quarta-feira, 9 de junho de 2010

Eu e a Madame Bovary viajando juntas


Adivinhem o que estou lendo agora? Flaubert, isso mesmo, sobre aquela anciã, a Ema Bovary.
Ela esta me alucinando, pirando a minha cabeça.
Bem, na verdade ele esta me alucinando, o próprio Gustave, já que ele disse que a “Madame Bovary c’est moi”.
Não vou nem discutir a obra em si, a perfeição literária, a maneira sublime como ele descreve os sentimentos das personagens. Mesmo que descritivo ao extremo ele foi capaz de analisa e decifrar a alma humana soberbamente. Antes de Freud ele é freudiano, ou seria Freud Flaubertiano?
Tento entender as Madames Bovary, tento acompanhar os caminhos desses desejos que pareciam tão soltos e fluidos quanto os vestidos de seda descritos no livro.
A moral burguesa demandou da mulher uma posição. A cultura européia produziu uma quantidade inédita de discursos sobre o feminino, atribuindo predicados, funções e atributos que seriam denominados de femininos. Produziu segundo Foucault um conjunto de estratégias que seria a chamada “sexualidade feminina”, isto e, uma sexualidade adequada ao lugar que deve ser ocupado pela mulher na família burguesa.
Um psiquiatra chamado Gaultier chamou de “bovarismo” aos conflitos de uma feminilidade em crise como a vivida pelas mulheres do sec 19. Ele dizia que bovarismo era toda forma de ilusão do eu e de insatisfação, desde a fantasia de ser um outro até a crença no livre arbítrio”
Maria Rita Kehl diz que esses sintomas transcritos para as mulheres foram entendidos como patologias, sintomas histéricos para alguns médicos e paranóia para outros. E, o que é mais interessante, esses sintomas seriam produzidos pelo acesso dessas mulheres “novas ricas” a literatura: “Quantas delas teriam perdido a cabeça a forca da literatura?”
Madame Bovary se refugia nos livros e parte deles seus sonhos de uma vida mais esfuziante e de uma paixão calorosa.
Flaubert publica os primeiros capítulos de Madame Bovary em 1956, ano do nascimento de Freud, mas até agora segue sendo valida a mesma critica a “grotesca mentalidade burguesa” que ele faz no livro.
Freud disse que os poetas, como Flaubert, sabem por intuição e antecipadamente aquilo que os cientistas trabalham e pesquisam humildemente anos a fio para compreender.
Tento entender humildemente o desejo insatisfeito, aquilo que parece nos levar ao abismo da busca incessante, mas que é, para as mulheres, ainda grotescamente reprimido na sua manifestação. Frívolas, insatisfeitas, histéricas nomes dados a essas que buscam equivocadamente um desejo possível de ser satisfeito. Quem sabe um nirvana.
Minha avó declamava para mim na minha infância
“-Maria aonde vai?
-Ao mercado como vês
-Assim, tão só? E se o demo te encontra?
-Pergunto ao Demo o que quer
-E se ele te pede um beijo?
- Dou-lhe ate mais se quiser
- Então sou o Demo, dá-me um beijo.
- Não, mamãe disse outro dia que rapariga solteira que dá um beijo em um rapaz, ferve-lhe o sangue nas veias e jaz!! Nunca mais”

Assim, fazia alusão ao desejo sexual que deveria ser controlado no casamento sob pena de ver a rapariga se perder nas mãos de um diabo qualquer.
Não sei se fui uma boa aluna, mas anos de analise me fazem recusar essa moral grotesca.
No entanto, outro discurso na linguagem tenta aprisionar as mulheres em um novo estigma: “Sexy and City”
Mulheres bonitas, modernas, independentes, donas de seus orgasmos e de suas camas não encontram homens capazes de estar a altura de tamanha perfeição e aqueles que são bons o suficiente para merecem um beijo, são fluidos no amor, não se prendem a ninguém.
Será mesmo que Ema Bovary se suicidou, duvido. Acho que ela saiu como Medeia nos braços do “Deus ex machina”, voltando sempre e sempre no discurso sobre o feminino e sobre o comportamento das mulheres e denunciando a fraqueza dos homens.

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