quinta-feira, 15 de março de 2012




 Eu já fui Primeira Prenda

               Em cada cartela havia 10 números, cada numero custava 1 cruzeiro. Juntei todas com uma borrachinha de dinheiro assim que elas me foram entregues pela professora.
-Contaste todos os números? Perguntou-me ela. Verificaste se não pulei nenhuma sequência?
-Sim senhora, respondi. Mesmo sabendo que meu nervosismo me impedia de processar o que tinha contado.
Até  hoje não sei como tive coragem. Eu era tímida, insegura e sempre parecia estar inadequada ao ambiente. Mesmo assim levantei a mão quando a professora perguntou:
-Quem quer se candidatar? Coragem meninas! Vamos votar em uma representante da turma. Quem quer concorrer a Primeira Prenda? As meninas se candidatam e a turma vota em uma para ser a sua representante.
    Parada na frente da sala ela olhava para todas as alunas, passando os olhos por cima da minha cabeça.
  A proposta era que os colegas elegessem uma candidata entre aquelas que se habilitasse a concorrer.
   Levantei um pouco a mão, ficando ainda com o antebraço colado ao corpo, mas não o suficiente para que toda sala visse. Pensei que teria tempo de recolhê-la caso percebesse uma reação desfavorável.
  A reação desfavorável não veio e a professora rapidamente acolheu minha candidatura.
   Outra colega também se candidatou, olhei furtivamente para trás, a tensão me impedia de pensar, mas fiquei segura em ver que fora Ada, ainda mais feia, mais insegura e mais burra que eu. Eles não teriam escolha. No quadro negro a professora escreveu nossos dois nomes, o meu encima, o dela embaixo. Por ordem de chamada ela ia perguntando aos colegas para qual das duas eles dedicavam o voto.
Momentos tensos, quase a beira do pânico.
Ao lado do nome ela formava quadrados e quem obtivesse mais quadrados ganhava a disputa. Os colegas mais próximos me olhavam surpresos e eu não conseguia acompanhar a contagem.
 Apesar de não ser nada popular, ganhei. A outra era mais infeliz que eu.
Quando a professora me entregou as cartelas uma etapa de meu martírio estava vencida. Senti-me um tanto satisfeita, afinal eu tinha sido melhor.
Eu não saberia dizer se ali começou os dias de angustia que vieram ou se foi uma dor a menos. Junto com elas vinha a responsabilidade do ato que assumi.
-Aqui tens as 10 cartelas, em cada uma têm 10 números. Cuida bem delas, pois elas valem muito dinheiro, precisas vender todos os votos e depois podes pedir mais outros, se venderes todos, é claro. Teus colegas vão te ajudar, cada um vai levar uma cartela para casa, quem quiser mais pode pedir depois. Eles vão vender para ti e colocar teu nome no canhoto. Quanto mais números venderes melhor, vai ganhar quem vender maior número de votos em toda a escola. Quem, de toda escola, conseguir vender mais votos será A Primeira Prenda e dia 20 de setembro receberá a faixa no chá com desfile da escola.
  Sai apressada. Sem em sequer pensar no que diria minha mãe? Somente depois da minha eleição lembrei que ela poderia não gostar e me fazer devolver todas as cartelas. Agora era tarde, só me cabia torcer. Eu ainda poderia recorrer a meu pai, ele certamente me apoiaria.
 Eu precisava vender no mínimo 10 cartelas, menos do que isso eu não teria a menor chance.
  A segunda etapa de minha jornada, rumo ao trono, era contar para minha mãe. Entrei em casa e gritei aquele “mãe” grave, arrastada, típico de quem quer alguma coisa. Ao que ela já respondeu sem paciência. –O que menina?  Senti que era melhor deixar para depois do almoço, mas muito depois ela iria sestear, depois sair, depois jantar, depois não seria hora, já para a cama, e assim se passaria uma semana.
 A professora já havia contado. “Que progresso! Tão tímida”  Quem sabe agora assumiria mais suas responsabilidades, aprenderia a cumprir com os deveres, “lhe fará bem”.
   Não muito convencida, no entanto, sem querer contrariar a colega e mesmo não nutrindo a mesma expectativa, minha mãe sentenciou: Vou te ajudar, mas não vou fazer tudo sozinha, só te ajudar, tu terás que vender teus votos.
  Minha avó ficou envaidecida com a ideia, percebi que ela não tinha entendido exatamente em que condições eu havia obtido a vitória, preferi sorver os sabores desse equivoco e lhe vendi duas cartelas inteiras, mesmo assim faltavam 8.
   A Minha mãe, desta vez, estava se empenhando, vendeu alguns votos  para minhas tias e vizinhas.
 O inverno estava começando e eu tinha ate a entrada da primavera para obter o primeiro título da minha vida e agora posso dizer o único.
      Uma equipe foi montada contando com irmãos, vizinhos, mas, principalmente com minha prima Carla.  Ela era uma espécie de criança que ficava perdida entre o abandono total e a superproteção.  Filha de uma tia rica que morava em uma estância, ficava na cidade com nossa avó com a desculpa de estudar, mesmo que seus estudos não tenham se iniciado aos 6 meses de idade. Por conta da culpa pelo abandono fazia todo e qualquer absurdo que viesse a sua cabeça, sempre tendo a conivência e a desculpa da avó.  Determinada e corajosa foi o marketing político de minha candidatura e mais importante cabo eleitoral. Todas as manhas ela passava na minha casa e me fazia recorrer as ruas da cidade batendo de porta em porta com o mesmo discurso: Bom dia, sou aluna da escola N. Senhora Medianeira e candidata a Primeira Prenda da minha turma, a senhora gostaria de colaborar comprando alguns votos? É só um cruzeiro cada?  Ao final haverá o sorteio de uma caixa de bombons, quanto mais a senhora comprar, mais chance de ganhar. Rapidamente minha prima vendia 5 cupons e passávamos a casa seguinte.
     Mês de junho, mês de julho, as férias de inverno, uma pausa nos negócios e uma temporada na estancia, eu na de meus pais e minha “cabo eleitoral” visitando os seus. Nunca um mês durou tanto tempo.
    Os votos foram apurados no dia 15 de agosto. Na sala da merenda a diretora coloca no quadro negro o numero de votos vendidos. Fico tonta ao ver meu nome escrito por extenso e incrédula diante da soma de 536 votos vendidos contra 511 da adversária, uma loira magrinha uma série a frente da minha. Quem em sã consciência vota em Primeira Prenda loira? Será que não sabem que as gaúchas são morenas? Ana Terra era morena, a Bibiana também.  
       Eu venci, e agora?
     Meu pai olhava tudo aquilo com certa distância, minha mãe, entre o divertida e o enfarada. O vestido! Agora precisamos tratar do vestido. Dia 20 de setembro seria o dia de receber a faixa, um chá, um desfile e o trono. Eu precisava decorar um discurso para agradecer o apoio dos colegas, a professora esclarecia enquanto eu ia pensando um jeito de desistir.
    Em casa minha mãe me colocou pena na vida: Vamos acabando com as visagens, disse, diante dos argumentos de que fico nervosa, que minha voz não iria sair e outros mais. Quem te mandou entrar nisso? Agora vais até o fim.
     O vestido foi reaproveitado da filha da vizinha, na altura era só uma pequena bainha, na largura, nada que uma nesga não resolvesse. Depois colocando uma faixa de fita colorida e uma flor, tudo ficaria lindo e sem um tostão.
      No dia 20 de setembro eu estava pronta. Com meus cabelos fizeram duas tranças grossas e bem pretas, como manda o figurino, arrematados por uma flor vermelha combinando com a faixa da cintura.
   O salão da igreja cedido para a escola estava lotado. Nas mesas redondas mães de alunos e professores tomavam o chá com pequenos pratos de pizza, croquetes e docinhos, tudo feito por algumas voluntárias. 
   O CTG dançou meu pezinho e a chula. A diretora entrou no salão para agradecer a presença e anunciar a Primeira Prenda do ano de 1963. Os agradecimentos foram intermináveis, até que ela convidou a antiga Primeira Prenda, a rainha deposta, para transferir a faixa de Primeira Prenda do ano de 1963 à....à...à e anunciou meu nome como se estivesse falado em um Grande Páreo.
     Entrei no salão lotado e olhando acima das cabeças, ergui meu nariz no teto. “Igual a Ieda Maria Vargas no Maracanãzinho, vamos arrasar” eu lembrei Carla me dizendo.  O desfile foi de princesa, a faixa de miss, no trono, olhando os súditos eu me sentia uma rainha. Faltava o discurso que com voz muito firme iniciei: “Caros Professores, Senhores Pais, Sra. Diretora, queridos colegas, estamos aqui...

domingo, 11 de março de 2012



 O homem velho
Sentado a minha frente um homem da minha idade faz adaptação de sua filhinha de 2 anos na escola infantil.
Em uma pequena sala, com mesas e cadeiras de criança, algumas de mulheres jovens, atacadas pela mesma angústia, trocam experiências. Presente apenas dois homens, o velho e um rapaz que acompanha seu filho desde o primeiro dia.  O pequeno e meu neto enfrentam seus destinos sem covardia. As meninas, no entanto, choram, se lamentam e torturam suas mães, cobrando caro a falta do pênis. Observo o velho pai. O jovem não precisou de muitos estímulos para entrar na conversa e falar acaloradamente de suas experiências. O velho continua fingindo que consegue não ouvir e com arrogância intelectual lê seu livro fazendo anotações.
  Muitas coisas eu pude retirar dessa experiência nesse universo já tão distante para mim.
A dificuldade das mães em se desprenderem dos filhos, a inabilidade das escolas para esclarecer o que é o ingresso na escolinha, a histeria sendo instalada em meninas tão pequenas. Mas, o que mais me chamou a atenção foi o homem da minha idade e sua filha fora de época.
    Casar com mulher mais jovem, sendo um homem mais velho, é um hábito muito antigo que se mantém como pratica em algumas culturas que tomamos como atrasadas. Foi muito comum antes dos métodos contraceptivos, as mulheres precisavam ser jovens para aguentar tantas gravidezes.
    Depois, o corpo jovem desse objeto de carne, servia de adorno para homens velhos e bem sucedidos, mas um pouco desprovidos de outras virilidades. Aos poucos essa pratica foi sendo restrita a alguns vaidosos de si mesmo, arrogantes e que já não queriam seguir os tempos e as convenções, populares, ricos e ridicularizados.
     Minha surpresa foi constatar que um número expressivo de homens vinculados à cultura, artistas, jornalistas, intelectuais de toda ordem, casavam com jovenzinhas quem sabe encantadas com um discurso de modernidade, disfarçando o velho e antiquado machismo.
   Em pouco tempo eles perdem a paciência com a infantil jovialidade de suas parceiras. Elas se tornam velhas amargas e mal comidas em busca do reconhecimento profissional e da posição que eles têm. A triste nova cara de algo muito antigo. 





O amante

 De onde estava podia ver o filho, a nora, os netos e o cachorro da família. As vezes tinha vontade de congelar as imagens. Poderia tentar fotografar alguma delas, talvez fosse uma boa maneira de parar o tempo, as cenas, mas será que seria capaz de enquadrar na fotografia o sentimento que elas lhe causavam?

Um pouco acima de onde estava, em uma pequena coxilha, eles estavam parados, o cachorro correndo, o verde do capim alto, o vento e o sol dourado, bem ao fundo, fazendo de tudo um enquadre perfeito. Era, sem duvida nenhuma, a imagem da paz, do amor. Na sua frente o marido abraçava pelo pescoço a égua manga larga, o potro agitado corria na volta. Ela ainda gostava muito de tudo aquilo. Ele estava feliz. No campo ele era assim, diferente da cidade, que o transformava em um sujeito tenso, mal humorado. Estava bonito, ela achava que assim, de botas, bombachas e demonstrando seu poder sobre o animal que docemente se entregava aos seus afagos, ele ainda era bonito.

Não queria preocupar-se com nada, não iria decidir coisa alguma naquele momento e talvez nunca viesse a se decidir. A visão da família na casa de campo, depois de tanto tempo, lhe emocionava, lhe entristecia. Sabia que tinha ali o que mais amava: o campo, os filhos, os animais, e também o marido, claro, ela também o amava.  Desde pequena foi uma pessoa gulosa, queria tudo, sem precisar perder, sem precisar escolher. Agora estava impossível, não poderia sustentar essa situação por muito tempo.

No inicio tinha tentado fazer dos encontros com o amante uma aventura passageira. Cada vez que marcava um encontro se dizia que seria o último e mesmo que fosse bom, jamais teriam a oportunidade de se verem novamente. Essa era a formula que encontrava para ter coragem de ir. Escolhia calmamente o vestido, o perfume, a calcinha. Tudo podia ser bem cuidado, se tratava de uma encenação, de uma personagem que não voltaria a encenar. Como uma atriz se despedia da sua platéia, cada vez como se fosse a última. Mas, como toda diva, ela voltava, mesmo após cada despedida e após cada ultimo espetáculo.

Passaram-se tantos encontros que não pode mais contar e mesmo que tenha esperado o encanto ir embora as ultimas horas passadas juntos eram sempre melhores que as anteriores, a intimidade aumentava o encantamento, ao invés de acabar com ele.

Saia de cada momento juntos, encharcada do amante. Não se tratava do cheiro impregnando nas suas narinas, não podia lembrar o cheiro que ele tinha, mas o sorriso estava sempre colado na sua memória, as mãos marcadas na sua anca, a imagem dos corpos nos seus olhos, as propostas ainda sussurravam ao seu ouvido. Banhava-se, a água não era suficiente para lavar.  Não sabia se com o amante acontecia algo semelhante, não importava, na verdade não esperava reciprocidade, não esperava continuidade. Primeiro tinha se apaixonado pela própria paixão, viver as emoções, os prazeres. Entregava seu corpo aquele estranho, e se empolgava ainda mais com o prazer que via nos olhos dele.  Sentia pena de si mesma, deveria ter tido a chance de viver isso na juventude, se sentia roubada. Alguém tinha lhe usurpado o direito ao gozo livre. Agora aprendera a se entregar, a viver as mãos do outro como sendo parte de sua pele, agora era presa das suas convenções, da sua historia, das suas escolhas.

Chorava lágrimas secas para que ninguém percebesse.

Quando voltasse a cidade iria tentar marcar mais um encontro e sem duvida deveria ser o ultimo.  Gostaria de encontrá-lo em um bar ou restaurante, assim poderiam conversar sem que ele tentasse tapar suas palavras com beijos e fingir que ali não havia nada além de desejo. Os homens ainda fazem isso melhor que as mulheres, são capazes de se convencerem que amor e desejo são coisas tão separadas que não precisam se questionar sobre o que eles sentem pelas amantes. Sabia que ele não iria aceitar outro tipo de encontro e os motéis ainda continuavam sendo o lugar mais seguro para que as atividades secretas se mantivessem secretas.

O fundamental era que nada daquela historia saísse dali, aquele conto de fadas jamais poderia se tornar uma parte de sua realidade. Afastou a ideia do restaurante.

O vento bateu nos seus cabelos, enterrou o chinelo na lama, ficou descalça e sentiu medo da possibilidade de seus segredos serem desvendados. O marido lhe estendeu a mão, o neto lhe alcançou outra laranja. Teria que acabar com aquele absurdo imediatamente, não suportaria o sofrimento daquela gente que ingenuamente acreditava em seu amor, se sentia desonesta, horrorosa.

              Seus prazeres e seus amores sempre estiveram na mesma bagagem. Seus filhos, seu lar, seu trabalho na mesma ordem que era de esperar a uma boa mulher. Agora tudo ficou assim, sem lógica, sem prioridades, aquilo que é o amor estava a léguas do dever.

            Tinha tentado brincar com seus sentimentos, tinha tentado se fazer outra, menos romântica, menos sonhadora. Precisou de pouco tempo para descobrir que continuava sendo uma menina boba, de hábitos e sonhos medíocres. O que poderia ter sido uma aventura perversa, estrondosa e sem fronteiras, transformou-se em um delírio de união e um desejo infantil de estar junto. A seguir vieram as músicas, os presentes, os perfumes, o interesse pelo trabalho dele, por sua intimidade, sabia que esse era o caminho mais rápido para finalizar um romance furtivo.

       A ponta da camisa tinha virado uma sacola improvisada onde o neto colocava as frutas do pomar, parada olhando a si própria, viu a sacola encher e ir-se derramando. As laranjas caindo pelo morro e ela acompanhou aquilo com o olhar preso nas frutas que rolavam como se sua vida estivesse assim, rolando, rolando.

     Há alguns meses tinha descoberto a fórmula para acalmar sua angústia e diante de tudo pensou que ao final estava segura, bastava nunca mais procurá-lo. E, aquilo que poderia ser a morte de qualquer amante, saber que seu amado não lhe buscaria e que o fim dependia dela, tornou-se um calmante para ela. No outro dia, já na rotina urbana, enviou ao amante uma mensagem, nela escreveu: “Oi, ainda lembra de mim?”

quinta-feira, 1 de março de 2012