quinta-feira, 18 de novembro de 2010

A casa da Estancia


A casa da estância


Mesmo que ela tenha concordado em morar ali, agora já não suportava mais viver naquele lugar tão solitário. Quando Sergio, seu marido, foi convidado a trabalhar de posteiro nessa estância se sentiu obrigada a aceitar. Sua casa na vila já não comportava mais a família. Foi construída para o casamento, na expectativa de ir aumentando-a mais tarde, sonho ingênuo que nunca se realizou. A possibilidade de ter mais um quarto, banheiro montado com chuveiro e dentro da casa, tinham feito com que ela esquecesse a distancia que ficaria da Vila. Mesmo que agora as amigas, as novidades e o barulho estivessem fazendo muito mais falta.
Na casa da estância poderiam ter ovos, leite, alguma carne e legumes da horta, disse o patrão. Foi assim, nos primeiros meses, depois já não tinha mais animo para capinar a horta, o leite azedava sem que prendessem novamente as vacas e as crianças não se acostumavam com o banheiro que entupiu e acabou interditado.
Limpava o pátio e a casa grande com alguma disposição, cuidava das galinhas e dividia os ovos com o patrão conforme o combinado. Depois de alguns meses, preferia ficar vendo televisão ou apenas olhando para o céu. Descobriu que vendendo a metade dos ovos que tocaria para o patrão tinha uma desculpa para voltar à vila e comprar pinga o suficiente para ter uma noite um pouco mais divertida.
Sérgio cedo ia para a lida no campo sem cortar lenha, voltava para o almoço e ficava muito incomodado quando ela não tinha a comida pronta.
Mais incomodado ficava quando o patrão chegava da cidade perguntando pelos ovos. Ela inventava uma doença para as galinhas, ou morriam, ou estavam trocando as penas. Ele olhava desconfiado o bolo amarelo que ela tirava do forno e não dizia nada. Sérgio temia perder o emprego.
Caminhar naquela estrada de chão em tempo de seca a deixava toda suja de poeira, iria chegar com os cabelos mais brancos que os da sogra. Mas, prender a charrete levantaria novamente suspeitas de Sérgio. Tinha prometido não vender mais a parte do patrão nos ovos.
Precisava andar quase correndo, a sesta das crianças poderia acabar, era perigoso deixá-las sozinha, entravam na casa grande, corriam pelo pátio, poderiam chegar ao poço ou se aproximarem do açude.
Não poderia esperar mais, precisava falar com o Afonso, o capataz, fazia uma semana que ele não aparecia na sede da fazenda. Esteve na duvida até sobre a saúde dele, mas no dia anterior o viu ao longe, enquanto recorria o campo e teve certeza que ele evitava encontrá-la. Velho ordinário pensou, agora foge de mim. Não pode gritar por ele, Sérgio não estava longe, também escutaria. No jantar, disfarçadamente, perguntou pelo “Seu Afonso, há dias não aparece”, Sérgio quase não levantou a cabeça para responder no seu linguajar atravessado: “é bao memo”. Não adiantou assunto.
Nunca nutriu nenhum sentimento por aquele velho barbudo, mas sua vida foi ficando sem graça naquele lugar, abandonado até por Deus. Cuidar das crianças, lavar a roupa, cozinhar o suficiente para não morrem de fome, as vezes limpar a casa grande para o patrão não ficar muito furioso. A noite, olhava no horizonte as luzes da Vila e imaginava o que suas amigas estariam vivendo, quase escutava os risos e o som dos rádios.
Muitas vezes bebia muita pinga e tentava divertir-se com Sérgio, igual o programa “Vivo a Mulher” sugeria. Ele até tentava, pobre, mas rapidamente estalava os olhos e caia morto de sono. Ela bebia mais, para morrer também.
Os olhares de Afonso estavam ficando engraçados. Ele parecia nunca ter visto mulher no dia em que ela tomava banho de chuva com as crianças e o vestido de verão colou no corpo molhado. Ela também começou a imaginar os proveitos que poderia tirar disso. Foi convidada para o churrasco de fim de ano dos peões, nenhuma outra mulher foi. Ganhou carne extra na partilha do mês e quanto mais lhe mostrava as pernas, os fundilhos e parte das nádegas quando ele passava perto da casa em busca das vacas, mais presentes ele trazia: sacos de milho, para engordar as galinhas, uma abóbora de pescoço para doce, feijão e um bolo novinho comprado na cidade. Certo dia, curiosamente o balde caiu no poço bem na hora que ele passava, ela precisou subir e debruçar-se para ver onde ele tinha ido parar, o vestido subiu, quando se virou ele já tinha apeado e estava com aquele olho parado de cachorro do mato, quase babando no canto da boca, ela fez uma voz manhosamente estudada e pediu ajuda. No domingo contou tudo para a amiga mais intima e riram muito da burrice do velho.
As artimanhas eram muitas, ele não saia ao campo sem passar por ali, pela manha e pela tarde. Ela precisava ser criativa para pensar mais uma estratégia. Uma lâmpada queimada que seu marido relaxado nunca trocava, o chuveiro que queimou quando ela já tinha se despido, o banho de sol no meio do campo e já estava faltando idéias quando a amiga sugeriu que poderia conseguir sapato novo e um belo vestido para a festa de páscoa da igreja. Embora tenha começado aquilo sem nenhuma outra intenção além de tornar a vida menos chata, foi gostando muito de ter sempre algo interessante para fazer, mas também sabia que estava indo longe demais, não poderia se safar do velho e daquilo que ele pretendia. O sapato foi fácil, encomendou em uma ida dele a cidade, disse que depois pagaria, ele não cobrou. O vestido sabia que o preço era outro. Não demorou a encontrá-lo na horta no dia que Sérgio juntava o gado a mando dele e que as crianças ainda dormiam.
O velho era feio, com a barba crescida e com cheiro a suor de cavalo, mas a vontade com que tomava seu corpo era uma novidade na sua vida. Passou a sentir emoções que apenas suas próprias mãos haviam lhe concedido, a experiência dizia Afonso. Ela ganhou vestido, perfume, batom e muitas tardes de cavalgadas intensas. Sérgio era mandado a todos os cantos da estância, as crianças dormiam e até no galpão do leite o velho a esperava, dizendo que não pode dormir direito pensando nas suas coxas. Ela gostava muito de se sentir assim, um objeto caro e precioso, valia muito, quem sabe um garrafão de vinho de verdade e um pedaço de costela para um churrasco, ele seria convidado. Junto com a amiga e comadre ria-se e a vida ia ficando mais colorida quando percebeu que os seios ficavam maiores e os cheiros já lhe eram insuportável. No churrasco Sérgio bebeu e denunciou os ciúmes e desconfiança que vinha acumulando, jurou Afonso de morte e foi um custo para ela o fazer acreditar que tudo era alteração do vinho. Afonso sumiu assustado e quem sabe também percebendo o cheiro de prenhes que ela andava exalando.
Ela caminhava apressada, levantando poeira e buscando pelo velho, não tinha saudades, já tinha conseguido a promessa de Sérgio de abandonar o emprego e voltar para a casa da Vila. A pesca voltara a ser produtiva e era um jeito dele se livrar das desconfianças. Ela retornaria ao convívio e as rodas de mate.
Precisava apenas do remédio e da certeza que não teria um filho sarará.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Burguesa é a tua avó


Hoje fiquei novamente furiosa quando entendi que estavam me chamando de burguesa. Eu contava que estava chegando de Nova York e essa viagem foi associada a minha condição de burguesa.
Bem verdade, a burguesia agora viaja. Viaja agora, porque antes só sonhava em um dia chegar “dos States” carregada de muamba. Malas e malas da Disney sendo empurradas por gente de orelhinha da Minie.
A doida aqui não pode simplesmente ficar puta e fazer a fila andar, precisa pensar sobre o incomodo.
Seguramente não sou uma representante da classe operária, meu pai quase não trabalhou, pensava muito mais em seu terno de linho branco, seu violão e no time de futebol do que no basquete diário.
Era muito mais a ovelha negra de uma família burguesa (essa sim) do que ele próprio um burguês. Seus valores longe de serem atingir os padrões da elite era viver “la dolce far niente”, pode pouco coitado, a burguesia o venceu.
Minha mãe, mais ocupada em deixar de ser a princesa que casou com o plebeu, se lamentava de não ter nascido homem para conquistar todas as fronteiras.
Eu própria, embora trabalhe de sol a sol, não partilho dos valores de uma classe operaria urbana e muito menos rural. Lá ocupo a casa grande e jamais encilhei um cavalo, ou abri uma porteira. Cevar o mate nunca foi coisa para mim, muito menos usar pinico.
Meu trabalho me ocupa muito, mas dele retiro mais deleite do que sustento.
O piano e o clarinete eram tocados na minha casa, do clássico ao popular, sem, no entanto, nos preocuparmos se isso nos diminuiria. O Frances era tramado na conversa como as rendas eram nas sedas.
No pescoço o lenço de seda marcava uma posição junto com as botas lustradas e esporas de prata. Mesmo que dias antes tivéssemos suado no lombo do cavalo.
Burguesa era a Madame Bovary e por isso me ofendo.
Uma mulher que sonhava em dançar nos salões iluminados nos braços de homens perfumados de conversa melosa. Que se apaixonou por homens que viviam em um mundo aonde ela imaginava viver, em teatros, bailes e saraus regados a champanhe.
Ser burguês para mim é isso, trabalhar feito um burro velho para um dia usufruir as benesses que a vida presenteia os cavalos de raça. Ir ao teatro ocupando o camarote n.2, usando adereços com as grifes estampadas em letras douradas para que todos saibam o quanto aquilo custou caro. É usar o perfume Frances da moda, o creme, os sapatos, o cabelo igual a todas as mocinhas do restaurante. E, só freqüentar esses lugares e essas pessoas porque é com elas que vai aprender a ser o nobre que nunca será.
Odeio ser chamada de burguesa. Não que me ache uma representante das “mulheres do povo” como dizia minha avó quando minha mãe colocava rolos no cabelo e saia em publico, mas, também estou longe de ser uma Madame Bovary que morre na tentativa de reproduzir aquilo que sonha ser a vida da nobreza.
Eu já conhecia Nova York.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Vincere, ou cartas de amor


Vincere

Tenho um assistente particular para assuntos de cinema, ele me diz que filmes assistir e quase nunca erra. No entanto, nos serviços não inclui sair do cinema feliz, normalmente é uma porrada.
Ontem ele escolheu “Vincere” de Marco Bellocchio. Usando o titulo de uma música fascista ele conta a história de uma amante secreta de Mussolini, e do filho deles.
Um filme bem feito e divinamente encenado, misturando cenas de filmadas na época aonde nós assistimos a loucura do ditador e sua prepotência.
Mas, o que me chocou não foi a loucura de Mussolini, mas a loucura amorosa de Ilda Dalser, a amante. Ela conheceu Mussolini antes dele se tornar Duce, ficou fascinada por ele e o perseguiu. Eles foram amantes por algum tempo e tiveram um filho, embora ele já tivesse uma esposa e uma filha.
Ele, embora ocupado em fazer política, ficou curioso com a atenção que ela lhe dedicou e com o amor incondicional que ela lhe demonstrou. Ilda chegou a vender uma casa e seu negocio de costureira para comprar um jornal para o Benito. Entregue a paixão e ao encantamento ela encarnou o que Freud chamaria de “masoquismo feminino”. Ilda estava sempre presente aonde Mussolini ia, se apresentou com ele em publico, embora todos saibam de sua esposa. Ele a tratou como um objeto, um verdadeiro objeto de seu prazer, sem, no entanto, maltratá-la, afinal a gente não chuta o próprio cachorrinho.
Nessa abnegação e nessa entrega sem limites, Ilda usou das armas femininas para esconder uma identificação com o poder do ditador, na verdade ela estava identificada com ele. Mussolini era o que ela seria se fosse homem e quanto mais poderoso ele fosse, mais orgulhosa ela ficava, às vezes o exibindo como seu troféu, ou como seu falo.
Benito Mussolini sobe ao poder e o brinquedo perde sua importância.
Ilda Dalser não havia se perguntado se aquilo que percebia no amante era amor, estava ocupada em sentir e pensava que isso seria suficiente para que ele percebesse a importância da presença dela ao seu lado. Esperou. Ele não veio. Esperou. Escreveu uma carta, duas, três e ele não responde a nenhuma delas. Ela o desculpa, escreve mais.
Naquela hora, na ponta da cadeira do cinema, eu pensei: Sorte do Mussolini, não havia e-mail naquela época, muito menos celular ou mensagem de texto. Na verdade, sorte dela, pois teria sido fuzilada e não apenas internada como louca.
Ilda não suporta a rejeição e quando ele decide não mais vê-la, exige seus direitos e os direitos de seu filho, acaba sendo internada por louca e seu filho também, como uma resposta do prepotente amante. Ela se diz esposa dele, diz que ele a ama e que um dia irá procurá-la explicando o motivo de tanto distanciamento, talvez uma estratégia política. Ele certamente a ama e irá um dia admitir isso, ela conclui.
As manifestações que Ilda percebe no amante são entendidas como demonstrações de amor, apesar de ser apenas demonstração de tesao e do lugar desqualificado que ele coloca a mulher.
Tenho a promessa de escrever sobre o livro de Julia Kristeva, Historias de amor, a falta tempo para organizar as idéias e de terminar o livro em impedem, mas ainda assim permanece a pergunta: Afinal, teoricamente o que é o amor? Bem, na vivencia eu sei, preciso de uma definição cientifica, teórica.
Erotomania diria alguém diante de Ilda Dalser. Ela não era unicamente uma mulher apaixonada, sim isso também, mas possuía um amor dedicado, abnegado e às vezes ate masoquista. Ilda se entrega ao amante sem restrições ou defesas. No entanto, não era a única amante do Duce que se distraía conquistando novas mulheres.
Ele mandou interná-la em um hospital para loucos e transformou o seu amor em delírio. Ela não desistiu e tentou provar para os outros que o amor existiu e que não foi uma alucinação sua. Escreveu cartas que nunca foram enviadas, escreveu nas paredes da solitária, escreveu cartas aos juízes, ao Papa, aos políticos, as freiras sem obter nenhum sucesso. Morreu nessa luta.
Ela amou loucamente um louco e isso não a faz ser menos louca na tentativa de fazê-lo engolir boca abaixo seu desejo.
Hoje enquanto escrevia assistia na TV outro filme, Sandra Bullock é Mary Horwitz, outra mulher que confunde a relação com um homem e quase morre por isso.

Ela diz: “Se você ama alguém o deixe ir. Se precisa persegui-lo era porque não era seu”

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Ramirez ------Tributo a Morosoli





Ao entardecer, no ranchinho emprestado, o vento triste entrando pelas frestas da palha, o foguinho ralo e as pilhas do rádio quase acabando, Ramirez pensou que a cidade até poderia ser um bom lugar para um velho gaúcho.
Não que se importasse em tomar mate com erva lavada, afinal, há alguns anos aprendera a poupar, dava para tomar dois ou três mates com a mesma erva.
De manhazinha preparava o chimarrão com erva nova, virava ao meio-dia e depois, dependendo do quentume do dia, ainda podia aproveitá-la à tardinha. Também não se importava com a precariedade do rancho. Chita nas janelas para fazer de postigo, chão batido, gelado de dar dó, fogãozinho todo remendado com lata de óleo velho. Era homem de poucos luxos e devia agradecer a Dom Vasco pela generosidade, mesmo tendo lhe demitido havia deixado que ficasse ali.
Havia apenas duas coisas que deixavam Ramirez assim, taciturno e mal humorado; pedir fiado e quando o dinheiro não dava mais para a pinga, nem para a farinha do pão. Isso já vinha acontecendo fazia meses.
Verdade que sua vida não tinha sido de muitas farturas. Filho de gente pobre foi habituado com pouco na infância. Longe da casa paterna, desde muito cedo, trabalhava para pagar seus vícios e seus prazeres. Mas, já havia pensado em degolar gente que tinha insinuado que ele era preguiçoso, nunca recusou trabalho, só não gostava de patrão e de ficar muito tempo em um só lugar.
Doutra feita, quando o trabalho já tinha começado a rarear, foi obrigado a trabalhar em uma fazendola perto da fronteira, uma pequena leiteria, para cuidar das vacas de leite. Odiava gado leiteiro, andar atrás das vacas, sentar em banquinhos, ficar amassando suas tetas e depois passar o resto do dia fedendo a leite, tal qual um bezerro.
Já na primeira semana, após o pagamento, foi na venda da vila e tomou um trago. Não levantou para tirar o leite, foi demitido e se não fosse o posteiro tinha ficado sem pouso, ele e o velho gatiado.
Sabia que já não conseguiria empregos como os de antigamente. As fazendas rareavam, sem gado, sem pasto e sem cavalos não precisavam mais de peões. Ria-se sozinho pensando que precisaria aprender a domar um pé de eucalipto. Nem para cortá-los precisavam de gente, vinham as máquinas e em dois minutos acabavam com um mato inteiro.
Agora se sentia cansado. A coragem para domar potros fazia muitos anos que o abandonara, desde o último tombo e do braço quebrado.
A última vez que deparou com o sobrinho tentou lhe vender a encilha de alpaca que tinha sido de seu pai, a única coisa que lhe restava além do gatiado. Não era dado a sentimentos, mas seria melhor que ficasse na família.
Como todo rapazote da cidade ele respondeu com ar de doutor: “sai daqui, vai para a cidade, a vida aqui não tem mais jeito”. E encerrou dizendo que não precisava de encilha para andar de carro. Ramirez chegou a levar a mão ao relho, em outros tempos teria lhe dado uma sova, mas era em outros tempos.
Não tinha se preocupado quando soube que um grande fazendeiro tinha vendido suas terras para plantar mato. Pensou que era coisa de velho caduco, chegaram a falar que a morte do filho o deixou assim. Quem em saúde perfeita venderia uma bela fazenda, um rebanho de primeira, água e muito pasto? Apenas um maluco, pensava Ramirez. Passou com a tropa pela porteira e foi pedir pouso na fazenda ao lado.
Meses depois ficou sabendo que esta também fora vendida, foi quando Dom Vasco lhe ofereceu o ranchinho.
Todo dia, enquanto mateava cuidava o rumo dos caminhões. Eles passavam cheios de lenha para a cidade e Ramirez ficava pensando em como seria sua vida lá.
Recebera noticia de José, o bodegueiro, que se mudou para a cidade. Acabou trocando a venda por uma carroça. Dizem que com ela junta latinhas de cerveja. Ramirez ficou acabrunhado, não tinha dinheiro para carroça e muito menos vontade de catar lixo na rua.
O sobrinho falou da aposentadoria do governo e de um advogado para tratar do assunto. Venderia o gatiado e compraria uma casa com luz elétrica, assim além de não precisar mais de pilha não precisaria nem de rádio, poderia ver televisão. Talvez até uma mulher nova para cortar seus casco e coçar suas costas. Ramirez suspirava a poeira do último transporte de lenha enquanto decidia que no dia seguinte saberia com Dom Vasco se o caminhão iria carregar a lenha para a cidade e se teria um lugarzinho para ele.

Valdeci

Da ponta da mesa Valdeci sorria encabulado. Um sorriso meio de canto de boca, a cabeça inclinada para baixo para que os outros não percebessem as bochechas vermelhas, e balançando-a, tentava uma negação difícil de acreditar.
Essa cena se repetia quase todas as noites. Naquela espécie de bolanta o fazendeiro, o administrador, eu, um amigo também da cidade e Valdeci, o capataz, nos reuníamos depois do jantar.
Apesar da luz elétrica, a escuridão dos campos fora da casa e a falta da televisão, faziam com que essa gente da cidade tivesse uma sensação de estar em outros tempos. Talvez fosse por isso que insistiam naquelas conversas até mais tarde, regadas por alguma bebida mais forte que o chimarrão. Era como se estivéssemos em torno do fogo de chão em algum galpão de tropeada.
-Conta ai, interpelava o administrador, provocativo, insistindo na mesma história fazia dias.
-Conta ai Valdeci, tu comias ou não comias a Landa?
Valdeci parecia não querer lembrar, muito menos contar, mas a bebida providenciada era de qualidade muito melhor do que ele estava acostumado, o que lhe fazia abusar, então, ir afrouxando a memória e soltando a língua.
Parecia pensar que ao contrário do povo dali, nós, as pessoas mais estudadas e da cidade deveríamos estar acostumados com histórias estranhas. Estávamos mais instigados por outra curiosidade, do que pela vontade de saber sobre a vida do pobre sujeito. Queríamos saber se ele teria coragem de contar ou se negaria tudo como vinha fazendo até então.
Aos poucos e de tanto ser cutucado Valdeci foi contando.
-Homem, eu tinha só uns 16 para 17 anos quando meu pai foi transferido de peão da fazenda nas margens do Jaguarão, para capataz da outra fazenda dos Silveira, a Ovelha Negra, onde moravam os patrões. Nasci na fazenda da fronteira, e vivi embrenhado lá até a mudança.
Enquanto falava passava a mão nos cabelos negros de índio mestiço e andava para acender no fogão a lenha o palheiro apagado.
Era um homem parrudo embora não fosse gordo. Os braços e as mãos marcados pelo trabalho pesado pareciam talhados a formão. Tinha os dentes brancos que formavam com a tez escura um contraste bonito, embora o vasto bigode já estivesse amarelado pelo tabaco. Encostado na mesa sustentava um pé no outro joelho e ia alternando-os em uma posição semelhante a das cegonhas.
O administrador quase não acreditou que ele finalmente falaria, olhou o fazendeiro e pediu permissão com o olhar para continuar no assunto. Permissão concedida estimulou:

- Más diga lá índio veio. Tentando parecer mais íntimo usou do mesmo linguajar campeiro. Então é fato mesmo?
Valdeci lembrou-se do dia em que conheceu Orlando e a casa grande.
-Ala putia, era bonita e grande barbaridade, mas vocês precisavam mesmo era ver o carro que ele tinha. Isso sim me encantou, bati o olho e já queria aprender a trepar no bicho. Era vermelho, conversível, lembram do Puma..Um Puma GT 1600 conversível, uma lindeza. Tentando assim desviar a nossa atenção para uma conversa mais de macho e não sobre o que estávamos querendo saber.
O administrador voltou à carga, queria fazer Valdeci ir adiante e contar mais um pouco.
-Não desconversa, desembucha logo homem, comeste ou não comeste a Landa?
Assim, de noite a noite, de frase a frase, ele foi falando de sua relação com Orlando Silveira, a Landa, para os íntimos.
Ficava difícil para Valdeci admitir e falar de como estranhou a cor dos cabelos e dos olhos de Orlando. Uma vez sua mãe disse que os cabelos eram amarelos como espigas de milhos e os olhos azuis como céu de verão, não teria definido melhor, mas ficava bem falar assim de outro homem.
Orlando era um sujeito magrinho, nariz fino sempre para cima e gestos delicados como de moça educada. No entanto, montava um cavalo cuido baio com firmeza e de seu lombo tocava a estância inteira na ausência do pai que vivia levando a mãe para os médicos da cidade.
Não demorou muito para que Orlando percebesse o interesse de Valdeci pelo carro vermelho. Primeiro pediu para o rapaz lavá-lo. Deixou que entrasse, sentasse nos bancos de couro, e de longe cuidava o fascínio do guri pelo brinquedinho luxuoso.
Um dia finalmente Orlando propôs ensinar Valdeci a dirigir o carro, era irrecusável. Claro que ele já estava sentindo que o patrão andava lhe olhando estranho e quando chegava perto falava com voz mais mansa do que com a peonada, mas o carro era tudo que lhe interessava no momento. Sonhava com ele.
Na estância Valdeci pode estudar e na volta da escola ajudava o pai no campo e a mãe nas lidas de pátio. O resto do tempo dedicava ao carro e a circular pela casa grande com a permissão de Orlando.
- Eu era como um potro chucro, se define. Nunca tinha ouvido falar dessas coisas de homem com homem, a coisa mais estranha que vi foi outro peão barranqueando uma égua. Bem, naquela época mulher era escasso, se justificava.
Aos poucos foi sendo envolvido pelas propostas de Orlando e pelas facilidades que disso advinha. O carro passou a ser seu meio de locomoção até a escola.
-Apesar de tudo o mais difícil era sustentar o olhar do “véio” meu pai. Eu sabia que ele não diria nada, mas ele não achava aquilo certo. Mesmo que eu não fosse “a mulherzinha” da história era o filho do patrão que estava sendo enrabado e isso ele achava que acabaria mal.
Diante da história contada e da emoção que ia tomando conta da voz de Valdeci, o administrador foi ficando desconcertado e tentou dar um ar de seriedade ao relato
- Vocês sabem, não é? Esse tipo de anomalia era comum desde o tempo dos gregos. Os ricos, os nobres, os filósofos adoravam ter gurizinhos. Bem, afinal, homem é quem come.
Valdeci se sentiu aliviado e seguiu contando que jamais beijara Orlando na boca e que a única vez que ele havia tentando tinha lhe dado “um murro nos beiços.” E também não o chamava pelo apelido, Landa, por mais que ele pedisse, e ele sempre pedia naquela hora mais agitada.
-Eu ia lá fazia o serviço e caia fora. Depois cobrava caro. Várias voltas no carro vermelho.
A coisa já estava ficando corriqueira quando uma noite se dormem nos lençóis de linho. Pela manhã quando a estância mal amanhecia os pais de Orlando chegam de surpresa da cidade. O fazendeiro logo pergunta pelo filho que ainda dormia com sol já alto. Entra no quarto sem ser impedido pela criada, avisada por Orlando para barrar qualquer acesso.
-Filha da puta, deixaste ele entrar, gritava Orlando, enquanto arrumava as malas. Foi se tratar em Montevidéu, “para curar sua doença”,
- Para que ele visse que tem um filho puto, gritava do outro lado a velha empregada que já andava indignada com a pouca vergonha do patrãozinho.
-Quanto tempo ele ficou lá, pergunta o administrador tentando manter o assunto apesar do espanto dos demais presentes.
- Uns meses, não me lembro quantos, dizem que até andaram lhe costurando o rabo, mas se foi fato ele descosturou por lá mesmo, pois já voltou querendo mais.
-Tu estavas louco de saudades, retrucou um dos presentes.
-Que nada homem, meus pés já tinham virado cascão de ir sem o carro para a escola. Orlando bem que quis me deixar a chave, mas a empregada velha tomou da minha mão e ameaçou contar para o patrão. Ele voltou pior do que foi. Não passava uma noite sem que fosse me chamar em casa.
Acontece que enquanto Orlando esteve fora Valdeci foi algumas vezes na vila próxima e estava se interessando por umas gurias que moravam por lá.
Orlando desconfiou e teve uma crise de ciúmes:
-Filho de uma puta, eu te capo, seu veadinho de merda, tu pensas que és homem, vais ver.
-Fiquei uma fera, conta Valdeci, parti para cima dele e quase matei o homem de tanta porrada, acho que no fundo ele gostava de mim feito mulher mesmo.
- Isso me deixou muito mal parado, só que faltava a bixa querer exclusividade. Eu já estava com quase 20 anos, na hora de conhecer mulher de verdade. Sentir pena dele estava me deixando mole demais. Fiquei lá por mais um tempo, mas depois achei melhor ir embora. Já andavam insinuando que eu estava ficando igual a ele, acho que era por causa dos estudos. Com a vida facilitada eu acabei estudando mais que os outros guris e isso me tornava meio maricas e com os modos finos como Orlando. Valdeci baixou a cabeça, olhou pela janela, e com a voz trôpega finalizou.
-Ate hoje, quando me lembro de tudo isso tenho muita vergonha.
- Te ter comida a bicha, diz apressado o administrador, tentando remendar o que tinha feito.
-Não, de ter tratado o cara com tanta falta de respeito.
E Valdeci, pigarreia, cospe no chão, se despede, sai da bolanta segurando as bombachas com os cotovelos e arrastando as alpargatas.

domingo, 10 de outubro de 2010

Sueli Rolnik comentanto o arigo de Maria Rita Kelh

Caros,
Vale a pena ler o exelente e corajoso texto que Maria Rita publicou em sua coluna no Estadão na véspera do primeiro turno (segue abaixo). Para os que não sabem, a publicação deste texto causou sua demissao do jornal. A punição, do tipo velhos métodos não tão longínquos quanto gostaríamos, teve como simples objeto o fato de uma jornalista (diga-se de passagem, de alta respeitabilidade, também como intelectual e psicanalista) ter ousado expressar uma mínima parcela do que todos nós temos obrigação de pensar face à situação perigosamente pervera que vem se apresentando nestas eleições.Ao que ela escreve, eu acrescentaria que não podemos bobear de agora até o segundo turno (pelo menos). Estejamos alertas aos estragos provocados pelo monopólio da informação em nosso país que expressa os interesses de apenas uma parcela mínima da população, monopólio que convoca o que temos de mais reativo: a memória colonial e escravocrata inscrita em nossos corpos de classe média e elite brasileiras, amputada de sua dimensão de vida pública, intoxicada de preconceitos de classe e de raça, etc, etc. -- sintomas de um narcisismo ancestral, baseado no deprezo pelo outro (mesmo quando, no melhor dos casos, este sentimento se tranveste de bondade politicamente correta). São estes microfacismos que estão subindo à superfície midiática sem disfarce, sem o menor pudor e cada vez mais violentamente. O buraco de onde emergem estas forças reativas está bem mais embaixo do que o simples ódio ao PT ou à Dilma. E é isto o que assusta.Ativemos nosso senso de responsabilidade na construção da realidade, tão debilitado na história que nos constitui. Não podemos responsabilizar um candidato ou um partido pela corrupção que certos elementos do mesmo possam ter cometido, senão teríamos que responsabilizar todos aqueles que participam ou participaram do Estado brasileiro, desde a fundação da República, profundamente bichado por subjetividades tacanhas e corruptas. É ridículo cairmos neste argumento da mídia, que explora a despolitização doentia de nosso país. Tampouco podemos decidir nosso voto em função de nossa simpatia ou antipatia por este ou aquele candidato, mas sim em função de nossa maior ou menor identifcação com um projeto político. Não estou me referindo a projeto político no sentido de um puro blablabla retórico e/ou ideológico, mas daquilo que, de fato, o governo lula realizou neste 8 anos. Sabemos dos grandes avanços conquistados, seja por nossa própria participação direta ou indireta nas diferentes ações levadas nas áreas da educação, saude, cultura, economia, etc, seja pela participação de amigos ou amigos de amigos. Foram muitas, mas muitas mesmo, as pessoas que vararam noites e mais noites para fazer mover o mais possível o estado de inércia patológica do pensamento em nosso país pós-ditadura, de modo a abrir espaços inéditos de exercício democrático, de construção de vida pública, etc. Infelizmente, a grande maioria não tem acesso a estas informações, em razão do tal monopópio da informação em nosso país (no que ele aliás se distingue da grande maioria dos países do planeta, inclusive de nosso continente). Muitos de nós nos angustiamos com esse monopólio e o microfascismo que tem emporcalhado as páginas dos jornais e a tela das TVs, mas na hora H as forças reativas tendem a vencer em nós mesmos, talvez por nossa incapacidade de lidar com o que nos causa tamanho desconforto com a situação atual e ainda com a memória do trauma da ditadura que até hoje não conseguimos sequer começar a elaborar. É patético, por exemplo, deixarmos passar a operação sinistra do pior de nossas elites, via midia, que transforma a resistência à ditadura em coisa de vagabundo e assassino. Morro de vergonha!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! Bem é um desabafo. Espero contar com muitos outros ousando pensar e agir na audaciosa direção da afirmação da vida, como vem ocorrendo pelo menos via internet.Abs,Suely

Dois pesos...
02 de outubro de 2010 0h 00
si
Maria Rita Kehl - O Estado de S.Paulo
Este jornal teve uma atitude que considero digna: explicitou aos leitores que apoia o candidato Serra na presente eleição. Fica assim mais honesta a discussão que se faz em suas páginas. O debate eleitoral que nos conduzirá às urnas amanhã está acirrado. Eleitores se declaram exaustos e desiludidos com o vale-tudo que marcou a disputa pela Presidência da República. As campanhas, transformadas em espetáculo televisivo, não convencem mais ninguém. Apesar disso, alguma coisa importante está em jogo este ano. Parece até que temos luta de classes no Brasil: esta que muitos acreditam ter sido soterrada pelos últimos tijolos do Muro de Berlim. Na TV a briga é maquiada, mas na internet o jogo é duro.Se o povão das chamadas classes D e E - os que vivem nos grotões perdidos do interior do Brasil - tivesse acesso à internet, talvez se revoltasse contra as inúmeras correntes de mensagens que desqualificam seus votos. O argumento já é familiar ao leitor: os votos dos pobres a favor da continuidade das políticas sociais implantadas durante oito anos de governo Lula não valem tanto quanto os nossos. Não são expressão consciente de vontade política. Teriam sido comprados ao preço do que parte da oposição chama de bolsa-esmola.Uma dessas correntes chegou à minha caixa postal vinda de diversos destinatários. Reproduzia a denúncia feita por "uma prima" do autor, residente em Fortaleza. A denunciante, indignada com a indolência dos trabalhadores não qualificados de sua cidade, queixava-se de que ninguém mais queria ocupar a vaga de porteiro do prédio onde mora. Os candidatos naturais ao emprego preferiam viver na moleza, com o dinheiro da Bolsa-Família. Ora, essa. A que ponto chegamos. Não se fazem mais pés de chinelo como antigamente. Onde foram parar os verdadeiros humildes de quem o patronato cordial tanto gostava, capazes de trabalhar bem mais que as oito horas regulamentares por uma miséria? Sim, porque é curioso que ninguém tenha questionado o valor do salário oferecido pelo condomínio da capital cearense. A troca do emprego pela Bolsa-Família só seria vantajosa para os supostos espertalhões, preguiçosos e aproveitadores se o salário oferecido fosse inconstitucional: mais baixo do que metade do mínimo. R$ 200 é o valor máximo a que chega a soma de todos os benefícios do governo para quem tem mais de três filhos, com a condição de mantê-los na escola.Outra denúncia indignada que corre pela internet é a de que na cidade do interior do Piauí onde vivem os parentes da empregada de algum paulistano, todos os moradores vivem do dinheiro dos programas do governo. Se for verdade, é estarrecedor imaginar do que viviam antes disso. Passava-se fome, na certa, como no assustador Garapa, filme de José Padilha. Passava-se fome todos os dias. Continuam pobres as famílias abaixo da classe C que hoje recebem a bolsa, somada ao dinheirinho de alguma aposentadoria. Só que agora comem. Alguns já conseguem até produzir e vender para outros que também começaram a comprar o que comer. O economista Paul Singer informa que, nas cidades pequenas, essa pouca entrada de dinheiro tem um efeito surpreendente sobre a economia local. A Bolsa-Família, acreditem se quiserem, proporciona as condições de consumo capazes de gerar empregos. O voto da turma da "esmolinha" é político e revela consciência de classe recém-adquirida.O Brasil mudou nesse ponto. Mas ao contrário do que pensam os indignados da internet, mudou para melhor. Se até pouco tempo alguns empregadores costumavam contratar, por menos de um salário mínimo, pessoas sem alternativa de trabalho e sem consciência de seus direitos, hoje não é tão fácil encontrar quem aceite trabalhar nessas condições. Vale mais tentar a vida a partir da Bolsa-Família, que apesar de modesta, reduziu de 12% para 4,8% a faixa de população em estado de pobreza extrema. Será que o leitor paulistano tem ideia de quanto é preciso ser pobre, para sair dessa faixa por uma diferença de R$ 200? Quando o Estado começa a garantir alguns direitos mínimos à população, esta se politiza e passa a exigir que eles sejam cumpridos. Um amigo chamou esse efeito de "acumulação primitiva de democracia".Mas parece que o voto dessa gente ainda desperta o argumento de que os brasileiros, como na inesquecível observação de Pelé, não estão preparados para votar. Nem todos, é claro. Depois do segundo turno de 2006, o sociólogo Hélio Jaguaribe escreveu que os 60% de brasileiros que votaram em Lula teriam levado em conta apenas seus próprios interesses, enquanto os outros 40% de supostos eleitores instruídos pensavam nos interesses do País. Jaguaribe só não explicou como foi possível que o Brasil, dirigido pela elite instruída que se preocupava com os interesses de todos, tenha chegado ao terceiro milênio contando com 60% de sua população tão inculta a ponto de seu voto ser desqualificado como pouco republicano.Agora que os mais pobres conseguiram levantar a cabeça acima da linha da mendicância e da dependência das relações de favor que sempre caracterizaram as políticas locais pelo interior do País, dizem que votar em causa própria não vale. Quando, pela primeira vez, os sem-cidadania conquistaram direitos mínimos que desejam preservar pela via democrática, parte dos cidadãos que se consideram classe A vem a público desqualificar a seriedade de seus votos.

domingo, 19 de setembro de 2010

Wendy Guerra, "Nunca fui Primeira Dama"


Wendy Guerra, “Nunca fui Primeira Dama”

Tem alguns livros que eu leio, outros me lêem. Quero dizer que me marcam, deixam pistas que me seguem até a descoberta de um outro. Posso citar alguns mas, certamente não falarei de todos: Amor nos tempos do Cólera, Madame Bovary, Dom segundo Sombra, A louca da casa, As Princesas de Berlim, nem estou falando dos Freuds ou dos lacanianos.
O ultimo foi “Nunca fui Primeira Dama” de uma moca cubana que através de um romance que mistura ficção e lembranças nos conta como é crescer e viver em Cuba de Fidel. Ela é filha de uma radialista que saiu de Cuba e de um artista plástico que a criou lá. Em um relato moderno e sem ilusões ela vai contando-nos que viver em Cuba é uma escolha, uma escolha pela resistência, uma escolha cheia de sacrifícios pela crença em um mundo fora do capitalismo.
Hoje fui fazer um passeio e uma visita. Conheci uma moca loirinha, agradável, simpática, embora não bonita. Conversamos muito. Falamos sobre o trabalho de pesquisa que ela desenvolve. Bióloga, ela pesquisa sobre a memória, como surge e como se prolonga, me diz que trabalha com neurociência. Ali eu já deveria ter desconfiado de com quem eu falava. Mas, um domingo de sol, uma praia ventosa com areia tocada nos olhos e nos cabelos, cerveja acompanhando o churrasco, eu não quero pensar.
Quase no final da tarde alguém, sem nenhuma outra pretensão, começa a contar sobre sua viagem a Lima e nos informa que toda a elite intelectual e financeira daquele pais é formada pela parcela de descendência européia e que nenhum deles fez ou faz sua formação acadêmica no pais. Eles enviam seus filhos para estudar nas universidades da Europa ou Estados Unidos. Comentamos, então, sobre a condição dos descendentes dos índios, aqueles com pele cor de cuia e cabelos negros. Um povo humilde e humilhado, submetido a uma classe branca preconceituosa e exploradora, ainda colonizadores, no entanto, agora de seus irmãos. Claro, que não percebo muita diferença entre eles e os negros na Bahia. Estes últimos simpáticos, amáveis, dóceis ainda escravos do turista que eles pretendem roubar.
Na conversa me refiro as posições dos governos de Chaves e Evo Morales que mesmo que nos pareça retrograda, meio ditatorial, populista e pouco simpática é em defesa de um povo que talvez não entenda outra linguagem e que ainda precisa de alguém os defenda.
Na Bahia ouvi os motoristas de taxis e vendedores sentirem saudades de ACM, o pai sedutor, o sinhô bonzinho, que alimenta e não bate. Ele tratava bem seu rebanho e principalmente o mantinha assim, como rebanho. A favela, a ignorância e muito mais, a miséria moral e ética, ali, ao lado do hotel de luxo, ao lado da cadeira da praia. O negro simpático, humilde, pobre vai te vender alguma coisa, a turista legal, preocupada com o social e de saco cheio, vai comprar.
Ao contrario do tal ACM e sua família, Evo e Chaves falam a língua de seu povo, mesmo que isso afronte a população branca de seus países, mesmo que para isso, alguns interesses sejam contrariados, mas não há outro modo quando a regra é: eu ou tu e nunca nós.
A loirinha pula, vermelha e me fuzila com uma visão tão medíocre quanto feia e burra de menina que repete o discurso reacionário de papai militar: “Eles mantém seu povo sem acesso a comida e a cultura, como fazem em Cuba, as pessoas não tem o direito a escolher seu próprio caminho”, e assim ataca tudo que não é americano, nem é neurociência.
Wendy me ensinou que há muita miséria e sofrimento em Cuba, muito eles perderam e precisaram abrir mao. Ela cobra da geração que sustentou a revolução o fim da ilusão, o quanto eles pagaram para manterem nos filhos a crença de que um mundo melhor era possível e o fracasso dessa ilusão. Mas, é uma escolha ou eles são cubanos e cultivam sua cultura ou serão mais uma ilhota de Miami.
A visita acabou ali. Alguém sabiamente disse: “Bem ta na hora, quem sabe vamos indo?”

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Contar al desaparecido (Raul VIdal)

Raul Vidal é argentino de Córdoba e psicanalista. Enviou-me esse artigo super interessante para aqueles que gostam de literatura, psicanálise e história.

Contar al desaparecido


Raúl Vidal



Un escritor secretario de su propia historia o “la literatura no es inocente”.[2]

(...) escribiendo estas páginas descubrí que lo demasiado real, al ser tocado
por las palabras, ingresa en una región parecida a la de los sueños.
Abelardo Castillo, El Evangelio según Van Hutten.
[3]


Roberto Bolaño, el escritor chileno que reside en Cataluña,
[4] y que curiosamente, según algunos consideran, ha escrito la mejor novela mexicana[5] de los noventa, Los detectives salvajes [1998]; quizá no conforme con lo someramente escrito en el último capítulo de su anterior novela, La literatura nazi en América [1996],[6] en el que había decidido hacer del narrador una misma cosa con el autor; tal vez esperanzado en acabar con tanta “memoria encarnada” (para subrayar una expresión reciente de Jorge Semprún)[7]... escribe Estrella distante [1996]: novela que decide retomar la historia de aquel joven R. Bolaño que logró sobrevivir a la caída de Salvador Allende y ¿también al horror? Allí, en ese espacio que el mismo R. Bolaño llama “el planeta de los monstruos”, la poesía parece ocupar un lugar, la locura también. Por estas tres experiencias: el horror, la poesía y la locura; vale detenerse en Estrella distante.
En esta pequeña novela, R. Bolaño vuelve a escribir la historia ya narrada en el último capítulo de La literatura nazi en América. Al final de esta última (que en su totalidad es una especie de Historia Universal de la Infamia de la segunda mitad del siglo XX)
[8] R. Bolaño escribe un relato de unas veintitrés páginas, titulado Ramírez Hoffman, el infame. Partiendo de este último capítulo, desarrollando un poco más la trama y cambiando la mayoría de los nombres de los personajes (el suyo propio, el del autor, en ambos textos aparece identificado a la figura del narrador), la pluma de R. Bolaño da a luz Estrella distante. Al iniciarla, el escritor chileno señala este parentesco entre sus dos novelas, y subraya que esta tarea de volver sobre una historia ya contada, de volver a escribir lo escrito, es fruto de que la historia le ha sido referida por su compatriota Arturo B., quien sin duda, para quien haya leído un poco más de R. Bolaño (Los detectives salvajes, Amuleto), no puede ser otro que Arturo Belano, el alter ego del autor. Es decir, al iniciar Estrella distante, el narrador-autor cuenta que
Esta historia me la contó mi compatriota Arturo B. [...]. Arturo deseaba una historia más larga, no espejo ni explosión de otras historias sino espejo y explosión en sí misma. Así pues, nos encerramos durante un mes y medio en mi casa de Blanes y con el último capítulo [de La literatura nazi en América] en mano y al dictado de sus sueños y pesadillas, compusimos la novela [...]. Mi función se redujo a preparar bebidas, consultar algunos libros, y discutir, con él y con el fantasma cada día más vivo de Pierre Menard, la validez de muchos párrafos repetidos.
[9]

El autor Roberto Bolaño se hace secretario
[10] del personaje Arturo Belano: son los sueños y pesadillas del personaje Belano los que guían la composición de la novela que firma el escritor Bolaño.
La historia contada transcurre de pleno en los años del horror chileno. El teniente de la Fuerza Aérea Chilena, Carlos Ramírez Hoffman, de la primera versión de los hechos, es aquí el teniente Carlos Wieder; y su antiguo nombre de guerra, Emilio Stevens, es aquí Alberto Ruiz-Tagle. Es decir, el teniente Carlos Wieder, bajo el nombre de Alberto Ruiz-Tagle (un joven poeta de vanguardia), era eso que se ha dado en llamar un infiltrado en el pequeño grupo de intelectuales y artistas de izquierda que durante el gobierno de Salvador Allende, en la ciudad sureña de Concepción, giraba alrededor de dos talleres literarios (el de Juan Stein, y el de Diego Soto), grupo del que formaba parte un Roberto Bolaño de apenas dieciocho años. Las “estrellas indiscutibles”
[11] de ese grupo de jóvenes chilenos eran las gemelas Verónica y Angélica Garmendia, la primera de las cuales se había enamorado del infiltrado. Lo cierto es que cuando en septiembre de 1973 acaece el golpe de Pinochet, se produce, como es lógico de suponer, la “desbandada”.[12] Al respecto, escribe R. Bolaño:
[...] en esos momentos todo aquello en lo que creía se hundía para siempre y mucha gente, entre ellos más de un amigo, estaba siendo perseguida o torturada.
[13]

Así las cosas, las hermanas Garmendia, quizá previendo lo que se venía, cuando cae Allende se trasladan de ciudad, a vivir con una tía en la antigua casa paterna; y allí mismo, luego de unas primeras semanas de tensa tranquilidad, reciben la visita de Ruiz-Tagle. El teniente de la Fuerza Aérea Chilena, que también es poeta, este hombre que “escribía con distancia y frialdad”,
[14] es decir, Carlos Wieder, se queda a dormir esa noche, negándose previamente, a pesar de la insistencia de su auditorio, a leer sus poemas:
[...] dice que está a punto de concluir algo nuevo, que hasta no tenerlo terminado y corregido prefiere no airearlo, se sonríe, se encoge de hombros, dice que no, lo siento, no, no, no, y las Garmendia asienten, tía, no seas pesada, creen comprender y leen sus poemas, no comprenden nada (está a punto de nacer la “nueva poesía chilena”) [...].
[15]

Las gemelas Garmendia, en realidad (lo real presente en el horror no exige y escamotea la comprensión: “No es preciso que se entienda”)
[16], no comprenden nada, porque esa misma noche, mientras todos duermen, el joven poeta Ruíz-Tagle, es decir Carlos Wieder, se levanta y luego de degollar a la tía de las Garmendia, les abre la puerta a eso que por estos lados de la cordillera se dio en llamar un grupo de tareas, quienes secuestran a las bellas hermanas Garmendia, que también son poetas, y qué poetas... desaparecidas en las catástrofes de la historia.
Mientras esto sucede, Roberto Bolaño ya está preso en un centro de detención llamado casi igual que aquel otro lugar que, en mi ciudad, es emblema del horror de los setenta: ese lugar, en el que R. Bolaño tenía “la sensación de ser el único preso que miraba al cielo”,
[17] se llama Centro La Peña.[18] Y así, el primer acto poético del teniente Carlos Wieder (que a esta altura de los acontecimientos ya no necesita hacerse llamar Alberto Ruiz-Tagle), ese acto inaugural de “la nueva poesía chilena” que Carlos Wieder realiza comandando su avión, es presenciado por R. Bolaño precisamente por que él mira al cielo:
Y ahí, en esas alturas, comenzó a escribir un poema en el cielo. Al principio creí que el piloto se había vuelto loco y no me pareció extraño. La locura no era una excepción en aquellos días. Pensé que giraba en el aire deslumbrado por la desesperación [...]. Pero acto seguido, como engendradas por el mismo cielo, en el cielo aparecieron las letras. Letras perfectamente dibujadas de humo gris negro sobre la enorme pantalla de cielo azul rosado que helaban los ojos del que las miraba.
[19]

Lo que Carlos Wieder escribía eran versículos de la Biblia en latín, mientras parecía revolotear, como una oscura mariposa sofocada por el espanto, encima de la cabeza de los presos, ir y venir sobre el campo de detención:
Uno de los presos, uno que se llamaba Norberto y que se estaba volviendo loco [...] se puso a gritar es un Messerschmitt 109, un caza Messerschmitt de la Luftwaffe, el mejor caza de 1940. Lo miré fijamente, a él y después a los demás detenidos, y todo me pareció inmerso en un color gris transparente, como si el Centro La Peña estuviera desapareciendo en el tiempo.
[...] El loco Norberto [...], se reía y decía que la Segunda Guerra Mundial había vuelto a la Tierra, se equivocaron, decía, los de la Tercera, es la Segunda que regresa, regresa, regresa.
[...] Hasta ese momento nunca había visto tanta tristeza junta.
[20]

Es evidente que en estos párrafos escritos por R. Bolaño se ponen en relación el horror, la poesía y la locura. ¿Qué valor tiene esto? ¿Acaso sirve de algo la literatura, en este caso la poesía, para soportar el horror? Además, en esta ocasión es el represor el poeta, es el represor el que, según el loco Norberto, “al final [les] deseaba buena suerte”,
[21] es el represor Carlos Wieder quien mediante ésta, “su primera acción poética”,[22] se transformaba en la vanguardia de la poesía chilena, en “el gran poeta de los nuevos tiempos”,[23] repitiendo una y otra vez sus proezas poéticas a bordo de su avión. Al mismo tiempo, en cada uno de sus hechos artísticos, el teniente Carlos Wieder, para aquél o aquélla que “lo leyera cabalmente”,[24] para “sus más íntimos, [...] estaba nombrando, conjurando, a mujeres muertas”.[25]
Poco tiempo después R. Bolaño se marcha de Chile “definitivamente”,
[26] tal vez porque piensa lo mismo que le hace decir a uno de sus personajes:
Matarse [...] en esta coyuntura sociopolítica, es absurdo y redundante. Mejor convertirse en poeta secreto.
[27]

Todo el horror se establecía, de una manera para nada silenciosa, mientras el teniente Carlos Wieder, que para algunos intentaba probar que el autoritarismo del régimen pinochetista no estaba reñido con el arte de vanguardia, continuaba su carrera artística en franco ascenso. Se organizó, entonces, una doble muestra: por un lado una última exhibición aérea de la nueva poesía chilena (a desarrollarse en los cielos de Santiago, por sobre los birretes y gorras de los principales jefes militares del régimen), seguida de una exposición fotográfica: “fotos [que] necesitaban un marco limitado y preciso como la habitación del autor. [...]después de la escritura en el cielo era adecuado ¾y además encantadoramente paradójico¾ que el epílogo de la poesía aérea se circunscribiera al cubil del poeta”,
[28] cuenta el narrador que Carlos Wieder señaló.
En un día en el que, por las intensas nubes negras que poblaban el cielo, no era para nada aconsejable volar, Carlos Wieder escribió con su avión varios versos:
Ø La muerte es amistad
Ø La muerte es Chile
Ø La muerte es responsabilidad
Ø La muerte es amor
Ø La muerte es crecimiento
Ø La muerte es comunión
Ø La muerte es limpieza

Este último verso casi no se pudo leer, debido a que la tormenta eléctrica ya se había desatado (no es de extrañar que la naturaleza, eso que se ha dado en llamar los elementos, su interacción con el hombre, exija y posibilite la tarea artesanal del poeta, es decir, la poesía) y, entonces, según nos cuenta R. Bolaño:
Sobre el cielo quedaban jirones negros, escritura cuneiforme, jeroglíficos, garabatos de niño. Aunque algunos sí que lo entendieron y pensaron que Carlos Wieder se había vuelto loco.
[29]

Y para finalizar su acto poético,
Escribió, o pensó que escribía: La muerte es mi corazón. Y después: Toma mi corazón. Y después su nombre: Carlos Wieder, sin temerle a la lluvia ni a los relámpagos. Sin temerle, sobre todo, a la incoherencia.
Y después ya no tenía humo para escribir (desde hacía un rato el humo que escapaba del fuselaje daba la impresión, más que de escritura, de incendio, un incendio que se fundía con la lluvia) pero escribió: La muerte es resurrección y los fieles que permanecían abajo no entendieron nada pero entendieron que Wieder estaba escribiendo algo, [...]).
[30]

Ahora bien, ¿no es acaso algo similar lo que nos pasa cuando la locura escribe?, ¿no sucede muchas veces que no entendemos nada, pero intuimos que allí hay “algo”? Al mismo tiempo, si pensamos que, al menos en este particular caso, eso que en forma de versos se escribe en el cielo, forma parte del horror (y no me refiero sólo a esos versos donde la muerte parece comandar todo, sino también a los nombres de desaparecidos que Carlos Wieder con su arte conjura), y si además el artificio del teniente de la Fuerza Aérea pinochetista pasa por un acto poético, nos deberíamos poder preguntar: ¿es ésta una de las formas que busca el horror para poder ser dicho?, ¿acaso para poder contar lo que no puede ser dicho, se necesita de una cierta articulación entre horror, locura y escritura (en este caso una escritura poética; en este caso, el que incluye a Roberto Bolaño y su novela, literatura)?
Lo cierto es que la locura, como una cargosa aunque metódica compañera del horror, está aún más presente cuando sobreviene la segunda parte del hecho artístico que Carlos Wieder busca dar a consideración ese día de 1974: los invitados a la muestra fotográfica de uno en uno van entrando a la habitación del autor; y de uno en uno van saliendo con el rostro pálido y desencajado, vomitando en el pasillo de salida, algunos con ganas de golpear al autor de las fotografías, otros llorando o maldiciendo, o trastabillando mientras huyen de la velada.
Y aquí Roberto Bolaño (o Arturo Belano), escribe algo que no estaba escrito en la primera versión de los hechos: mientras que en el último capítulo de La literatura nazi en América, nada se decía de lo que los invitados a la muestra habían visto y sufrido dentro de la habitación repleta de fotografías, aquí, en Estrella distante, R. Bolaño (o A. Belano) decide contar. Quiero decir que en La literatura nazi en América, sólo se escribe una frase:
De pronto ya nadie hablaba.
[31];

precisamente allí donde, ahora, en Estrella distante, se habla:
Según Muñoz Cano [que es quien ha sabido escribir un libro, Con la soga al cuello, a través del cual R. Bolaño se entera de los hechos], en algunas de las fotos reconoció a las hermanas Garmendia y a otros desaparecidos. La mayoría eran mujeres. El escenario de las fotos casi no variaba de una a otra por lo que deduce es el mismo lugar. Las mujeres parecen maniquíes, en algunos casos maniquíes desmembrados, destrozados, aunque Muñoz Cano no descarta que en un treinta por ciento de los casos estuvieran vivas en el momento de hacerles la instantánea. Las fotos, en general (según Muñoz Cano), son de mala calidad aunque la impresión que provocan en quienes las contemplan es vivísima. El orden en que están expuestas no es casual: siguen una línea, una argumentación, una historia (cronológica, espiritual...), un plan. Las que están pegadas en el cielorraso son semejantes (según Muñoz Cano) al infierno, pero un infierno vacío. Las que están pegadas (con chinchetas) en las cuatro esquinas semejan una epifanía. Una epifanía de la locura.
[32]

En algún momento del mes y medio que, aparentemente (por la fecha de publicación de ambas novelas, y por que R. Bolaño así lo deja consignado en la nota preliminar con la que inicia Estrella distante),
[33] le lleva escribir esta última novela, el escritor chileno decide contar un poco más sobre el horror. ¿Bajo qué compromiso subjetivo lo hace? ¿Qué lo conduce a decir más, un poco más (y de la mano de uno de sus personajes... no cualquiera, claro: Arturo Belano)? En s uma, ¿qué nuevo artificio le permite hablar, allí donde “ya nadie hablaba”?
A partir de este movimiento que realiza el autor, me deja de importar el teniente del aire Carlos Wieder (ni siquiera su triste aunque merecido final), y comienzan a hacerse evidentes estas preguntas sobre el narrador-autor en tanto sobreviviente del horror. Quiero decir que Roberto Bolaño (narrador, y al mismo tiempo autor, de la novela Estrella distante), muchos años después, en un tiempo que es reciente, una época en que Chile “ha olvidado”,
[34] comienza a interesarse nuevamente en Carlos Wieder, cuando “uno de los policías más famosos de la época de Allende”,[35] un tal Abel Romero, le pide ayuda para encontrar al antiguo represor:
Vivía solo, no tenía dinero, mi salud dejaba bastante que desear, hacía mucho que no publicaba en ninguna parte, últimamente ya ni siquiera escribía. Mi destino me parecía miserable. [...] Las revistas [que Abel Romero le había acercado para que R. Bolaño encontrara en ellas alguna pista de estilo, que descubriera el paradero de Carlos Wieder] [...] obraron en mí con el efecto de un antídoto. [...] cada vez más involucrado en la historia de Wieder, que era la historia de algo más, aunque entonces no sabía de qué. Una noche incluso tuve un sueño al respecto. Soñé que iba en un gran barco de madera, un galeón tal vez, y que atravesábamos el Gran Océano. Yo estaba en una fiesta en la cubierta de popa y escribía un poema o tal vez la página de un diario mientras miraba el mar. Entonces alguien, un viejo, se ponía a gritar ¡tornado!, ¡tornado!, pero no a bordo del galeón sino a bordo de un yate o de pie en una escollera. Exactamente igual que en una escena de El bebé de Rosemary, de Polansky. En ese instante el galeón comenzaba a hundirse y todos los sobrevivientes nos convertíamos en náufragos. En el mar, flotando agarrado a un tonel de aguardiente, veía a Carlos Wieder. Yo flotaba agarrado a un palo de madera podrida. Comprendía en ese momento, mientras las olas nos alejaban, que Wieder y yo habíamos viajado en el mismo barco, sólo que él había contribuido a hundirlo y yo había hecho poco o nada por evitarlo.
[36]

Este sueño de R. Bolaño (o de A. Belano), que bien podría ser, si se toma en cuenta Los hundidos y los salvados, un sueño soñado por Primo Levi, parece decir que la memoria recuperada tiene el valor de un antídoto o remedio. Pero si la lectura continúa, unos párrafos más adelante, se ve cómo R. Bolaño relata que
La presencia de Wieder entre las paredes de mi casa, no obstante, se hacía cada vez más fuerte, [...] yo sentía que mi vida entera se estaba yendo a la mierda.
[37]

Y es que, precisamente, lo difícil parece ser el mantener ese delgado equilibrio entre el contar el horror y el sobrevivir al horror. Como lo enuncia aquél del que me voy a ocupar a continuación, el sobreviviente del horror muchas veces puede llegar a plantear todo esto del siguiente modo:
[...] no sé qué hacer con mi pasado. Olvidar es, casi, imposible. Diferentes momentos de la vida cotidiana traen recuerdos y, a veces, son traumáticos.
Tengo la sensación que camino sobre una senda muy estrecha entre el olvido y el recuerdo.
[...].
La memoria ayuda a vivir. Y la misma memoria tortura.
[38]

¿Cuál es el límite para soportar la memoria encarnada?
Al comenzar el próximo capítulo de su novela, el narrador-autor R. Bolaño escribe lo siguiente:
Ésta es mi última transmisión desde el planeta de los monstruos. No me sumergiré nunca más en el mar de mierda de la literatura. En adelante escribiré mis poemas con humildad y trabajaré para no morirme de hambre y no intentaré publicar.
[39]

[1] El presente ensayo fue galardonado con mención honorífica en el Premio Colección Archivos-Unesco de Ensayo Literario (Concurso Internacional “Juan Rulfo”, 2002), otorgado por Radio Francia Internacional / Instituto de México. [N. del E.]
[2] Cfr. Roberto Bolaño, Los detectives salvajes, Anagrama, Barcelona, 1998, p. 151. (la frase es dicha, en marzo de 1976, por Fabio Ernesto Logiacomo: poeta argentino, exiliado en México).
[3] Abelardo Castillo, El Evangelio según Van Hutten, Col. Biblioteca Argentina La Nación, Planeta, Buenos Aires, 2001, p. 140.
[4] Nueve días después de haber sido aceptado para su publicación el presente ensayo de Raúl Vidal, leíamos la noticia de que Roberto Bolaño había muerto en Barcelona el 14 de Julio de 2003. [N. del E.].
[5] El exilio latinoamericano, y particularmente el exilio del propio R. Bolaño, ya supo demarcar nítidamente esa especie de triángulo giratorio: Cono Sur, México, España-Francia.
[6] Roberto Bolaño, La literatura nazi en América, Seix Barral, Buenos Aires, 1996.
[7] Cfr. Jorge Semprún, “Buchenwald y la experiencia de la libertad”, diario El País, suplemento Babelia, Madrid, sábado 19 de mayo de 2001, pp. 2 y 3.
[8] Una nueva Historia (Americana) de la Infamia que también se rige por lo que Jorge Luis Borges, en el prólogo a la suya, el del 27 de mayo de 1935, consideraba una “reducción de la vida entera de un hombre a dos o tres escenas” (Cfr. Jorge Luis Borges, “Historia Universal de la Infamia”, Obras Completas, Vol. I, María Kodama y Emecé Editores, Buenos Aires, 1989, p. 289); además, como en el prólogo borgiano, esta vez el de 1954, donde se puede leer que “la palabra infamia aturde en el título” (Ibíd, p. 291), quizá, a finales del siglo XX, la palabra nazi aturde en el título de lo escrito por R. Bolaño. Esto sea dicho, y sobre todo sea leído, como un sencillo aunque riguroso ejercicio de lectura: como J. L. Borges, aquel 27 de mayo de 1935, “A veces pienso que los buenos lectores son cisnes aun más tenebrosos y singulares que los buenos autores”. (Ibíd, p. 289).
[9] Roberto Bolaño, Estrella distante, Anagrama, Barcelona, 1996, p. 11. (Lo entre cochetes en las citas, salvo indicación en contrario, me pertenece).
[10] En el sentido que le doy a la función secretario del alienado. Cfr. Raúl Vidal, “Sobre un guiño de Jacques Lacan”, Litoral Nº 25/26: La función secretario, Edelp, Córdoba, Mayo de 1998; El analista, secretario en la locura: un artesano del escrito, inédito, septiembre de 1998; Sancho lee una carta, inédito, noviembre de 1998; “Cervantes en la locura ¾Elogio de la diferencia¾”, Los que cuentan (revista de literatura) Nº 5: Arte y Locura, Córdoba, septiembre de 1999; “El Psicote de la Mancha ¾Cómo hacerse secretario en la locura¾”, El Hispanismo al final del milenio, Vol. I, Asociación Argentina de Hispanistas, Editorial Comunicarte, Córdoba, 1999, pp. 591-605.
[11] Roberto Bolaño, Estrella distante, op. cit., p. 15.
[12] Ibíd., p. 26.
[13] Ibíd., p. 27.
[14] Ibíd., p. 21.
[15] Ibíd., p. 30. Subraya el autor de la cita.
[16] Jack Fuchs, “Diálogo con Liliana Isod”, Tiempo de recordar, Editorial Milá, Buenos Aires, 1995, p. 12.
[17] Roberto Bolaño, Estrella distante, op. cit., p. 35.
[18] En Córdoba, el principal centro de detención durante la Dictadura Militar (1976-1983) se llamaba La Perla. La Peña - La Perla: lo mineral, lo inanimado, lo frío de estos nombres establecen un curioso parentesco en el horror.
[19] Roberto Bolaño, Estrella distante, op. cit., pp. 35 y 36. Los subrayados en las citas, salvo indicación en contrario, me pertenecen.
[20] Ibíd., pp. 36 y 37.
[21] Ibíd., p. 40.
[22] Ibíd., p. 41.
[23] Ibíd., p. 45.
[24] Ibíd., p. 42.
[25] Ibíd., p. 43.
[26] Ibíd., p. 66.
[27] Ibíd., pp. 82 y 83.
[28] Ibíd, p. 87.
[29] Ibíd, p. 90.
[30] Ibíd, p. 91.
[31] Roberto Bolaño, La literatura nazi en América, op. cit., p. 188.
[32] Roberto Bolaño, Estrella distante, op. cit., p. 97.
[33] Cfr. Ibíd., p. 11.
[34] Ibid., p. 121.
[35] Ibidem.
[36] Ibíd., pp. 130 y 131.
[37] Ibíd., p. 133.
[38] Jack Fuchs, Tiempo de recordar, op. cit., pp. 39 y 49.
[39] Roberto Bolaño, Estrella distante, op. cit., p. 138.

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Tia Quinquinha

Um conto, para ganhar mais um ponto. Uma outra historia a ser contada.



Tia Quinquinha

Podíamos voltar lá mais de mil vezes que minha mãe repetia a mesma coisa. Ela sempre fazia aquele relato enfadonho e, como se fosse um guia turístico, descrevia aquela cidadezinha pequena, silenciosa e quase acabada.
Nós entravamos pela ponte, vindos da fazenda, e isso era motivo para que ela começasse a sua descrição turística:
- É claro que essa ponte não existia quando eu morava aqui. Tínhamos que atravessar a cavalo e só no verão, porque no inverno o rio enchia demais. Nos meses de verão a água em algumas partes dava no casco do petiço. No inverno eu não sei como eles faziam, nessa época eu voltava para o internato....
Eu já cansada de saber, virava os olhos para a paisagem na tentativa de me acalmar, sabia o que viria depois e me sentia um pouco aliviada porque ao menos não ouviria as repetidas histórias do internato no qual ela tinha vivido grande parte de sua mocidade. Ainda não sei dizer por que as histórias dos nossos velhos nos cansam tanto.
No carro estávamos eu, minha mãe e meu marido. Este desenvolveu uma técnica especial de filtragem auditiva. Esta técnica filtra os tons de voz femininos e monocórdios e dá a ele aquele olhar vidrado de quem olha, mas não vê. Apenas eu escutava sua voz, os ouvidos femininos não possuem essa espécie de acessório.
Talvez tenha sido essa a razão que o impedia de escutar o caso apaixonado que eu vivia com meu colega de oficina literária. Um argentino, barbudo que escrevia contos divinamente e usava um cabelo longo, mal preso por uma borrachinha, dando-lhe um constante aspecto de quem acabara de fazer amor.
Uma semana antes, meu mante argentino me revelou sua intenção de abandonar o trabalho, a cidade e ate o país. “Madrid, ele me disse, Paris é coisa de escritor americano, ou de Guiraldes. Sou mais Almodóvar” Ainda impactada por essa noticia, eu tentava sobrepor ao barulho da fala de minha mãe o barulho de minhas perguntas de como e por que. Sem êxito, continuava sem respostas.
Conforme íamos entrando na cidadezinha o marasmo da sesta me invadia. Eis uma coisa que jamais irá deixar de me surpreender: a sesta. Chegar nessas cidadezinhas e ver tudo fechado me faz imaginar que deveria haver uma placa no pórtico de entrada dizendo: “Já volto” ou “Reabre às 14hs”. Hora que oficialmente no mundo todo, deve acabar a sesta.
Ainda me intrigo em verificar como pode, em algum lugar desse mundo, alguém ignorar a rapidez da troca de informação, a internete, o celular e dormir após o almoço. Lojas que se fecham, janelas entre abertas, até os cachorros sem latir, transformam aquela cidadezinha em um espaço no tempo que se recusa a evoluir. Enfiada nesse pensamento crítico escuto a voz de minha mãe fazendo trilha sonora a esses fantasmas e a minha angústia.
Ela continuava contando sua história como se fosse a primeira vez.
- Nós moramos aqui depois da enchente que levou a casa Cor de Rosa, naquela época eu já estava no colégio interna, só vinha nas férias. Meus pais ficaram até a morte do meu irmão caçula. Este aqui é o colégio das freiras, meus irmãos estudaram aqui. Viste? Olha lá, está igualzinho, nada mudou.....
Mostrava de novo, apontando para ele, olhando para mim e esperando resposta. Embora já o tenha visto muitas vezes, por delicadeza sou obrigada a concordar. Ela se sente escutada e continua:
- Logo ali, nos fundos do colégio ficava a casa da nossa avó.....
Eu voltava a bocejar diante das portas e janelas entreabertas e da calmaria da cidade. Ela continuava entusiasmada como se estivesse verdadeiramente percorrendo as ruas da sua história.
- Ali, estás vendo, do lado daquele ginásio que não existia, na casa aonde agora é aquela coisa da prefeitura...
Interrompi, sem paciência, para de novo lembra-la que aquela coisa da prefeitura era a secretária de saúde.
- Pois é, está certo. Onde é a secretária de saúde, era a nossa casa. Vistes como era boa? Era bem nova, uma das melhores da cidade....
E, sem pausa para respirar e sem que eu conseguisse dizer que já sabia daquilo tudo, me contava novamente sobre o salso chorão na frente da casa que foi cortado para não trazer má sorte e que mesmo assim acabou sendo um dos períodos mais tristes da vida da família.
Na quadra seguinte, antes de acabar nosso trajeto até o armazém, passamos por outra e por outra parte da história.
-Aqui era a casa da Tia Quinquinha. Ela diz apontando para uma construção que parece ter sido azulada, pequena, com um arco na fachada. A cada vez que ela repetia isso a casa me parecia moderna demais para a época em que foi construída, assim como aquele relato sobre a tal tia.
Lembro-me do que elas, minha mãe e minha avó, me contaram inúmeras vezes. Pensei o quanto é curiosa àquela história e o quanto ela sempre me intrigou. Alguém precisava desvendá-la, conclui. Minha mãe continuava ciceroneando os outros ocupantes do carro e eu viajei nos pensamentos.
Tia Quinquinha não era nossa tia de verdade, era irmã da Tia Helena, esposa do tio de minha mãe, dono do armazém.
Morte horrível da Tia Helena que nos foi contada desde que eu era muito pequena. No parto do seu terceiro filho o útero lhe foi arrancado junto com a placenta, por uma parteira incompetente. O viúvo, nunca mais se casou e demorou muito para conhecer o filho.
Nessa parte do relato eu sempre imagino Tia Helena que deveria ser uma moça de no máximo 20 anos, na cama inundada de sangue e uma mulher velha, de avental branco, com seu útero na mão, cena daqueles quadros antigos reproduzindo os primeiros médicos.
Mesmo sem ter vivido esse momento, posso descrevê-lo como se o tivesse visto, ou como um filme muitas vezes repetido.
Eu já conheci Tia Quinquinha muito velha, morando de agregada na casa da sobrinha que ela criou. Era uma velha magrinha, enrugada, sempre vestida como uma freirinha pobre. Seus cabelos eram brancos e mal cortados e tinha sempre um ar cansado de cuidar os filhos ranhentos da tal sobrinha.
Eu nunca pude imaginá-la protagonista desse romance, pareciam duas pessoas diferentes.
Minha mãe me contava, com a confirmação da minha avó, a trágica história de amor da qual a coitada da Tia tinha sido vítima. Eu sempre percebi nas duas uma intenção pedagógica no relato.
Assim, esperava a hora que iria aparecer a legenda onde nitidamente se poderia ler a “moral da história”: “Isto é o que acontece às moças que ingenuamente acreditam nos homens e se entregam a eles sem pudor”, ela não aparecia.
Seu final e sua moral sempre ficaram implícitos no olhar acusador e proibitivo das duas professoras de educação sexual para jovens como eu.
Minha mãe e minha avó são mulheres curiosas, apesar de terem sido maliciosas, moralistas e repressoras a vida toda, em algumas situações e com algumas pessoas tornavam-se condescendentes e compreensivas.
Eram assim com a homossexualidade da Tia Joaninha, guarda carcereira do presídio feminino em Porto Alegre, com as taras do Tio Antoninho, pedófilo conhecido e com a história da Tia em questão.
Falavam dessa com pena e criticavam sua ingenuidade, sem nunca se referirem àquilo que a havia colocado nessa situação, seu desejo.
Eitor era o nome do vilão. Jornalista, educado e bonito, ganhava a vida como telegrafista. Foi transferido para aquela cidade que na época em que ela era uma estação de trem muito importante.
Devia ser moda apaixonarem-se por homens letrados e poetas ou as mulheres de minha família possuíam uma queda por eles. Outra tia avó também sucumbiu na mão de um professor e poeta com quem viveu dividindo-o com um número incalculável de mulheres. Depois percebi, com uma ponta de culpa, o quanto fui muito avisada por minha avó que se casou com um tropeiro, para ter cuidado com essa classe de homens.
Na chegada de Eitor à cidade Tia Quinquinha teria uns 14 anos, e pouco me falaram dela, o que me faz crer que o importante era me contar o fato e não a sua história. Segundo contam seus pais não queriam o namoro. Ele era um pouco mais velho que ela e não sabiam sua origem. Embora culto e estudado, não possuía um vintém ou um cavalo. Teria vindo de alguma cidade da fronteira norte e não parecia boa gente, segundo os pais dela.
Tia Quinquinha magrela e pouco mais que uma criança teimou e encontrou-se escondida com o amado pelas ruas daquela cidade adormecida. Lembro da velha que pouco conheço e o que imagino dela não combina com a jovem apaixonada que minha fantasia reproduz.
Aquela velha ranzinza que brigava com as crianças não teria tido uma paixão arrebatada e nem poderia ter vivido um romance de filme antigo, não combinava com ela. Cheguei a suspeitar da veracidade da história e a pensar que não passava de uma ameaça de minha mãe na tentativa de reprimir meus sonhos adolescentes.
Conta minha mãe que a Tia Quinquinha fugiu com o tal jornalista na noite em que ele recebeu a notícia de sua transferência. Ela com 16 anos e ele com mais de 20, não se sabe quanto. Entretanto, ao contrário do que se pode chamar de final feliz, ele teria passado uma noite com ela em Pelotas e no outro dia a devolvido para a casa dos pais. Dessa noite sobrou a gravidez do menino Elton e agora a minha curiosidade.
Na verdade eu nunca entendi porque Eitor, o amante, teria devolvido, segundo as palavras das mulheres, Tia Quinquinha para a casa dos pais no outro dia da fuga. Algo na história não tem sentido e não me convence. Que espécie de homem rapta uma adolescente, fica uma noite com ela e a devolve grávida no dia seguinte?
Elton morreu de sarampo aos dois anos e o pai, Eitor, que aparentemente recusou a paternidade, compareceu ao enterro, embora não se tenha notícias de que tenha sido avisado.
Muitos furos nessa história, eu penso. Nesse momento da turnê, já estamos na porta do armazém, pergunto à minha mãe que repete o que sabe, sem questionar ou mudar uma vírgula. “ assim, ele só queria sua virgindade”, ela diz sem qualquer dúvida.
Tia Quinquinha morava em uma casa para idosos. Tinha 94 anos e carregava consigo o segredo daquela noite.
Ela ainda guardava a resposta da pergunta que me fiz desde a primeira vez que escutei sua historia e não convencida com os argumentos da mãe. Decidi procurá-la.
Ao contrário do que esperava a casa não era pobre ou suja, não fedia a velhos ou a mijo morno.
Na entrada, atrás de um grande portão encontrei um jardim ensolarado, bem cuidado, bancos e rosas.
Ao sol uma senhora gorda que fazia crochê sorriu docemente para mim como se tivesse visto a neta, me senti acolhida.
Entrei na sala principal e fiquei surpresa com o aspecto de sala de estar. Várias outras senhoras faziam trabalhos com as mãos e conversavam como se estivessem se visitando. Todas pararam e me olharam, eu iria virar atração da tarde.
Alguma coisa naquela casa, apesar da tentativa de se parecer com o lar de alguém, estava fora do lugar, só muitos dias depois percebi que era a quantidade excessiva de conjuntos de sofás e conjuntos de jantar de estilos completamente diferentes um do outro, deixando nítidas as diferenças que ali se juntavam.
Eram partes de histórias, pedaços de passados que alguém não conseguiu se desfazer e iam formando uma espécie de sala de retalhos, todos arrumados e distribuídos na tentativa de fazer deles um arranjo e daquilo um lar.
Quando uma mulher mais jovem me abordou percebi que eu não sabia o verdadeiro nome da tia e fiquei desconcertada sem saber por quem perguntar. Acabamos nos entendendo.
Entrei em um quarto pequeno que Tia Quinquinha dividia com outra mulher tão idosa quanto ela. Ela de costas para a porta, tentava dobrar umas roupas e falava baixo alguns insultos que deviam ser para suas mãos que não obedeciam a suas ordens.
Após uma introdução desajeitada pergunto-lhe sobre o acontecido que ela denomina de: “a noite que deitei com Eitor”
Apesar do medo que eu estava de magoá-la seu rosto se modifica, os olhos brilharam e então eu vejo neles um azul que eu nunca tinha percebido antes.
Ela começou a falar.
“Eitor era moreno, miúdo, tinha um cabelo crescido, óculos de aro de ouro, era míope, não tinha nada de muito belo, não sei o que vi nele. Não era muito forte, nada igual artista de novela de hoje, meio tísico, usava um cavanhaque que lhe fazia parecer mais velho. Esbarrei nele na saída da estação e achei que ele não tinha me visto. Ele sorriu para mim e disse “opaa”, mas não me viu, tenho certeza. Anos depois entendi que no sorriso de menino perdido, ele carregava a tristeza pela morte precoce da mãe que o tinha deixado, assim, meio desgarrado. Fiquei encantada e passei a vê-lo em todos os lugares que ia. Era uma cidade pequena, não era difícil nos encontrarmos. Um dia ele me notou e passou então a me controlar e me esperar nas esquinas. Encontrávamos-nos atrás da estação, depois da missa de domingo e assim todos os dias na hora da sesta, mamãe dormia e esquecia o mundo. Fazia dois anos que namorávamos escondido quando chegou a transferência dele. Eu sabia que a mamãe não aprovaria nosso namoro, vivia falando do guri dos Rodriguez, que era moço trabalhador, tinha fazenda, gado, cavalos, um gordo nojento. Eitor vivia com livros, escrevia poemas, dizia que quando conseguisse transferência para Porto Alegre iria trabalhar em jornal. Eu, muito boba, ficava encantada, e ele se ria do meu encantamento, mas gostava, ficava vaidoso. Quando ele soube que a transferência estava por vir me perguntou se eu iria com ele. Na ocasião a Helena recém havia morrido, aquela tragédia toda, tua mãe deve ter te contado. As crianças pequenas, meus pais chorando pelos cantos, todo mundo muito acabrunhado. Não deixei Eitor falar com meus pais, mas prometi fugir com ele para Porto Alegre. Naquela tardinha ele me esperou na estação, o último trem passava às 6hs, era inverno, um dia cinza e tinha um chuvisco fino, mais de frio do que de chuva mesmo, o mundo parecia que estava parando. Eu não entendia direito porque meu peito ia se apertando, eu tinha sonhado com tudo aquilo. Minha mão estava gelada quando ele me segurou para subir no vagão, não consegui lhe explicar. No caminho até Pelotas pouco falei, as árvores iam correndo na janela e eu tonteando de medo, nunca tinha me afastando tanto de casa. Avistei as luzes da cidade através do vidro molhado. Eu tinha decidido, pois bem, não iria decepcioná-lo, iria até o fim, me tornaria sua mulher, mas voltaria para casa no primeiro trem da manhã. No dia seguinte, ele ainda dormia quando fugi, se eu tivesse lhe dito que era essa minha intenção, ele jamais aceitaria. Boba, eu pensava na mamãe, e nas crianças tão pequenas, não podia abandoná-los nessa hora tão triste. Além do que, jamais saberia viver em um lugar com tantas luzes. Eu só não poderia imaginar que sairia dali prenha. No mais, a noite valeu minha vida.”
E, Tia Quinquinha arremata: “Guria, até poucos anos ainda lembrava do cheiro dele” e ergue o rosto em uma sonora gargalhada como se tivesse deitado com Eitor na noite anterior.
Deixei-a para trás, comendo avidamente os doces que lhe levei, e com a sensação de ter desvelado o terceiro milagre de Fátima.
O que minha mãe diria sobre os homens agora?
E eu, na verdade eu teria coragem de morar em Madrid?.