quinta-feira, 18 de novembro de 2010

A casa da Estancia


A casa da estância


Mesmo que ela tenha concordado em morar ali, agora já não suportava mais viver naquele lugar tão solitário. Quando Sergio, seu marido, foi convidado a trabalhar de posteiro nessa estância se sentiu obrigada a aceitar. Sua casa na vila já não comportava mais a família. Foi construída para o casamento, na expectativa de ir aumentando-a mais tarde, sonho ingênuo que nunca se realizou. A possibilidade de ter mais um quarto, banheiro montado com chuveiro e dentro da casa, tinham feito com que ela esquecesse a distancia que ficaria da Vila. Mesmo que agora as amigas, as novidades e o barulho estivessem fazendo muito mais falta.
Na casa da estância poderiam ter ovos, leite, alguma carne e legumes da horta, disse o patrão. Foi assim, nos primeiros meses, depois já não tinha mais animo para capinar a horta, o leite azedava sem que prendessem novamente as vacas e as crianças não se acostumavam com o banheiro que entupiu e acabou interditado.
Limpava o pátio e a casa grande com alguma disposição, cuidava das galinhas e dividia os ovos com o patrão conforme o combinado. Depois de alguns meses, preferia ficar vendo televisão ou apenas olhando para o céu. Descobriu que vendendo a metade dos ovos que tocaria para o patrão tinha uma desculpa para voltar à vila e comprar pinga o suficiente para ter uma noite um pouco mais divertida.
Sérgio cedo ia para a lida no campo sem cortar lenha, voltava para o almoço e ficava muito incomodado quando ela não tinha a comida pronta.
Mais incomodado ficava quando o patrão chegava da cidade perguntando pelos ovos. Ela inventava uma doença para as galinhas, ou morriam, ou estavam trocando as penas. Ele olhava desconfiado o bolo amarelo que ela tirava do forno e não dizia nada. Sérgio temia perder o emprego.
Caminhar naquela estrada de chão em tempo de seca a deixava toda suja de poeira, iria chegar com os cabelos mais brancos que os da sogra. Mas, prender a charrete levantaria novamente suspeitas de Sérgio. Tinha prometido não vender mais a parte do patrão nos ovos.
Precisava andar quase correndo, a sesta das crianças poderia acabar, era perigoso deixá-las sozinha, entravam na casa grande, corriam pelo pátio, poderiam chegar ao poço ou se aproximarem do açude.
Não poderia esperar mais, precisava falar com o Afonso, o capataz, fazia uma semana que ele não aparecia na sede da fazenda. Esteve na duvida até sobre a saúde dele, mas no dia anterior o viu ao longe, enquanto recorria o campo e teve certeza que ele evitava encontrá-la. Velho ordinário pensou, agora foge de mim. Não pode gritar por ele, Sérgio não estava longe, também escutaria. No jantar, disfarçadamente, perguntou pelo “Seu Afonso, há dias não aparece”, Sérgio quase não levantou a cabeça para responder no seu linguajar atravessado: “é bao memo”. Não adiantou assunto.
Nunca nutriu nenhum sentimento por aquele velho barbudo, mas sua vida foi ficando sem graça naquele lugar, abandonado até por Deus. Cuidar das crianças, lavar a roupa, cozinhar o suficiente para não morrem de fome, as vezes limpar a casa grande para o patrão não ficar muito furioso. A noite, olhava no horizonte as luzes da Vila e imaginava o que suas amigas estariam vivendo, quase escutava os risos e o som dos rádios.
Muitas vezes bebia muita pinga e tentava divertir-se com Sérgio, igual o programa “Vivo a Mulher” sugeria. Ele até tentava, pobre, mas rapidamente estalava os olhos e caia morto de sono. Ela bebia mais, para morrer também.
Os olhares de Afonso estavam ficando engraçados. Ele parecia nunca ter visto mulher no dia em que ela tomava banho de chuva com as crianças e o vestido de verão colou no corpo molhado. Ela também começou a imaginar os proveitos que poderia tirar disso. Foi convidada para o churrasco de fim de ano dos peões, nenhuma outra mulher foi. Ganhou carne extra na partilha do mês e quanto mais lhe mostrava as pernas, os fundilhos e parte das nádegas quando ele passava perto da casa em busca das vacas, mais presentes ele trazia: sacos de milho, para engordar as galinhas, uma abóbora de pescoço para doce, feijão e um bolo novinho comprado na cidade. Certo dia, curiosamente o balde caiu no poço bem na hora que ele passava, ela precisou subir e debruçar-se para ver onde ele tinha ido parar, o vestido subiu, quando se virou ele já tinha apeado e estava com aquele olho parado de cachorro do mato, quase babando no canto da boca, ela fez uma voz manhosamente estudada e pediu ajuda. No domingo contou tudo para a amiga mais intima e riram muito da burrice do velho.
As artimanhas eram muitas, ele não saia ao campo sem passar por ali, pela manha e pela tarde. Ela precisava ser criativa para pensar mais uma estratégia. Uma lâmpada queimada que seu marido relaxado nunca trocava, o chuveiro que queimou quando ela já tinha se despido, o banho de sol no meio do campo e já estava faltando idéias quando a amiga sugeriu que poderia conseguir sapato novo e um belo vestido para a festa de páscoa da igreja. Embora tenha começado aquilo sem nenhuma outra intenção além de tornar a vida menos chata, foi gostando muito de ter sempre algo interessante para fazer, mas também sabia que estava indo longe demais, não poderia se safar do velho e daquilo que ele pretendia. O sapato foi fácil, encomendou em uma ida dele a cidade, disse que depois pagaria, ele não cobrou. O vestido sabia que o preço era outro. Não demorou a encontrá-lo na horta no dia que Sérgio juntava o gado a mando dele e que as crianças ainda dormiam.
O velho era feio, com a barba crescida e com cheiro a suor de cavalo, mas a vontade com que tomava seu corpo era uma novidade na sua vida. Passou a sentir emoções que apenas suas próprias mãos haviam lhe concedido, a experiência dizia Afonso. Ela ganhou vestido, perfume, batom e muitas tardes de cavalgadas intensas. Sérgio era mandado a todos os cantos da estância, as crianças dormiam e até no galpão do leite o velho a esperava, dizendo que não pode dormir direito pensando nas suas coxas. Ela gostava muito de se sentir assim, um objeto caro e precioso, valia muito, quem sabe um garrafão de vinho de verdade e um pedaço de costela para um churrasco, ele seria convidado. Junto com a amiga e comadre ria-se e a vida ia ficando mais colorida quando percebeu que os seios ficavam maiores e os cheiros já lhe eram insuportável. No churrasco Sérgio bebeu e denunciou os ciúmes e desconfiança que vinha acumulando, jurou Afonso de morte e foi um custo para ela o fazer acreditar que tudo era alteração do vinho. Afonso sumiu assustado e quem sabe também percebendo o cheiro de prenhes que ela andava exalando.
Ela caminhava apressada, levantando poeira e buscando pelo velho, não tinha saudades, já tinha conseguido a promessa de Sérgio de abandonar o emprego e voltar para a casa da Vila. A pesca voltara a ser produtiva e era um jeito dele se livrar das desconfianças. Ela retornaria ao convívio e as rodas de mate.
Precisava apenas do remédio e da certeza que não teria um filho sarará.

Nenhum comentário:

Postar um comentário