domingo, 10 de abril de 2011

Culto ao narcisismo

Faz tempos que me prometo escrever alguma coisa sobre o artigo da Rudinesco onde ela faz uma teorização das mudanças na cultura e a influencia do capitalismo americano nessas mudanças. Não sei bem se concordo com isso, se entendo que efetivamente é o capitalismo selvagem o responsável pela cultura narcísica que vivemos. Acho que para isso precisaríamos pensar que o capitalismo americano dirige o desejo das mães que criam filhos que não se desvinculam de uma imagem narcísica de si. Seguindo essa linha de raciocínio talvez possamos dizer que sim o capitalismo americano selvagem é responsável pelas mudanças na cultura, transformando-a em um culto ao narcisismo. Essas mães e pais que foram forcados a renunciar a onipotência narcísica acham que essa perda é injusta. Eles prometem a seus filhos uma vida sem castrações. Nesse sentido sim o que penso se aproxima da Roudinesco, pois, essas crianças seriam criados em um culto onde o mito de narciso ira substituir o mito de Édipo. Rudinesco diz que uma sociedade regida pelo mito de Narciso, seria uma sociedade idealizada, que nela não há interdição, nela os seus sujeitos estariam fascinados pelo poder ilimitado de seu eu. Isso é demonstrado no dia a dia, nos carros que atropelam ciclistas, nas Brunas surfistinhas que acreditam e fazem outras acreditarem que se oferecer ao desejo ilimitado dos outros não traz conseqüências, não se perde nada. Onde as drogas são usadas na compulsão de não deixar a solidão aparecer e o sofrimento é tido como algo injusto e não merecido. De outra maneira, quando abandonamos o mito edípico como a base da nossa cultura, estamos abandonando uma sociedade onde o poder patriarcal, mesmo sendo ultrapassado pelo filho, está presente para ser superado. O pai edípico morre para que os filhos sobrevivam, cresçam e se tornem eles mesmos pais. A referencia para o crescimento é o pai, a criança crescerá reconhecendo outro que possui um saber a ser superado e que ela própria não é o topo desse saber. No mito narcísico ninguém pode perder e quando perde ninguém pode herdar. Esse é o caso de algumas mulheres que se recusam a envelhecer ao ponto de parecerem irmãs das filhas, coisa que lhes causa um orgulho visível. Homens que buscam mulheres jovens supondo manter a virilidade. Os pais não renunciam a sua posição e impedem os filhos de seguirem a corrente simbólica se tornado eles próprios pais. É dessa obsessão por si mesmo que surgem as violências contra os diferentes (gays, raciais, etc..) o outro que nos mostra nossa diferencia precisa ser destruído e como possuo um poder ilimitado nada pode me constranger. A violência urbana sem medida que muitas vezes atribuímos a miséria é, além disso, originada pela impossibilidade do sujeito aceitar que outro tenha acesso aquilo que ele jamais terá. Não estou enquadrando nessa violência o massacre na escola carioca. Esse episódio, embora muito mais violento e chocante é um fenômeno privado do delírio de um rapaz doente mental. Sem nenhuma duvida a psicose é a responsável pela sua a ação delirante. Alguns tentaram responsabilizar as crenças religiosas ou a política equivocadamente. O teor religioso que aparece em sua carta é decorrente do delírio psicótico que sempre é envolvido por algo dessa ordem. Esse tipo de doença também é uma impossibilidade do sujeito deparar-se com a castração mas não há uma recusa como na perversão ou na neurose, e sim uma forclusao, isto é, ela não existe para o sujeito. O ato não e uma tentativa de retornar a onipotência narcísica e sim algo que parte dela, da onipotência narcisisca, não há fantasia e sim uma realidade. Na violência urbana não há o reconhecimento de que a diferença social estará sempre presente e de alguma maneira em todos os níveis. Mesmo que todos tenham acesso aos bens de consumo, alguns terão mais acesso aos símbolos fálicos capitalistas e marcaram uma diferença de poder. Se o sujeito não aceitar essa diferença e senti-la como uma injustiça e um ataque ao seu narcisismo vai tentar pela violência obter para si o que o outro possui. Claramente é a falta de uma ação efetiva da metáfora paterna que mantém a cultura nessa necessidade exacerbada de auto-estima. As terapias e a literatura de auto-ajuda proliferam e a psicanálise é quase insuportável. As pessoas não querem saber de sua responsabilidade na sua doença e buscam remédio imediato.

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