O
encontro
Novembro,2005
Procuro parecer um pouco mais calma,
mesmo que a mão não pare de tremer, é pelos olhos que começo a maquiagem.
Primeiro, a sombra marrom nas pálpebras para dar profundidade, depois, a branca
nas sobrancelhas para levantar a expressão dos olhos, o delineador junto aos
cílios superiores para marcar a expressão, e por último, um contorno escuro de
lápis, tudo isso após várias expressões no espelho e olhando fixamente não nos
meus olhos, mas nos teus, naquilo que vais ver.
Chegou aquele
dia do encontro esperado. Durante muito tempo fiquei imaginando como seria e
por mais que tenha me preparado sempre acabam em surpresas. Estou nervosa, mas não quero me apurar. Apressar
as coisas e pular etapas seria por em risco todo um planejamento. Tudo precisa
sair conforme os sonhos, caso contrário vai parecer realidade.
Novamente um
leve tremor interno revela a angústia que procuro esconder.
Todo o ritual
perde o sentido se ele for denunciado pelo resultado, ao final deve parecer que
tudo foi muito casual e tu não deves perceber que foi meticulosamente
preparado.
Tomo um longo
banho como de uma virgem sendo preparada para o matrimônio, cada parte do corpo
calmamente lavada, o pescoço, a virilha, as pernas, os cabelos. O sabonete perfumado
de jasmim guardado para este momento.
O xampu o mais
cheiroso deve se fazer notar toda vez que o vento levar meus cabelos para perto
de ti, por isso eles devem estar bem limpos, bem brilhantes.
Precisam te provocar a vontade de pega-los e
se isso acontecer, estarem macios.
Em toda minha
vida sempre dei muita importância para os cabelos. Minha relação com eles
parece semelhante à história de Sansão e Dalila e depende do estado deles me
sentir capaz de dominar uma situação ou não. É uma norma jamais enfrentar nada
perigoso de cabelos sujos, presos ou mal penteados, está neles a possibilidade
de vencer.
A água quente
do banho me fez pensar no tempo que posso estar perdendo e o quanto gostaria de
já estar lá. Procuro me acalmar.
Coloco o
perfume de sempre, nisso não é bom inovar. É fundamental que meu cheiro seja
reconhecido, trocar o perfume é como trocar o nome e te fazer crer que poderia
ser uma mulher qualquer.
Passo aos
poucos o creme no corpo, que além de tornar a pele macia, faça-a ficar cheirosa,
não demais, não de longe, apenas quando encostares o rosto, para sintas bem de
perto. O perfume do creme não deve competir com o perfume escolhido, esse deve
se salientar e ser sentido com o menor movimento, como uma onda que vai e volta
sem te impregnar, com cuidado, sem querer te tontear.
Assim começa
então a maquiagem; o creme, a base para dar colorido ao rosto, o pó para cobrir
a base, não muito, não demais, lembrando que não deve emplastar, nem sujar tua
roupa se for preciso encostar-me ao teu ombro ou na tua gola. E, finalmente, o
blush que torna as maças do rosto salientes e com aquele ar de menina que bebeu
champanhe. O rimel que alonga os cílios; o batom agora não, este deve ficar por
último, quase na hora de sair, para que se mantenha por mais tempo.
Sobre a cama
já está o vestido que foi calmamente escolhido.
Saia vaporosa
para que no menor movimento a perna apareça; seda macia para que seja suave ao
toque ou desperte essa vontade. Um decote insinuante que te mostre bem menos do
que prometa mostrar, mas o suficiente para permitir a tua imaginação viajar e
procurar, a cada movimento, aquilo que ele esconde. Nas costas o vestido deve
marcar a calcinha de um modo despretensioso, não evidente, apenas a sombra,
sugerindo-te, no momento apropriado, o contorno da nádega no balanço do
caminhar que deve ter um gingado.
Um gingado de um samba mudo e assim,
a escolha dos sapatos altos, bem altos, salto fino alongando os pés e que
transforme o caminhar em passos de bailarina. Não coloco meias, a perna deve
estar livre como que a esperar as tuas mãos.
Os brincos combinando com a cor do
vestido, muitos anéis e pulseiras por que sei que gostas de me ver adornada.
Por fim, no
pescoço, um colar de duas voltas de pérolas pequenas sobre o colo nu, pois, depois
de tudo, é apenas com ele que eu desejo me cobrir ao teu olhar.

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