Wendy Guerra, “Nunca fui Primeira Dama”Tem alguns livros que eu leio, outros me lêem. Quero dizer que me marcam, deixam pistas que me seguem até a descoberta de um outro. Posso citar alguns mas, certamente não falarei de todos: Amor nos tempos do Cólera, Madame Bovary, Dom segundo Sombra, A louca da casa, As Princesas de Berlim, nem estou falando dos Freuds ou dos lacanianos.
O ultimo foi “Nunca fui Primeira Dama” de uma moca cubana que através de um romance que mistura ficção e lembranças nos conta como é crescer e viver em Cuba de Fidel. Ela é filha de uma radialista que saiu de Cuba e de um artista plástico que a criou lá. Em um relato moderno e sem ilusões ela vai contando-nos que viver em Cuba é uma escolha, uma escolha pela resistência, uma escolha cheia de sacrifícios pela crença em um mundo fora do capitalismo.
Hoje fui fazer um passeio e uma visita. Conheci uma moca loirinha, agradável, simpática, embora não bonita. Conversamos muito. Falamos sobre o trabalho de pesquisa que ela desenvolve. Bióloga, ela pesquisa sobre a memória, como surge e como se prolonga, me diz que trabalha com neurociência. Ali eu já deveria ter desconfiado de com quem eu falava. Mas, um domingo de sol, uma praia ventosa com areia tocada nos olhos e nos cabelos, cerveja acompanhando o churrasco, eu não quero pensar.
Quase no final da tarde alguém, sem nenhuma outra pretensão, começa a contar sobre sua viagem a Lima e nos informa que toda a elite intelectual e financeira daquele pais é formada pela parcela de descendência européia e que nenhum deles fez ou faz sua formação acadêmica no pais. Eles enviam seus filhos para estudar nas universidades da Europa ou Estados Unidos. Comentamos, então, sobre a condição dos descendentes dos índios, aqueles com pele cor de cuia e cabelos negros. Um povo humilde e humilhado, submetido a uma classe branca preconceituosa e exploradora, ainda colonizadores, no entanto, agora de seus irmãos. Claro, que não percebo muita diferença entre eles e os negros na Bahia. Estes últimos simpáticos, amáveis, dóceis ainda escravos do turista que eles pretendem roubar.
Na conversa me refiro as posições dos governos de Chaves e Evo Morales que mesmo que nos pareça retrograda, meio ditatorial, populista e pouco simpática é em defesa de um povo que talvez não entenda outra linguagem e que ainda precisa de alguém os defenda.
Na Bahia ouvi os motoristas de taxis e vendedores sentirem saudades de ACM, o pai sedutor, o sinhô bonzinho, que alimenta e não bate. Ele tratava bem seu rebanho e principalmente o mantinha assim, como rebanho. A favela, a ignorância e muito mais, a miséria moral e ética, ali, ao lado do hotel de luxo, ao lado da cadeira da praia. O negro simpático, humilde, pobre vai te vender alguma coisa, a turista legal, preocupada com o social e de saco cheio, vai comprar.
Ao contrario do tal ACM e sua família, Evo e Chaves falam a língua de seu povo, mesmo que isso afronte a população branca de seus países, mesmo que para isso, alguns interesses sejam contrariados, mas não há outro modo quando a regra é: eu ou tu e nunca nós.
A loirinha pula, vermelha e me fuzila com uma visão tão medíocre quanto feia e burra de menina que repete o discurso reacionário de papai militar: “Eles mantém seu povo sem acesso a comida e a cultura, como fazem em Cuba, as pessoas não tem o direito a escolher seu próprio caminho”, e assim ataca tudo que não é americano, nem é neurociência.
Wendy me ensinou que há muita miséria e sofrimento em Cuba, muito eles perderam e precisaram abrir mao. Ela cobra da geração que sustentou a revolução o fim da ilusão, o quanto eles pagaram para manterem nos filhos a crença de que um mundo melhor era possível e o fracasso dessa ilusão. Mas, é uma escolha ou eles são cubanos e cultivam sua cultura ou serão mais uma ilhota de Miami.
A visita acabou ali. Alguém sabiamente disse: “Bem ta na hora, quem sabe vamos indo?”
Nenhum comentário:
Postar um comentário