Da ponta da mesa Valdeci sorria encabulado. Um sorriso meio de canto de boca, a cabeça inclinada para baixo para que os outros não percebessem as bochechas vermelhas, e balançando-a, tentava uma negação difícil de acreditar.Essa cena se repetia quase todas as noites. Naquela espécie de bolanta o fazendeiro, o administrador, eu, um amigo também da cidade e Valdeci, o capataz, nos reuníamos depois do jantar.
Apesar da luz elétrica, a escuridão dos campos fora da casa e a falta da televisão, faziam com que essa gente da cidade tivesse uma sensação de estar em outros tempos. Talvez fosse por isso que insistiam naquelas conversas até mais tarde, regadas por alguma bebida mais forte que o chimarrão. Era como se estivéssemos em torno do fogo de chão em algum galpão de tropeada.
-Conta ai, interpelava o administrador, provocativo, insistindo na mesma história fazia dias.
-Conta ai Valdeci, tu comias ou não comias a Landa?
Valdeci parecia não querer lembrar, muito menos contar, mas a bebida providenciada era de qualidade muito melhor do que ele estava acostumado, o que lhe fazia abusar, então, ir afrouxando a memória e soltando a língua.
Parecia pensar que ao contrário do povo dali, nós, as pessoas mais estudadas e da cidade deveríamos estar acostumados com histórias estranhas. Estávamos mais instigados por outra curiosidade, do que pela vontade de saber sobre a vida do pobre sujeito. Queríamos saber se ele teria coragem de contar ou se negaria tudo como vinha fazendo até então.
Aos poucos e de tanto ser cutucado Valdeci foi contando.
-Homem, eu tinha só uns 16 para 17 anos quando meu pai foi transferido de peão da fazenda nas margens do Jaguarão, para capataz da outra fazenda dos Silveira, a Ovelha Negra, onde moravam os patrões. Nasci na fazenda da fronteira, e vivi embrenhado lá até a mudança.
Enquanto falava passava a mão nos cabelos negros de índio mestiço e andava para acender no fogão a lenha o palheiro apagado.
Era um homem parrudo embora não fosse gordo. Os braços e as mãos marcados pelo trabalho pesado pareciam talhados a formão. Tinha os dentes brancos que formavam com a tez escura um contraste bonito, embora o vasto bigode já estivesse amarelado pelo tabaco. Encostado na mesa sustentava um pé no outro joelho e ia alternando-os em uma posição semelhante a das cegonhas.
O administrador quase não acreditou que ele finalmente falaria, olhou o fazendeiro e pediu permissão com o olhar para continuar no assunto. Permissão concedida estimulou:
- Más diga lá índio veio. Tentando parecer mais íntimo usou do mesmo linguajar campeiro. Então é fato mesmo?
Valdeci lembrou-se do dia em que conheceu Orlando e a casa grande.
-Ala putia, era bonita e grande barbaridade, mas vocês precisavam mesmo era ver o carro que ele tinha. Isso sim me encantou, bati o olho e já queria aprender a trepar no bicho. Era vermelho, conversível, lembram do Puma..Um Puma GT 1600 conversível, uma lindeza. Tentando assim desviar a nossa atenção para uma conversa mais de macho e não sobre o que estávamos querendo saber.
O administrador voltou à carga, queria fazer Valdeci ir adiante e contar mais um pouco.
-Não desconversa, desembucha logo homem, comeste ou não comeste a Landa?
Assim, de noite a noite, de frase a frase, ele foi falando de sua relação com Orlando Silveira, a Landa, para os íntimos.
Ficava difícil para Valdeci admitir e falar de como estranhou a cor dos cabelos e dos olhos de Orlando. Uma vez sua mãe disse que os cabelos eram amarelos como espigas de milhos e os olhos azuis como céu de verão, não teria definido melhor, mas ficava bem falar assim de outro homem.
Orlando era um sujeito magrinho, nariz fino sempre para cima e gestos delicados como de moça educada. No entanto, montava um cavalo cuido baio com firmeza e de seu lombo tocava a estância inteira na ausência do pai que vivia levando a mãe para os médicos da cidade.
Não demorou muito para que Orlando percebesse o interesse de Valdeci pelo carro vermelho. Primeiro pediu para o rapaz lavá-lo. Deixou que entrasse, sentasse nos bancos de couro, e de longe cuidava o fascínio do guri pelo brinquedinho luxuoso.
Um dia finalmente Orlando propôs ensinar Valdeci a dirigir o carro, era irrecusável. Claro que ele já estava sentindo que o patrão andava lhe olhando estranho e quando chegava perto falava com voz mais mansa do que com a peonada, mas o carro era tudo que lhe interessava no momento. Sonhava com ele.
Na estância Valdeci pode estudar e na volta da escola ajudava o pai no campo e a mãe nas lidas de pátio. O resto do tempo dedicava ao carro e a circular pela casa grande com a permissão de Orlando.
- Eu era como um potro chucro, se define. Nunca tinha ouvido falar dessas coisas de homem com homem, a coisa mais estranha que vi foi outro peão barranqueando uma égua. Bem, naquela época mulher era escasso, se justificava.
Aos poucos foi sendo envolvido pelas propostas de Orlando e pelas facilidades que disso advinha. O carro passou a ser seu meio de locomoção até a escola.
-Apesar de tudo o mais difícil era sustentar o olhar do “véio” meu pai. Eu sabia que ele não diria nada, mas ele não achava aquilo certo. Mesmo que eu não fosse “a mulherzinha” da história era o filho do patrão que estava sendo enrabado e isso ele achava que acabaria mal.
Diante da história contada e da emoção que ia tomando conta da voz de Valdeci, o administrador foi ficando desconcertado e tentou dar um ar de seriedade ao relato
- Vocês sabem, não é? Esse tipo de anomalia era comum desde o tempo dos gregos. Os ricos, os nobres, os filósofos adoravam ter gurizinhos. Bem, afinal, homem é quem come.
Valdeci se sentiu aliviado e seguiu contando que jamais beijara Orlando na boca e que a única vez que ele havia tentando tinha lhe dado “um murro nos beiços.” E também não o chamava pelo apelido, Landa, por mais que ele pedisse, e ele sempre pedia naquela hora mais agitada.
-Eu ia lá fazia o serviço e caia fora. Depois cobrava caro. Várias voltas no carro vermelho.
A coisa já estava ficando corriqueira quando uma noite se dormem nos lençóis de linho. Pela manhã quando a estância mal amanhecia os pais de Orlando chegam de surpresa da cidade. O fazendeiro logo pergunta pelo filho que ainda dormia com sol já alto. Entra no quarto sem ser impedido pela criada, avisada por Orlando para barrar qualquer acesso.
-Filha da puta, deixaste ele entrar, gritava Orlando, enquanto arrumava as malas. Foi se tratar em Montevidéu, “para curar sua doença”,
- Para que ele visse que tem um filho puto, gritava do outro lado a velha empregada que já andava indignada com a pouca vergonha do patrãozinho.
-Quanto tempo ele ficou lá, pergunta o administrador tentando manter o assunto apesar do espanto dos demais presentes.
- Uns meses, não me lembro quantos, dizem que até andaram lhe costurando o rabo, mas se foi fato ele descosturou por lá mesmo, pois já voltou querendo mais.
-Tu estavas louco de saudades, retrucou um dos presentes.
-Que nada homem, meus pés já tinham virado cascão de ir sem o carro para a escola. Orlando bem que quis me deixar a chave, mas a empregada velha tomou da minha mão e ameaçou contar para o patrão. Ele voltou pior do que foi. Não passava uma noite sem que fosse me chamar em casa.
Acontece que enquanto Orlando esteve fora Valdeci foi algumas vezes na vila próxima e estava se interessando por umas gurias que moravam por lá.
Orlando desconfiou e teve uma crise de ciúmes:
-Filho de uma puta, eu te capo, seu veadinho de merda, tu pensas que és homem, vais ver.
-Fiquei uma fera, conta Valdeci, parti para cima dele e quase matei o homem de tanta porrada, acho que no fundo ele gostava de mim feito mulher mesmo.
- Isso me deixou muito mal parado, só que faltava a bixa querer exclusividade. Eu já estava com quase 20 anos, na hora de conhecer mulher de verdade. Sentir pena dele estava me deixando mole demais. Fiquei lá por mais um tempo, mas depois achei melhor ir embora. Já andavam insinuando que eu estava ficando igual a ele, acho que era por causa dos estudos. Com a vida facilitada eu acabei estudando mais que os outros guris e isso me tornava meio maricas e com os modos finos como Orlando. Valdeci baixou a cabeça, olhou pela janela, e com a voz trôpega finalizou.
-Ate hoje, quando me lembro de tudo isso tenho muita vergonha.
- Te ter comida a bicha, diz apressado o administrador, tentando remendar o que tinha feito.
-Não, de ter tratado o cara com tanta falta de respeito.
E Valdeci, pigarreia, cospe no chão, se despede, sai da bolanta segurando as bombachas com os cotovelos e arrastando as alpargatas.
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