi seu anuncio fúnebre. Não poderia ter sido diferente.
O nome dela é/era Christina, eu Cristina, eu sempre pensei que isso poderia significar que eramos iguais. Chirissssstina, brincavam.
Um redemoinho na franja negra que a deixava com um topete de menino levado, os dentes da frente um tanto tortinhos e olhos vibrantes, me receberam no meu primeiro dia de aula no ginásio.
Mais uma das inúmeras vezes em minha vida eu estava assustada. Minha mãe havia decidido que nessa escola eu faria o ginásio. Apesar de ter sido classificada em uma escola municipal, para onde iriam alguns dos meus conhecidos do grupo escolar, ela decidiu por mim. Incomodada novamente pela impossibilidade de decidir sobre meu caminho, morta de medo dos desconhecidos, entrei na 1 série B do Colégio Estadual D. João Braga. Christina me recebeu e me conduziu adivinhando meu constrangimento e dificuldade. Falava sem parar, as vezes impedindo que eu escutasse os professores. Não me lembro sobre o que falava, mas agora me parecem instruções de um manual da vida que me ajudariam a me conduzir no universo complicado da adolescencia que se iniciava.
Posso vê-la falando e me explicando tudo. Ela decidiu sentar ao meu lado, me mostrou como comprar merenda no bar e coisas sobre os colegas que parecia conhecer desde sempre. Tinha desenvoltura e segurança. Eu a admirava, depois a invejava. Ela parecia ser anos mais velha que eu. Christina fumava e levava cigarros escondidos no estojo, tinha coragem de roubá-los de sua mãe. No banheiro me ensinou de maneira professoral como sempre, a fumar.
Agora percebo como essa foi apenas uma das primeiras coisas que me ensinou. Os batons, os sutiãs e como era gordinha como eu, ou nos achávamos, ela usava cinta-liga para apertar a bunda e a barriga, que inveja da coragem de ser mulher.
Ela morava longe do centro da cidade, um lugar difícil de chegar, eu não podia estar em sua casa tanto quanto queria.
Christina se apaixonou primeiro, vivia apaixonada por uns tipos estranhos (ate conhecer o Leonardo), namorou antes e transou antes. Fez todos os meus desenhos de geometria analítica permitindo que eu fosse aprovada. Ela bordava, desenhava, fazia tricot e era capaz de ter cadernos impecavelmente sublinhados de varias cores. Durante quase toda minha adolescência foi um ideal que tentei atingir. Tenho certeza que ela nunca soube disso, não tive tempo para lhe dizer.
Afastamo-nos na faculdade quando pela primeira vez fizemos escolhas diferentes e nos aproximamos rapidamente nos casamentos apressados pelas nossas primeiras gravidezes. Outra vez a casa linda e sua organizacao foi mais um motivo da minha admiração, umas das ultimas vezes que estivemos juntas antes de nos mudarmos de cidade.
Há alguns anos a revi, não era mais a adolescente gordinha, mas ainda falava muito. Eu percebi que alguma coisa complicada passava por sua cabeça, mas nossa relação não permitia desabafos, eu também passando por um momento ruim só pensei nisso depois.
Envelhecer é difícil. A vida nos impõe perdas. Apenas quem morre não passa pela dureza das perdas. Não poderei mais dizer para minha amiga o quanto ela me ensinou e o quanto me ajudou a viver. Perdi o “time”, naquela hora eu não poderia, porque a vida é assim, no apré-coup, só sabemos que perdemos o tempo depois que ele passou. Não podemos dizer o que ainda não sabemos.
Eu ainda não sei porque morreu minha amiga.
Assinar:
Postagens (Atom)