quarta-feira, 7 de dezembro de 2011


    Puft, o ano passou.


Nas noites de réveillon minha avó me levava para a janela e dizia que se eu ficasse ali olhando o céu poderia ver o ano velho partindo e o ano novo chegando.


     Eu passava a virada do ano com os olhos grudados no céu, esperando.


    Hoje posso dizer que aquilo que vi, além de estrelas, foi vários anos novos passando como aviões a jato.


 Agora eu sou a avó.


 No entanto, mesmo assim, ultimamente me descobri grávida, grávida de felicidade.  Fui inflando como um balão de gás e precisei me segurar para não voar junto com os anos.


   Na minha barriga gigante foi entrando coisas que me recuso a parir.


  Aqui estão todas as gargalhadas gostosas, o aconchego dos abraços pequeninhos, o conforto dos abraços fortes, os beijos ternos e os beijos “calientes”, os dias de muito sol no refugio da Barra, as noites aquecidas pelas lareiras do Cerrito, a presença dos amigos, a celebração dos filhos que se multiplicam.


    Para o ano que vem desejo muito que nada na minha vida mude, quero a certeza de que tudo vai ficar igualzinho. Não me venham com vida nova, com esperança e com dias melhores, quero a garantia de que vou continuar assim: grávida de felicidade.


   Para vocês, meus amigos, desejo que engravidem daquilo que quiserem.


    Feliz 2012 e Feliz Natal


Maria Cristina ou Merry Christmas 

terça-feira, 8 de novembro de 2011

    Ei Vc ai....do outro lado do rádio, uma carta
                  Na verdade acho um crime imaginar que não lês o que escrevo. É no minimo maldade saber que as cartas que te envio ficam sem destino. Fico imaginando um limbo no universo, uma espécie de cratéra de sentimentos perdida na existência e nela um amontoado de letras, mais que isso um amontoado de bons fluidos. Engraçado eu falando em bons fluidos, mas lá, na parte iracional de mim, eu acredito que quando a gente ama alguém e pensa muito nela a gente se conecta a essa pessoa e além de ser capaz de sentir o que ela sente, é capaz de chamá-la. Eu te chamo muiiiito.
Mesmo assim, tu não lês o que escrevo e é tudo tão lindo. Adoro escrever-te. Hoje eu queria dizer que estou fazendo um puta esforço, estou tendo exito, ninguém percebe a camada grossa que espalhei em toda a minha pele.                  Depois de cada encontro fico gravida. Não és tu que me engravidas, eu quem fico gravida de ti. Não é um outro que cresce no meu ventre, és tu que toma conta do meu corpo. A minha ânsia de te abraçar me amolece o corpo, fico frouxa e solta, em em movimentos intensos tu vais entrando, entrando e te misturando a cada molécula de meu corpo, ocupando cada buraco de mim. Vou ficando cheia, tão cheia que se não me fecho escorregas pelas minhas pernas. Dali saio gravida, redonda, leve e flutuante como um balão de gás. Com firmeza me agarro a todos os braços que vivem comigo, na expectativa de que eles me sirvam de âncora e evitem que eu voe até a lua redonda brilhante como a do céu de hoje. Os dias vão passando e com muito esforço vou me desfazendo de ti, antes impreganado no meu corpo. Devagar, silenciosamente como um sussurro, no escuro para que ninguém descubra que secretamente te guardava em mim. E sem que possa controlar, o tempo passando, pelos poros tu vais saindo, até que um dia, voltas a ser outro, estranho, irreconhecivel, fora do meu corpo, diferente de mim. Eu queria uma vez, só uma vez, estar contigo novamente sem tanta distancia e ausencia. Assim, talvez, eu acabaria com a curiosidade de entender o que poderia acontecer se eu ainda estando gravida tu voltaste a entrar em mim.
                    um beijo

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Vinicius


"...E assim quando mais tarde me procure,
quem sabe a morte, fim de quem vive,
quem sabe a solidão, fim de quem ama,
eu possa me dizer do amor que tive:
Que não seja imortal, posto que é chama,
mas que seja infinito enquanto dure"
Esse foi o único poema que fui capaz de decorar na vida. No entanto, o poeta não me avisou que as chamas viram brasas e voltam a acender com um simples sopro.
O mundo separa aquilo que não pode estar perto. Diferenças enormes criam uma distância aonde tudo é absolutamente muito próximo.
As semelhanças desconhecem tais diferenças, tudo parece muito igual e muito intimo. Nada de um é incompreensivel para o outro, nada é sentido em descompasso com o outro.
No mesmo momento, a mesma vontade, a sensação de que um chama o outro, a presença constante.. Tudo isso deve ser esquecido, uma realidade virada em abismo transforma em diferenças intransponíveis aquilo que no seu âmago é absolutamente idêntico.
Saído do sonho da infância e tornado vivo, mas tarde demais.
A distancia, o tempo e a vida parecendo fácil e feliz esconde no canto do sonho a esperança de um dia voltar.
Um segredo aguardando para ser revelado. Se o tempo passa pode ficar tarde demais, mas a certeza de que o curso de um rio não pode ser interrompido faz esperar. Não se tem noticias de nada. O passado distante vira ontem e o nunca mais, amanhã. Estar junto novamente é ter estado sempre assim, a mesma intimidade e semelhança. Dizer que está acabado faz perguntar pelo objeto e faz lembrar do passado que ainda está ai.

sexta-feira, 26 de agosto de 2011


Dedicatória

(Florbela Espanca, livro Trocando Olhares, 1917)

É só teu o meu livro; guarda-o bem;
Nele floresce o nosso casto amor
Nascido nesse dia em que o destino
Uniu o teu olhar à minha dor!

quarta-feira, 3 de agosto de 2011




Minha amiga morreu.
Recebi a noticia de uma forma inusitada, mas sem duvida nenhuma muito moderna. Um torpedo foi seu anuncio fúnebre. Não poderia ter sido diferente.
O nome dela é/era Christina, eu Cristina, eu sempre pensei que isso poderia significar que eramos iguais. Chirissssstina, brincavam.
Um redemoinho na franja negra que a deixava com um topete de menino levado, os dentes da frente um tanto tortinhos e olhos vibrantes, me receberam no meu primeiro dia de aula no ginásio.
Mais uma das inúmeras vezes em minha vida eu estava assustada. Minha mãe havia decidido que nessa escola eu faria o ginásio. Apesar de ter sido classificada em uma escola municipal, para onde iriam alguns dos meus conhecidos do grupo escolar, ela decidiu por mim. Incomodada novamente pela impossibilidade de decidir sobre meu caminho, morta de medo dos desconhecidos, entrei na 1 série B do Colégio Estadual D. João Braga. Christina me recebeu e me conduziu adivinhando meu constrangimento e dificuldade. Falava sem parar, as vezes impedindo que eu escutasse os professores. Não me lembro sobre o que falava, mas agora me parecem instruções de um manual da vida que me ajudariam a me conduzir no universo complicado da adolescencia que se iniciava.
Posso vê-la falando e me explicando tudo. Ela decidiu sentar ao meu lado, me mostrou como comprar merenda no bar e coisas sobre os colegas que parecia conhecer desde sempre. Tinha desenvoltura e segurança. Eu a admirava, depois a invejava. Ela parecia ser anos mais velha que eu. Christina fumava e levava cigarros escondidos no estojo, tinha coragem de roubá-los de sua mãe. No banheiro me ensinou de maneira professoral como sempre, a fumar.
Agora percebo como essa foi apenas uma das primeiras coisas que me ensinou. Os batons, os sutiãs e como era gordinha como eu, ou nos achávamos, ela usava cinta-liga para apertar a bunda e a barriga, que inveja da coragem de ser mulher.
Ela morava longe do centro da cidade, um lugar difícil de chegar, eu não podia estar em sua casa tanto quanto queria.
Christina se apaixonou primeiro, vivia apaixonada por uns tipos estranhos (ate conhecer o Leonardo), namorou antes e transou antes. Fez todos os meus desenhos de geometria analítica permitindo que eu fosse aprovada. Ela bordava, desenhava, fazia tricot e era capaz de ter cadernos impecavelmente sublinhados de varias cores. Durante quase toda minha adolescência foi um ideal que tentei atingir. Tenho certeza que ela nunca soube disso, não tive tempo para lhe dizer.
Afastamo-nos na faculdade quando pela primeira vez fizemos escolhas diferentes e nos aproximamos rapidamente nos casamentos apressados pelas nossas primeiras gravidezes. Outra vez a casa linda e sua organizacao foi mais um motivo da minha admiração, umas das ultimas vezes que estivemos juntas antes de nos mudarmos de cidade.
Há alguns anos a revi, não era mais a adolescente gordinha, mas ainda falava muito. Eu percebi que alguma coisa complicada passava por sua cabeça, mas nossa relação não permitia desabafos, eu também passando por um momento ruim só pensei nisso depois.
Envelhecer é difícil. A vida nos impõe perdas. Apenas quem morre não passa pela dureza das perdas. Não poderei mais dizer para minha amiga o quanto ela me ensinou e o quanto me ajudou a viver. Perdi o “time”, naquela hora eu não poderia, porque a vida é assim, no apré-coup, só sabemos que perdemos o tempo depois que ele passou. Não podemos dizer o que ainda não sabemos.
Eu ainda não sei porque morreu minha amiga.

sábado, 9 de julho de 2011

Leia-me Toda (Claudia Schoroeder)

Meu amor


Meu amor escreve
descreve
diz o que nao deve


Meu amor foge
meu amor chora
meu amor aparece todo dia
a toda hora


Meu amor sente
mente


fica doente
Meu amor é impuro e permanente



domingo, 10 de abril de 2011

Resposta a Raul Vidal

Prezado Raul, Sinto-me em divida, pois certamente ja deveria ter produzido alguma resposta aos textos que, tão gentilmente, me enviaste. O ano foi muito intenso. Colocou-me em uma posição nova na vida e em uma nova ordem geracional que ate agora não encontrei palavras para melhor definir, me restou apenas ficar em estado hipnótico de apaixonamento, tornei-me avó, abuelita, dirias. Seus textos foram escolhidos, junto com outras leituras que me cobravam para serem lidas nesse momento de trégua na praia. Comecei por “Contar el desaparecido” Talvez a proximidade fisica com o espanhol e por estar quase dentro do Uruguai eles façam tanto sentido para mim. Eu já havia lido esse artigo. Apesar da proximidade que temos com a cultura espanhola, nós temos pouco acesso a produção literário dos outros países latino-americanos. Há algumas semanas falava a um amigo bahiano que o Rio Grande do Sul é muito mais espanhol que português e que os tratados que nos levaram para os portugueses não pagaram a cultura. No entanto, existem as fronteiras e não conheço as obras que citas no artigo, excluindo Borges, Lacan e Primo Levi. Faz alguns anos que tenho feito um percurso pela literatura, faço parte de uma oficina de criação literária e isso melhorou minha leitura e escrita. Trouxe na minha bagagem de férias o livro de Primo Levi, A trégua, sem nenhuma razão consciente além da curiosidade pela obra. Muitas pessoas argumentariam que é um texto pesado para ser lido ao sol. Sem a intenção de minimizar o sofrimento que pode ser intuído do livro, a dramatização do relato, como colocas, a literalidade com que ele relata exatamente a sua condição de sobrevivente, torna o discurso possível de ser escutado e não um drama insuportável mente triste. Claro que tenho que considerar minha escuta especializada em sofrimento e minha curiosidade pelos relatos dos outros. Foi exatamente a condição de sobrevivente que me interessou no livro. Pouco ou nada eu havia pensado sobre isso ate então: A guerra acabando e os sobreviventes dos campos ainda não haviam sobrevivido a tragédia. Andavam sem pátria, sem casa, eu diria sem pai. Eu poderia agregar ao seu texto a minha experiência clinica. Influenciada, penso agora, pela escritura e pela literatura, tenho estimulado meus pacientes a relatarem mais e mais as experiências vividas como trauma, por exemplo: A violência urbana que vivemos faz com que a cada dia alguém chegue ao meu consultório saído de uma experiência assustadora de um assalto com armas e seqüestros. A tendência do senso comum tem sido banalizar o ocorrido e o assaltado se sente constrangido de fazer um relato minucioso do vivido. Tenho estimulado o relato, em analise e fora dela, oriento meus analisantes a falarem do ocorrido sempre que se sentirem com vontade de fazer isso. Trocas de experiências do tipo, “meu assaltante era assim e o seu?” Essa foi uma mudança na minha clinica e outra foi a escritura propriamente. Claro que não por acaso Tenho pacientes que escrevem, alguns são profissionais, outros passaram a me escrever. Eu não costumo ler, enquanto o sujeito esta em analise, mas estimulo a escrita. Embora alguns escritores recusem a idéia de que toda criação artística há um testemunho do autor, eu não tenho nenhuma duvida de que o autor esta colocado em tudo que realiza. E por ultimo seu artigo me recordou o livro de Marguerite Duras, A Dor, aonde ela narra a angustia de esperar o marido que estava em um campo de concentração. Li esse livro há alguns anos e jamais esqueci o sentimento de espera que ela reproduz brilhantemente. O rosto do desaparecido e esperado sendo construído insistentemente na memória sem que possamos vê-lo, a dimensão do tempo nessa espera. Todo e qualquer mulher fala dessa angustia na clinica. E, isso me faz pensar o quanto tem isso de feminino, a espera, a angustia da espera, pelo filho, pelo homem que não telefona, que não retorna da guerra, do trabalho, da boemia, quem sabe? Agora, depois de ter escrito tudo, espero que possas ler o meu português e acompanhar minhas idéias. Vou seguir te lendo, acompanhando tuas idéias. Abraços Maria Cristina Sole. Barra do Chuí.

Serei uma Ilda Dalser?

Freud aproximou o feminino do masoquismo, foi condenado pelas feministas por isso. Estava errado, estava certo, a forma de amar da mulher pode ser masoquista. Na verdade, ele entendia a passividade das mulheres como masoquismo. No entanto, Lacan depois distinguiu a feminilidade da histeria. A mulher em uma posição feminina e que aceita essa condição concorda em ocupar o lugar de objeto na fantasia masculina sem se sentir ameaçada por isso. Ela estará apenas retornando a posição de objeto de amor que um dia foi para um Outro, sua mãe. Essa experiência primordial de ter sido tomada como objeto de desejo e de gozo na fantasia materna. A essa entrega passiva Freud chamou de posição masoquista. Trocando em miúdos é a capacidade de amar sem demandar mais que amor, de não se sentir envergonhada, nem ameaçada por isso. As mulheres mais afetadas pela histeria, que não conseguiram supor nada de fálico no seu pai e que a relação com sua mãe foi muito problemática, não suportam essa posição de objeto na fantasia de um homem, não suporta nem seu próprio gozo, muito menos o de um homem. Elas irão competir a posição com seu parceiro e elas, sim, usarão a dependência deles para aquilo que os homens tanto temem: “colocar o cabresto”. Os homens dificilmente são capazes de diferenciar uma da outra, ate porque a histérica cria, naqueles mais neuróticos, a ilusão de estar conquistado um troféu, elas fazem semblante de uma entrega. O homem que se apaixona por essas mulheres deve mesmo temer ser destruído, pois elas usam o amor para transformá-los em tão castrados quanto elas, vingança. A mulher em uma posição feminina enaltece os valores do homem que ama. Ao final fiquei me perguntando serei uma Ilda? Eu ficaria louca? E qual minha diferença dela, afinal? “Com vc fico louca de vez Um pouco eu já era, outro pouco vc me fez” Eu jamais me apaixonaria por Mussolini. Por Fidel, sim. A amante de Fidel suportou a clandestinidade, mas a clandestinidade do amor, da relação e não dela, ela ocupou papel importante na revolução. Algumas mulheres foram, e são capazes de suportar a clandestinidade de uma relação amorosa, mas não são capazes de suportar a instabilidade do amor. Quero dizer que ninguém suporta alguém que é uma onda: vai e volta, ama e não ama mais, quer e não quer mais, isso é veadagem. A clandestinidade pode ser romântica, estável, parceira e gratificante. Duas pessoas não precisam mais do que quatro paredes para serem felizes, ao menos que o mais importante seja o que precisam exibir aos outros, tipo uma garota gostosa, um guri sarado, ou um talão de cheque ambulante, quem sabe uma posição. O que deixou a Ilda louca foi a mentira. Ela, assim como Antígona, defendia uma verdade: O seu filho era filho do Duce, ele tinha lhe feito promessas. Não há eternidade nos casos de amor? Às vezes eu até acho que sim. Por fim a resposta: sou Ilda Dalser sim. Sou louca. Capaz de guerrear até a loucura pelos meus amores, e como ela eu incluo os filhos. Sou perigosa, invasiva, ciumenta e gulosa. Já estamos em guerra?

Culto ao narcisismo

Faz tempos que me prometo escrever alguma coisa sobre o artigo da Rudinesco onde ela faz uma teorização das mudanças na cultura e a influencia do capitalismo americano nessas mudanças. Não sei bem se concordo com isso, se entendo que efetivamente é o capitalismo selvagem o responsável pela cultura narcísica que vivemos. Acho que para isso precisaríamos pensar que o capitalismo americano dirige o desejo das mães que criam filhos que não se desvinculam de uma imagem narcísica de si. Seguindo essa linha de raciocínio talvez possamos dizer que sim o capitalismo americano selvagem é responsável pelas mudanças na cultura, transformando-a em um culto ao narcisismo. Essas mães e pais que foram forcados a renunciar a onipotência narcísica acham que essa perda é injusta. Eles prometem a seus filhos uma vida sem castrações. Nesse sentido sim o que penso se aproxima da Roudinesco, pois, essas crianças seriam criados em um culto onde o mito de narciso ira substituir o mito de Édipo. Rudinesco diz que uma sociedade regida pelo mito de Narciso, seria uma sociedade idealizada, que nela não há interdição, nela os seus sujeitos estariam fascinados pelo poder ilimitado de seu eu. Isso é demonstrado no dia a dia, nos carros que atropelam ciclistas, nas Brunas surfistinhas que acreditam e fazem outras acreditarem que se oferecer ao desejo ilimitado dos outros não traz conseqüências, não se perde nada. Onde as drogas são usadas na compulsão de não deixar a solidão aparecer e o sofrimento é tido como algo injusto e não merecido. De outra maneira, quando abandonamos o mito edípico como a base da nossa cultura, estamos abandonando uma sociedade onde o poder patriarcal, mesmo sendo ultrapassado pelo filho, está presente para ser superado. O pai edípico morre para que os filhos sobrevivam, cresçam e se tornem eles mesmos pais. A referencia para o crescimento é o pai, a criança crescerá reconhecendo outro que possui um saber a ser superado e que ela própria não é o topo desse saber. No mito narcísico ninguém pode perder e quando perde ninguém pode herdar. Esse é o caso de algumas mulheres que se recusam a envelhecer ao ponto de parecerem irmãs das filhas, coisa que lhes causa um orgulho visível. Homens que buscam mulheres jovens supondo manter a virilidade. Os pais não renunciam a sua posição e impedem os filhos de seguirem a corrente simbólica se tornado eles próprios pais. É dessa obsessão por si mesmo que surgem as violências contra os diferentes (gays, raciais, etc..) o outro que nos mostra nossa diferencia precisa ser destruído e como possuo um poder ilimitado nada pode me constranger. A violência urbana sem medida que muitas vezes atribuímos a miséria é, além disso, originada pela impossibilidade do sujeito aceitar que outro tenha acesso aquilo que ele jamais terá. Não estou enquadrando nessa violência o massacre na escola carioca. Esse episódio, embora muito mais violento e chocante é um fenômeno privado do delírio de um rapaz doente mental. Sem nenhuma duvida a psicose é a responsável pela sua a ação delirante. Alguns tentaram responsabilizar as crenças religiosas ou a política equivocadamente. O teor religioso que aparece em sua carta é decorrente do delírio psicótico que sempre é envolvido por algo dessa ordem. Esse tipo de doença também é uma impossibilidade do sujeito deparar-se com a castração mas não há uma recusa como na perversão ou na neurose, e sim uma forclusao, isto é, ela não existe para o sujeito. O ato não e uma tentativa de retornar a onipotência narcísica e sim algo que parte dela, da onipotência narcisisca, não há fantasia e sim uma realidade. Na violência urbana não há o reconhecimento de que a diferença social estará sempre presente e de alguma maneira em todos os níveis. Mesmo que todos tenham acesso aos bens de consumo, alguns terão mais acesso aos símbolos fálicos capitalistas e marcaram uma diferença de poder. Se o sujeito não aceitar essa diferença e senti-la como uma injustiça e um ataque ao seu narcisismo vai tentar pela violência obter para si o que o outro possui. Claramente é a falta de uma ação efetiva da metáfora paterna que mantém a cultura nessa necessidade exacerbada de auto-estima. As terapias e a literatura de auto-ajuda proliferam e a psicanálise é quase insuportável. As pessoas não querem saber de sua responsabilidade na sua doença e buscam remédio imediato.

quarta-feira, 6 de abril de 2011

A Pelotas

Um azul infinito emendado ao verde do chao. A terra também é infinita quando amada Plantada cuidada concebida. O vestido chique todo barrado todo barrado de arvores na bainha certa das planicies, fazia da estrada uma verdadeira noiva pra mim, a grinalda de um poema dessa maneira estou no altar, ornada desse amor e desse carinho. Porto Alegre-Pelotas, Sou devota desse caminho (Elisa Lucinda)

quinta-feira, 17 de março de 2011

A peleia

Mais um conto:


A Peleia
Maria Cristina Petrucci Sole
Fevereiro/2011



Oswaldo sabia que tinha muito pouco tempo. Era cada vez mais forte o falatório de que em Porto Alegre e em Pelotas rinhedeiros haviam sido fechados pela policia federal. As brigas de galo de rinha eram agora ilegais.
Aqueles que criavam, os galistas, os donos de rinhedeiros ou os meros apreciadores de galos de briga, a partir dessa data seriam considerados fora da lei.
Oswaldo nunca se imaginou um delinqüente, nunca pensou estar fazendo algo passível de ser preso. Criar galos de rinha era um prazer que tinha herdado de seu pai, assim como outros herdaram gosto pela caca ou pela pesca.
No último domingo havia tentado convocar os parceiros para uma manifestação publica, pensou em uma passeata, uma greve ou algo semelhante.
Alfredo, mais uma vez Alfredo, levantou-se na arena transformada em assembléia e gritou: -“Qual é tua, tche? Queres nos juntar para ficar mais fácil pros porco nos prender? Assim, todos nóis bem juntinhos?”
Os outros caíram na risada deixando Oswaldo muito encabulado.
No jornal de Pelotas apareceu a foto de uma batida da policia federal em um rinhedeiro. Caras que já tinham participado de rinhas com Oswaldo saindo algemados e sendo tratados como marginais. Ele não era capaz de entender.
De qualquer maneira, precisava então se apressar. De forma alguma abandonaria as rinhas sem vingar a morte de seu grande campeão, o “Naranjo”.
Ele não poderia deixar Alfredo saboreando o resto da vida, mais essa vitória.
Alfredo era seu inimigo publico numero 1, mesmo que não fosse tão publico assim, para os outros do Rinhedeiro Calcutá, eram amigos de infância. Oswaldo odiava-o desde sempre, embora as mães fossem amigas da igreja, e os pais corressem retas juntos.
Muitas vezes teve vontade de avançar sobre Alfredo e quebrar todos seus dentes. Aquele sorriso largo e debochado acabaria com um soco certeiro.
A primeira vez que disse em voz alta: “Um dia ainda quebro a cara desse imbecil” a mãe lhe prometeu uma semana sem janta. Depois na escola, em um ataque de fúria e cheio das provocações de Alfredo, tentou, mas ficou um recreio inteiro escrevendo: “Não devo bater no meu amigo”
Oswaldo era mais corpulento que Alfredo, durante toda a vida soube que poderia massacra-lo, embora, por razoes que jamais poderia explicar a oportunidade de mostrar sua superioridade nunca aconteceu.
Alfredo foi o primeiro a ir para a escola montado em um cavalo e não mais em um petiço. Passava a galope rindo-se do trote duro do Socado, o petiço gordo de Oswaldo. Nos bailes de bolanta sempre na frente, convidava a moca mais bonita para dançar. Casou cedo com a Marcinha, a mais bunduda e com a tranca mais dourada.
Alfredo torcia pelo time que sempre chegava as finais e não tinha nenhum pudor em lembrá-lo disso.
Como se não bastasse, presenciou sua primeira queda de um cavalo, e passou o resto da vida lhe perguntando: “quebrou o relógio?”,
Alem disso, agora, depois de adultos, Oswaldo precisava engolir que Alfredo era dono do galo que assassinou seu grande campeão.
Não era uma coisa simples criar um galo bom de briga, precisava de um excelente faro na escolha do animal com apenas 6 meses e muita paciência no treinamento.
As discussões com a esposa perdiam a importância quando Oswaldo se imaginava acabando com o Alfredo, ou melhor, seu galo acabando com o galo do Alfredo.
Helena não suportava sua criação de galos de rinha desenvolvida em um galpão no fundo do pátio. Dizia que eles juntavam ratos e que Oswaldo passava todos os fins de semana limpando as gaiolas e treinando os bichos.
A esposa odiava que tivesse transformado sua casa em um grande galinheiro.
Oswaldo tentava explicar que era um Centro Esportivo de Treinamento de Campeões, mas ela parecia não entender.
Ele usou toda a habilidade que herdou do avo marceneiro para construir as gaiolas de madeira, quadradas com pequenas janelas por onde os galos comiam e bebiam. Deveriam ser distante o suficiente e bem fechada para que os galos não fugissem e não fossem brigar na gaiola dos outros. Eram forradas com serragem que necessitava ser trocada de tanto em tanto para não juntar piolhos e mesmo assim, Oswaldo sempre encontrava alguns. Tinha orgulho de dizer que sua criação contava com 10 galos adultos e já preparados e mais uns dois franguinhos em crescimento.
Todos os sábados ele chegava do trabalho e sentava no banquinho de madeira para preparar os galos. Um a um era massageado nas coxas com cachaça, na mesma direção, de cima para baixo, para a musculatura pegar firmeza. As penas das coxas aparadas bem rentes e estas ficavam vermelhas e firmes. Depois de muitos minutos nessa massagem, atirava-se o guerreiro para o alto mais um numero incansável de vezes, as asas ficavam firmes e ele aprendia a cair já preparado. Depois de treinado o atleta ficava preso pela pata ao amarrador para estar um pouco livre sem o risco de ir brigar com os outros galos.
Galos como o Naranjo precisavam ser treinados e vitaminados. A crista bem aparada e as puas substituídas por puas de aço para fazerem um estrago mortal no adversário.
Depois de massageados os galos eram pesados em balanças de feira, separados segundo o peso e a idade e então, colocados frente a frente no tambor.
Aos domingos, enquanto Helena ia a missa das 10hs, Oswaldo pegava o galo que tinha treinado toda a semana e com ele na sacola de lona, se dirigia para o Rinhedeiro Calcutá. O bicho ia com a cabeça para fora já pronto, como que chamando o adversário.
Todo o esforço era compensado pela manha de domingo.
Encontrava os amigos, comia ovos cozidos com um martelinho ou dois e com isso a coragem para as apostas fluía fácil.
Nas suas rinhas, era orgulhoso do resultado, ganhava muitas lutas e até algumas tacas que depois Helena as exibia na sala de visitas.
Quando acontecia de perder, seja porque o galo, mesmo valente, era derrotado ou porque era um daqueles covardes, que não ia para o careio e se comportava como galo crioulo que foge do outro, rodando em círculos pela arena, ele virava canja. Torcia-lhe o pescoço e preparava-o para a janta.
Helena dormia sem comer. “A carne é dura”, dizia. Verdade, de tanto treino a musculatura ficava ruim para o apetite. Oswaldo comia vingado do bicho covarde que o tinha feito passar vergonha.
Naranjo era um galo inglês puro, diferente, grande, altivo, corajoso, uma penugem amarelo acobreado, daí o nome copiado de um castelhano. Tinha patas longas e fortes, uma ferroada de suas puas era na certa uma garganta estrangulada ou um olho perfurado. Desde frangote era o campeão de varias rinhas e responsável por outros tantos virarem canja.
Todos no Rinhedeiro Calcutá temiam o seu galo Naranjo, até o dia que Alfredo apareceu com um galo velho, meio caolho e todo cheio de cicatrizes. Caolho era um galo ressagado, matreiro, que batia pelo cheiro, tinha um ar fingido que parecia o próprio Alfredo. Ele comprou o galo de um colono de Morro Redondo e apareceu de surpresa naquele domingo chuvoso.
Oswaldo devia ter desconfiado do ar maldoso que Alfredo portava e ter ido para casa pegar Helena para almoçar na sogra, mas ele nunca conseguia sair antes do portão fechar. E depois passou semanas se culpando.
O sino soou e Oswaldo jogou Naranjo no tambor. Era a segunda luta agendada para aquela manha.
Naranjo, se aprumou, soltou um canto de guerra, baixou a o bico na direção do tal Caolho, arrepiou as penas do lombo, levantou as asas e foi valente como sempre fora. Ele estava pronto, bem preparado, fazia alguns domingos que não entrava no tambor, só em casa comendo e treinando. Andou ate o Caolho e o bicou forte na penugem da cara, segurou as penas e bateu com as puas no peito do outro galo. Caolho balançou, foi e voltou. Os dois galos ficaram rodando por alguns minutos, bico com bico, cara a cara, ate parecendo luta de gente, poderia se sentir o ódio de um pelo outro.
Os companheiros sentiram que seria luta boa e corriam da arquibancada ao tambor, apostando primeiro no Naranjo, para depois, aos poucos, irem se dividindo. A diretoria e os mais importantes, sentados nas cadeiras da primeira fila chegavam a levantar e eram vaiados pela galera dos puleiros. Oswaldo foi ficando preocupado e pressentindo que seria difícil para o Naranjo. O galo velho sabia do recado. Alguém sussurrou ao seu ouvido: “Tira o galo Oswaldo. Olha que el diablo és diablo mas por viejo..” ele só escutou depois, se lamentando em casa. No entanto, não faria isso, não perderia para o Alfredo por covardia, mesmo que lhe valesse o Naranjo e valeu.
A principio chegou a pensar que Alfredo poderia ter drogado seu galo, depois pela sangueira, que ele tivesse colocado giletes nas puas do caolho, mas no intervalo enquanto refrescavam os galos, pode verificar que nada disso havia acontecido.
Depois de alguns minutos muito sangue estava espalhado pelo tambor. Quando os galos sacudiam a cabeça tentando se livrar da dor, jogavam o sangue até nos parceiros do puleiro. Naranjo estava quase cego de um olho, mas batia e caia, deixou Caolho na lona duas vezes e mesmo assim o maldito galo velho levantava e com forca acertava o peito de Naranjo com as puas. Foi numa destas, entre gritos dos parceiros, apostas e torcidas que Oswaldo viu o maldito acertar a pua no ouvido do seu galo e dali jorrar um jato fino de sangue. Naranjo rodou, deixou cair a cabeça e depois de algumas voltas caiu durinho.
Na saída, Alfredo gritou: “Oswaldo! Me esqueci de te dizer o nome do meu galo: Ele era chamado de Caolho, O assassino” e foi- se, rindo”.
Oswaldo não chorou, macho não chora. Voltou acabrunhado para casa, brigou com a Helena pelo excesso de sal no feijão e passou o resto do domingo fechado no quarto. Jurou vingança.
Passou a procurar sem descanso um galo capaz de destruir o tal Caolho, O assassino.
Primeiro procurou no seu criatório, depois sondou os amigos e nada.
Sentado no pequeno banco de lona olhava os frangos que um parceiro treinava no seu pátio, e apareceu o aquele que iria se chamar Pimenta. Os galos só adquiriam nomes quando tomavam alguma importância para seus donos.
Esse frangote era o galo certo para vingar Oswaldo, rápido como a juventude, feliz, debochado, daqueles que não respeita nem a própria linhagem.
Ele passou a treiná-lo e por sorte o verão tinha dias mais longos, então, ao chegar do trabalho, Oswaldo ainda tinha luz o suficiente para mais algumas horas de preparo.
Pimenta, com a penugem pintada, magro, esguio, e rápido, muito rápido, tão rápido que nenhum velho poderia com ele, estaria pronto no próximo domingo.
O sábado parecia interminável, o sol de domingo acordou Oswaldo nos primeiros raios que não conseguiu esconder de Helena a euforia. “Vais mesmo ao rinhedeiro? Estás tão afoito que estou achando que ai tem coisa. Não pensas que me enganas.”
O café, a ração vitaminada do Pimenta, a sacola de lona e era só esperar... O relógio não andava.
Helena iria a missa mais cedo, dia de batizado precisava ajudar as amigas a enfeitar a igreja. 9:30hs Oswaldo pronto se dirige ao Rinhedeiro Calcutá, todos amigos avisados para não faltarem, mesmo em caso de chuva.
Ao cruzar a Rua Marechal Deodoro, Oswaldo vê Helena, quase correndo em sua direção, parecia saltitando e no seu rosto um olhar estranho fez com que ele desconfiasse de alguma noticia surpreendente.
Ela se aproximou e praticamente gritando, até parecendo meio feliz, contou:
“Oswaldo! Oswaldo! A Policia bateu no Rinhedeiro Calcutá. Prenderam todo mundo. Vim correndo te avisar, ainda bem que ainda estás ai.
Prenderam também o Alfredo. Ele tentou resistir, irritou os guardas e eles encheram o coitado de porrada. Bateram com cassetetes por todos os lados da cabeça. Enquanto ele espirrava sangue pelo nariz a mulherada da igreja gritava e rezava. “Foi um Deus nos acuda”.
Foi quando Pimenta aprendeu a voar e da igreja só se ouviu Oswaldo gritar:
“Filhos de uma puta, chegaram antes de mim”.