quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Burguesa é a tua avó


Hoje fiquei novamente furiosa quando entendi que estavam me chamando de burguesa. Eu contava que estava chegando de Nova York e essa viagem foi associada a minha condição de burguesa.
Bem verdade, a burguesia agora viaja. Viaja agora, porque antes só sonhava em um dia chegar “dos States” carregada de muamba. Malas e malas da Disney sendo empurradas por gente de orelhinha da Minie.
A doida aqui não pode simplesmente ficar puta e fazer a fila andar, precisa pensar sobre o incomodo.
Seguramente não sou uma representante da classe operária, meu pai quase não trabalhou, pensava muito mais em seu terno de linho branco, seu violão e no time de futebol do que no basquete diário.
Era muito mais a ovelha negra de uma família burguesa (essa sim) do que ele próprio um burguês. Seus valores longe de serem atingir os padrões da elite era viver “la dolce far niente”, pode pouco coitado, a burguesia o venceu.
Minha mãe, mais ocupada em deixar de ser a princesa que casou com o plebeu, se lamentava de não ter nascido homem para conquistar todas as fronteiras.
Eu própria, embora trabalhe de sol a sol, não partilho dos valores de uma classe operaria urbana e muito menos rural. Lá ocupo a casa grande e jamais encilhei um cavalo, ou abri uma porteira. Cevar o mate nunca foi coisa para mim, muito menos usar pinico.
Meu trabalho me ocupa muito, mas dele retiro mais deleite do que sustento.
O piano e o clarinete eram tocados na minha casa, do clássico ao popular, sem, no entanto, nos preocuparmos se isso nos diminuiria. O Frances era tramado na conversa como as rendas eram nas sedas.
No pescoço o lenço de seda marcava uma posição junto com as botas lustradas e esporas de prata. Mesmo que dias antes tivéssemos suado no lombo do cavalo.
Burguesa era a Madame Bovary e por isso me ofendo.
Uma mulher que sonhava em dançar nos salões iluminados nos braços de homens perfumados de conversa melosa. Que se apaixonou por homens que viviam em um mundo aonde ela imaginava viver, em teatros, bailes e saraus regados a champanhe.
Ser burguês para mim é isso, trabalhar feito um burro velho para um dia usufruir as benesses que a vida presenteia os cavalos de raça. Ir ao teatro ocupando o camarote n.2, usando adereços com as grifes estampadas em letras douradas para que todos saibam o quanto aquilo custou caro. É usar o perfume Frances da moda, o creme, os sapatos, o cabelo igual a todas as mocinhas do restaurante. E, só freqüentar esses lugares e essas pessoas porque é com elas que vai aprender a ser o nobre que nunca será.
Odeio ser chamada de burguesa. Não que me ache uma representante das “mulheres do povo” como dizia minha avó quando minha mãe colocava rolos no cabelo e saia em publico, mas, também estou longe de ser uma Madame Bovary que morre na tentativa de reproduzir aquilo que sonha ser a vida da nobreza.
Eu já conhecia Nova York.

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