Tempo. Que tempo?
Eu não tenho tempo para escrever sobre o tempo.
Lembrei daqueles
filmes onde o tempo se repete, onde
temos a chance de refazer o tempo.
Que momentos da minha vida eu refaria. Não vale dizer todos,
como foi o que pensei em um relâmpago.
Quando criança as inúmeras vezes que me envergonho ainda hoje. Quando
aceitei o convite da colega de aula para andar pela ponte, cheguei tarde a casa
carregando minha irmã caçula, meus pais desesperados? Ainda lembro seus rostos.
Não, não refaria, foi muito divertido. Uma liberdade que até hoje procuro. Bem,
não me sentiria tão culpada e voltaria a fugir. Quem sabe quando entrei no
deposito da loja de pneus a convite da melhor amiga e o tio aleijado dos donos,
nossos parceiros de travessuras, me assustou com todos seus atributos
acomodados sobre um pneu? Também não desta vez, aprendi com aquilo. A não
aceitar qualquer convite, a não entrar onde não conheço e a não confiar
cegamente.
Quem sabe não ter
beijado ardentemente meu par no baile dos 15 anos? Não seria possível, ele
gostava de mim assim, assustada, ingênua e até meio burra. Teria perdido meu
primeiro namorado. A gravidez aos 20 anos? Faria diferente, faria de outro
modo, mas não perderia a oportunidade de ter comigo minha doce filha.
Vamos lá, tenho
pouco tempo. Que tempo eu refaria? Se eu tivesse a chance de viver de novo, que
história eu mudaria? Congelaria o tempo naquela noite na praia paradisíaca em
que das pedras eu via apenas a lua prateada refletida nas pedras e as estrelas?
Não, apesar de inesquecível muitas
coisas vieram depois. O gosto daquele amor não foi mais definitivo que o
sorriso do neto, nem que o calor de seu abraço.
Mudaria quem sabe
aquela noite em que te encontrei naquele bar? Quem sabe se não tivesse te
esperado no banheiro e te beijado ardentemente?
Lembras? Estavas com as amigas que nos apresentaram? Quando levantaste e
foste ao banheiro fui junto e sem pudor te beijei. Quem sabe seria isso que eu mudaria. Não
seria tão oferecida, teria esperado que mostrasses interesse por mim.
Não, nem isso eu
mudaria. Na verdade, se o tempo voltasse e eu tivesse a possibilidade de viver
novamente um dia, uma hora, um tempo, seria isso que eu mudaria. Depois do
beijo eu não teria saído correndo e sumido da tua vida, eu teria ficado contigo
e para sempre teria teu rosto iluminado pelas poucas luzes tendo o corcovado
como moldura.

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