quinta-feira, 19 de janeiro de 2012


 O encontro  



  Novembro,2005



           Procuro parecer um pouco mais calma, mesmo que a mão não pare de tremer, é pelos olhos que começo a maquiagem. Primeiro, a sombra marrom nas pálpebras para dar profundidade, depois, a branca nas sobrancelhas para levantar a expressão dos olhos, o delineador junto aos cílios superiores para marcar a expressão, e por último, um contorno escuro de lápis, tudo isso após várias expressões no espelho e olhando fixamente não nos meus olhos, mas nos teus, naquilo que vais ver.

Chegou aquele dia do encontro esperado. Durante muito tempo fiquei imaginando como seria e por mais que tenha me preparado sempre acabam em surpresas.  Estou nervosa, mas não quero me apurar. Apressar as coisas e pular etapas seria por em risco todo um planejamento. Tudo precisa sair conforme os sonhos, caso contrário vai parecer realidade.

Novamente um leve tremor interno revela a angústia que procuro esconder.

Todo o ritual perde o sentido se ele for denunciado pelo resultado, ao final deve parecer que tudo foi muito casual e tu não deves perceber que foi meticulosamente preparado.

Tomo um longo banho como de uma virgem sendo preparada para o matrimônio, cada parte do corpo calmamente lavada, o pescoço, a virilha, as pernas, os cabelos. O sabonete perfumado de jasmim guardado para este momento.

O xampu o mais cheiroso deve se fazer notar toda vez que o vento levar meus cabelos para perto de ti, por isso eles devem estar bem limpos, bem brilhantes.

 Precisam te provocar a vontade de pega-los e se isso acontecer, estarem macios.

Em toda minha vida sempre dei muita importância para os cabelos. Minha relação com eles parece semelhante à história de Sansão e Dalila e depende do estado deles me sentir capaz de dominar uma situação ou não. É uma norma jamais enfrentar nada perigoso de cabelos sujos, presos ou mal penteados, está neles a possibilidade de vencer.

A água quente do banho me fez pensar no tempo que posso estar perdendo e o quanto gostaria de já estar lá. Procuro me acalmar.

Coloco o perfume de sempre, nisso não é bom inovar. É fundamental que meu cheiro seja reconhecido, trocar o perfume é como trocar o nome e te fazer crer que poderia ser uma mulher qualquer.

Passo aos poucos o creme no corpo, que além de tornar a pele macia, faça-a ficar cheirosa, não demais, não de longe, apenas quando encostares o rosto, para sintas bem de perto. O perfume do creme não deve competir com o perfume escolhido, esse deve se salientar e ser sentido com o menor movimento, como uma onda que vai e volta sem te impregnar, com cuidado, sem querer te tontear.

Assim começa então a maquiagem; o creme, a base para dar colorido ao rosto, o pó para cobrir a base, não muito, não demais, lembrando que não deve emplastar, nem sujar tua roupa se for preciso encostar-me ao teu ombro ou na tua gola. E, finalmente, o blush que torna as maças do rosto salientes e com aquele ar de menina que bebeu champanhe. O rimel que alonga os cílios; o batom agora não, este deve ficar por último, quase na hora de sair, para que se mantenha por mais tempo.

Sobre a cama já está o vestido que foi calmamente escolhido.

Saia vaporosa para que no menor movimento a perna apareça; seda macia para que seja suave ao toque ou desperte essa vontade. Um decote insinuante que te mostre bem menos do que prometa mostrar, mas o suficiente para permitir a tua imaginação viajar e procurar, a cada movimento, aquilo que ele esconde. Nas costas o vestido deve marcar a calcinha de um modo despretensioso, não evidente, apenas a sombra, sugerindo-te, no momento apropriado, o contorno da nádega no balanço do caminhar que deve ter um gingado.

            Um gingado de um samba mudo e assim, a escolha dos sapatos altos, bem altos, salto fino alongando os pés e que transforme o caminhar em passos de bailarina. Não coloco meias, a perna deve estar livre como que a esperar as tuas mãos.

            Os brincos combinando com a cor do vestido, muitos anéis e pulseiras por que sei que gostas de me ver adornada.

Por fim, no pescoço, um colar de duas voltas de pérolas pequenas sobre o colo nu, pois, depois de tudo, é apenas com ele que eu desejo me cobrir ao teu olhar.

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