
Ao entardecer, no ranchinho emprestado, o vento triste entrando pelas frestas da palha, o foguinho ralo e as pilhas do rádio quase acabando, Ramirez pensou que a cidade até poderia ser um bom lugar para um velho gaúcho.
Não que se importasse em tomar mate com erva lavada, afinal, há alguns anos aprendera a poupar, dava para tomar dois ou três mates com a mesma erva.
De manhazinha preparava o chimarrão com erva nova, virava ao meio-dia e depois, dependendo do quentume do dia, ainda podia aproveitá-la à tardinha. Também não se importava com a precariedade do rancho. Chita nas janelas para fazer de postigo, chão batido, gelado de dar dó, fogãozinho todo remendado com lata de óleo velho. Era homem de poucos luxos e devia agradecer a Dom Vasco pela generosidade, mesmo tendo lhe demitido havia deixado que ficasse ali.
Havia apenas duas coisas que deixavam Ramirez assim, taciturno e mal humorado; pedir fiado e quando o dinheiro não dava mais para a pinga, nem para a farinha do pão. Isso já vinha acontecendo fazia meses.
Verdade que sua vida não tinha sido de muitas farturas. Filho de gente pobre foi habituado com pouco na infância. Longe da casa paterna, desde muito cedo, trabalhava para pagar seus vícios e seus prazeres. Mas, já havia pensado em degolar gente que tinha insinuado que ele era preguiçoso, nunca recusou trabalho, só não gostava de patrão e de ficar muito tempo em um só lugar.
Doutra feita, quando o trabalho já tinha começado a rarear, foi obrigado a trabalhar em uma fazendola perto da fronteira, uma pequena leiteria, para cuidar das vacas de leite. Odiava gado leiteiro, andar atrás das vacas, sentar em banquinhos, ficar amassando suas tetas e depois passar o resto do dia fedendo a leite, tal qual um bezerro.
Já na primeira semana, após o pagamento, foi na venda da vila e tomou um trago. Não levantou para tirar o leite, foi demitido e se não fosse o posteiro tinha ficado sem pouso, ele e o velho gatiado.
Sabia que já não conseguiria empregos como os de antigamente. As fazendas rareavam, sem gado, sem pasto e sem cavalos não precisavam mais de peões. Ria-se sozinho pensando que precisaria aprender a domar um pé de eucalipto. Nem para cortá-los precisavam de gente, vinham as máquinas e em dois minutos acabavam com um mato inteiro.
Agora se sentia cansado. A coragem para domar potros fazia muitos anos que o abandonara, desde o último tombo e do braço quebrado.
A última vez que deparou com o sobrinho tentou lhe vender a encilha de alpaca que tinha sido de seu pai, a única coisa que lhe restava além do gatiado. Não era dado a sentimentos, mas seria melhor que ficasse na família.
Como todo rapazote da cidade ele respondeu com ar de doutor: “sai daqui, vai para a cidade, a vida aqui não tem mais jeito”. E encerrou dizendo que não precisava de encilha para andar de carro. Ramirez chegou a levar a mão ao relho, em outros tempos teria lhe dado uma sova, mas era em outros tempos.
Não tinha se preocupado quando soube que um grande fazendeiro tinha vendido suas terras para plantar mato. Pensou que era coisa de velho caduco, chegaram a falar que a morte do filho o deixou assim. Quem em saúde perfeita venderia uma bela fazenda, um rebanho de primeira, água e muito pasto? Apenas um maluco, pensava Ramirez. Passou com a tropa pela porteira e foi pedir pouso na fazenda ao lado.
Meses depois ficou sabendo que esta também fora vendida, foi quando Dom Vasco lhe ofereceu o ranchinho.
Todo dia, enquanto mateava cuidava o rumo dos caminhões. Eles passavam cheios de lenha para a cidade e Ramirez ficava pensando em como seria sua vida lá.
Recebera noticia de José, o bodegueiro, que se mudou para a cidade. Acabou trocando a venda por uma carroça. Dizem que com ela junta latinhas de cerveja. Ramirez ficou acabrunhado, não tinha dinheiro para carroça e muito menos vontade de catar lixo na rua.
O sobrinho falou da aposentadoria do governo e de um advogado para tratar do assunto. Venderia o gatiado e compraria uma casa com luz elétrica, assim além de não precisar mais de pilha não precisaria nem de rádio, poderia ver televisão. Talvez até uma mulher nova para cortar seus casco e coçar suas costas. Ramirez suspirava a poeira do último transporte de lenha enquanto decidia que no dia seguinte saberia com Dom Vasco se o caminhão iria carregar a lenha para a cidade e se teria um lugarzinho para ele.
Doce, econômico e robusto. Não falta nada. É melancólico, mas não chega a ser triste. Lindo! Gostei demais. Aliás, mais que gostei, mesmo.
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