segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Vincere, ou cartas de amor


Vincere

Tenho um assistente particular para assuntos de cinema, ele me diz que filmes assistir e quase nunca erra. No entanto, nos serviços não inclui sair do cinema feliz, normalmente é uma porrada.
Ontem ele escolheu “Vincere” de Marco Bellocchio. Usando o titulo de uma música fascista ele conta a história de uma amante secreta de Mussolini, e do filho deles.
Um filme bem feito e divinamente encenado, misturando cenas de filmadas na época aonde nós assistimos a loucura do ditador e sua prepotência.
Mas, o que me chocou não foi a loucura de Mussolini, mas a loucura amorosa de Ilda Dalser, a amante. Ela conheceu Mussolini antes dele se tornar Duce, ficou fascinada por ele e o perseguiu. Eles foram amantes por algum tempo e tiveram um filho, embora ele já tivesse uma esposa e uma filha.
Ele, embora ocupado em fazer política, ficou curioso com a atenção que ela lhe dedicou e com o amor incondicional que ela lhe demonstrou. Ilda chegou a vender uma casa e seu negocio de costureira para comprar um jornal para o Benito. Entregue a paixão e ao encantamento ela encarnou o que Freud chamaria de “masoquismo feminino”. Ilda estava sempre presente aonde Mussolini ia, se apresentou com ele em publico, embora todos saibam de sua esposa. Ele a tratou como um objeto, um verdadeiro objeto de seu prazer, sem, no entanto, maltratá-la, afinal a gente não chuta o próprio cachorrinho.
Nessa abnegação e nessa entrega sem limites, Ilda usou das armas femininas para esconder uma identificação com o poder do ditador, na verdade ela estava identificada com ele. Mussolini era o que ela seria se fosse homem e quanto mais poderoso ele fosse, mais orgulhosa ela ficava, às vezes o exibindo como seu troféu, ou como seu falo.
Benito Mussolini sobe ao poder e o brinquedo perde sua importância.
Ilda Dalser não havia se perguntado se aquilo que percebia no amante era amor, estava ocupada em sentir e pensava que isso seria suficiente para que ele percebesse a importância da presença dela ao seu lado. Esperou. Ele não veio. Esperou. Escreveu uma carta, duas, três e ele não responde a nenhuma delas. Ela o desculpa, escreve mais.
Naquela hora, na ponta da cadeira do cinema, eu pensei: Sorte do Mussolini, não havia e-mail naquela época, muito menos celular ou mensagem de texto. Na verdade, sorte dela, pois teria sido fuzilada e não apenas internada como louca.
Ilda não suporta a rejeição e quando ele decide não mais vê-la, exige seus direitos e os direitos de seu filho, acaba sendo internada por louca e seu filho também, como uma resposta do prepotente amante. Ela se diz esposa dele, diz que ele a ama e que um dia irá procurá-la explicando o motivo de tanto distanciamento, talvez uma estratégia política. Ele certamente a ama e irá um dia admitir isso, ela conclui.
As manifestações que Ilda percebe no amante são entendidas como demonstrações de amor, apesar de ser apenas demonstração de tesao e do lugar desqualificado que ele coloca a mulher.
Tenho a promessa de escrever sobre o livro de Julia Kristeva, Historias de amor, a falta tempo para organizar as idéias e de terminar o livro em impedem, mas ainda assim permanece a pergunta: Afinal, teoricamente o que é o amor? Bem, na vivencia eu sei, preciso de uma definição cientifica, teórica.
Erotomania diria alguém diante de Ilda Dalser. Ela não era unicamente uma mulher apaixonada, sim isso também, mas possuía um amor dedicado, abnegado e às vezes ate masoquista. Ilda se entrega ao amante sem restrições ou defesas. No entanto, não era a única amante do Duce que se distraía conquistando novas mulheres.
Ele mandou interná-la em um hospital para loucos e transformou o seu amor em delírio. Ela não desistiu e tentou provar para os outros que o amor existiu e que não foi uma alucinação sua. Escreveu cartas que nunca foram enviadas, escreveu nas paredes da solitária, escreveu cartas aos juízes, ao Papa, aos políticos, as freiras sem obter nenhum sucesso. Morreu nessa luta.
Ela amou loucamente um louco e isso não a faz ser menos louca na tentativa de fazê-lo engolir boca abaixo seu desejo.
Hoje enquanto escrevia assistia na TV outro filme, Sandra Bullock é Mary Horwitz, outra mulher que confunde a relação com um homem e quase morre por isso.

Ela diz: “Se você ama alguém o deixe ir. Se precisa persegui-lo era porque não era seu”

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