Eu já fui Primeira Prenda
Em cada cartela havia 10 números, cada numero custava 1
cruzeiro. Juntei todas com uma borrachinha de dinheiro assim que elas me foram
entregues pela professora.
-Contaste todos os números? Perguntou-me ela. Verificaste se
não pulei nenhuma sequência?
-Sim senhora, respondi. Mesmo sabendo que meu nervosismo me
impedia de processar o que tinha contado.
Até hoje não sei como
tive coragem. Eu era tímida, insegura e sempre parecia estar inadequada ao ambiente.
Mesmo assim levantei a mão quando a professora perguntou:
-Quem quer se candidatar? Coragem meninas! Vamos votar em
uma representante da turma. Quem quer concorrer a Primeira Prenda? As meninas
se candidatam e a turma vota em uma para ser a sua representante.
Parada na frente da sala ela olhava para todas
as alunas, passando os olhos por cima da minha cabeça.
A proposta era que
os colegas elegessem uma candidata entre aquelas que se habilitasse a
concorrer.
Levantei um pouco a
mão, ficando ainda com o antebraço colado ao corpo, mas não o suficiente para
que toda sala visse. Pensei que teria tempo de recolhê-la caso percebesse uma
reação desfavorável.
A reação
desfavorável não veio e a professora rapidamente acolheu minha candidatura.
Outra colega também
se candidatou, olhei furtivamente para trás, a tensão me impedia de pensar, mas
fiquei segura em ver que fora Ada, ainda mais feia, mais insegura e mais burra
que eu. Eles não teriam escolha. No quadro negro a professora escreveu nossos
dois nomes, o meu encima, o dela embaixo. Por ordem de chamada ela ia
perguntando aos colegas para qual das duas eles dedicavam o voto.
Momentos tensos, quase a beira do pânico.
Ao lado do nome ela formava quadrados e quem obtivesse mais
quadrados ganhava a disputa. Os colegas mais próximos me olhavam surpresos e eu
não conseguia acompanhar a contagem.
Apesar de não ser nada
popular, ganhei. A outra era mais infeliz que eu.
Quando a professora me entregou as cartelas uma etapa de meu
martírio estava vencida. Senti-me um tanto satisfeita, afinal eu tinha sido
melhor.
Eu não saberia dizer se ali começou os dias de angustia que
vieram ou se foi uma dor a menos. Junto com elas vinha a responsabilidade do
ato que assumi.
-Aqui tens as 10 cartelas, em cada uma têm 10 números. Cuida
bem delas, pois elas valem muito dinheiro, precisas vender todos os votos e
depois podes pedir mais outros, se venderes todos, é claro. Teus colegas vão te
ajudar, cada um vai levar uma cartela para casa, quem quiser mais pode pedir
depois. Eles vão vender para ti e colocar teu nome no canhoto. Quanto mais
números venderes melhor, vai ganhar quem vender maior número de votos em toda a
escola. Quem, de toda escola, conseguir vender mais votos será A Primeira
Prenda e dia 20 de setembro receberá a faixa no chá com desfile da escola.
Sai apressada. Sem
em sequer pensar no que diria minha mãe? Somente depois da minha eleição
lembrei que ela poderia não gostar e me fazer devolver todas as cartelas. Agora
era tarde, só me cabia torcer. Eu ainda poderia recorrer a meu pai, ele
certamente me apoiaria.
Eu precisava vender
no mínimo 10 cartelas, menos do que isso eu não teria a menor chance.
A segunda etapa de
minha jornada, rumo ao trono, era contar para minha mãe. Entrei em casa e
gritei aquele “mãe” grave, arrastada, típico de quem quer alguma coisa. Ao que
ela já respondeu sem paciência. –O que menina?
Senti que era melhor deixar para depois do almoço, mas muito depois ela
iria sestear, depois sair, depois jantar, depois não seria hora, já para a
cama, e assim se passaria uma semana.
A professora já havia
contado. “Que progresso! Tão tímida” Quem sabe agora assumiria mais suas
responsabilidades, aprenderia a cumprir com os deveres, “lhe fará bem”.
Não muito
convencida, no entanto, sem querer contrariar a colega e mesmo não nutrindo a
mesma expectativa, minha mãe sentenciou: Vou te ajudar, mas não vou fazer tudo
sozinha, só te ajudar, tu terás que vender teus votos.
Minha avó ficou
envaidecida com a ideia, percebi que ela não tinha entendido exatamente em que
condições eu havia obtido a vitória, preferi sorver os sabores desse equivoco e
lhe vendi duas cartelas inteiras, mesmo assim faltavam 8.
A Minha mãe, desta vez, estava se empenhando,
vendeu alguns votos para minhas tias e vizinhas.
O inverno estava
começando e eu tinha ate a entrada da primavera para obter o primeiro título da
minha vida e agora posso dizer o único.
Uma equipe foi
montada contando com irmãos, vizinhos, mas, principalmente com minha prima
Carla. Ela era uma espécie de criança
que ficava perdida entre o abandono total e a superproteção. Filha de uma tia rica que morava em uma
estância, ficava na cidade com nossa avó com a desculpa de estudar, mesmo que
seus estudos não tenham se iniciado aos 6 meses de idade. Por conta da culpa
pelo abandono fazia todo e qualquer absurdo que viesse a sua cabeça, sempre
tendo a conivência e a desculpa da avó.
Determinada e corajosa foi o marketing político de minha candidatura e
mais importante cabo eleitoral. Todas as manhas ela passava na minha casa e me
fazia recorrer as ruas da cidade batendo de porta em porta com o mesmo
discurso: Bom dia, sou aluna da escola N. Senhora Medianeira e candidata a
Primeira Prenda da minha turma, a senhora gostaria de colaborar comprando
alguns votos? É só um cruzeiro cada? Ao
final haverá o sorteio de uma caixa de bombons, quanto mais a senhora comprar,
mais chance de ganhar. Rapidamente minha prima vendia 5 cupons e passávamos a
casa seguinte.
Mês de junho, mês
de julho, as férias de inverno, uma pausa nos negócios e uma temporada na
estancia, eu na de meus pais e minha “cabo eleitoral” visitando os seus. Nunca
um mês durou tanto tempo.
Os votos foram
apurados no dia 15 de agosto. Na sala da merenda a diretora coloca no quadro
negro o numero de votos vendidos. Fico tonta ao ver meu nome escrito por
extenso e incrédula diante da soma de 536 votos vendidos contra 511 da
adversária, uma loira magrinha uma série a frente da minha. Quem em sã
consciência vota em Primeira Prenda loira? Será que não sabem que as gaúchas
são morenas? Ana Terra era morena, a Bibiana também.
Eu venci, e
agora?
Meu pai olhava
tudo aquilo com certa distância, minha mãe, entre o divertida e o enfarada. O
vestido! Agora precisamos tratar do vestido. Dia 20 de setembro seria o dia de
receber a faixa, um chá, um desfile e o trono. Eu precisava decorar um discurso
para agradecer o apoio dos colegas, a professora esclarecia enquanto eu ia
pensando um jeito de desistir.
Em casa minha mãe me colocou pena na vida:
Vamos acabando com as visagens, disse, diante dos argumentos de que fico
nervosa, que minha voz não iria sair e outros mais. Quem te mandou entrar
nisso? Agora vais até o fim.
O vestido foi
reaproveitado da filha da vizinha, na altura era só uma pequena bainha, na
largura, nada que uma nesga não resolvesse. Depois colocando uma faixa de fita
colorida e uma flor, tudo ficaria lindo e sem um tostão.
No dia 20 de
setembro eu estava pronta. Com meus cabelos fizeram duas tranças grossas e bem
pretas, como manda o figurino, arrematados por uma flor vermelha combinando com
a faixa da cintura.
O salão da igreja
cedido para a escola estava lotado. Nas mesas redondas mães de alunos e
professores tomavam o chá com pequenos pratos de pizza, croquetes e docinhos,
tudo feito por algumas voluntárias.
O CTG dançou meu
pezinho e a chula. A diretora entrou no salão para agradecer a presença e
anunciar a Primeira Prenda do ano de 1963. Os agradecimentos foram
intermináveis, até que ela convidou a antiga Primeira Prenda, a rainha deposta,
para transferir a faixa de Primeira Prenda do ano de 1963 à....à...à e anunciou
meu nome como se estivesse falado em um Grande Páreo.
Entrei no
salão lotado e olhando acima das cabeças, ergui meu nariz no teto. “Igual a
Ieda Maria Vargas no Maracanãzinho, vamos arrasar” eu lembrei Carla me
dizendo. O desfile foi de princesa, a
faixa de miss, no trono, olhando os súditos eu me sentia uma rainha. Faltava o
discurso que com voz muito firme iniciei: “Caros Professores, Senhores Pais,
Sra. Diretora, queridos colegas, estamos aqui...
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