domingo, 11 de março de 2012






O amante

 De onde estava podia ver o filho, a nora, os netos e o cachorro da família. As vezes tinha vontade de congelar as imagens. Poderia tentar fotografar alguma delas, talvez fosse uma boa maneira de parar o tempo, as cenas, mas será que seria capaz de enquadrar na fotografia o sentimento que elas lhe causavam?

Um pouco acima de onde estava, em uma pequena coxilha, eles estavam parados, o cachorro correndo, o verde do capim alto, o vento e o sol dourado, bem ao fundo, fazendo de tudo um enquadre perfeito. Era, sem duvida nenhuma, a imagem da paz, do amor. Na sua frente o marido abraçava pelo pescoço a égua manga larga, o potro agitado corria na volta. Ela ainda gostava muito de tudo aquilo. Ele estava feliz. No campo ele era assim, diferente da cidade, que o transformava em um sujeito tenso, mal humorado. Estava bonito, ela achava que assim, de botas, bombachas e demonstrando seu poder sobre o animal que docemente se entregava aos seus afagos, ele ainda era bonito.

Não queria preocupar-se com nada, não iria decidir coisa alguma naquele momento e talvez nunca viesse a se decidir. A visão da família na casa de campo, depois de tanto tempo, lhe emocionava, lhe entristecia. Sabia que tinha ali o que mais amava: o campo, os filhos, os animais, e também o marido, claro, ela também o amava.  Desde pequena foi uma pessoa gulosa, queria tudo, sem precisar perder, sem precisar escolher. Agora estava impossível, não poderia sustentar essa situação por muito tempo.

No inicio tinha tentado fazer dos encontros com o amante uma aventura passageira. Cada vez que marcava um encontro se dizia que seria o último e mesmo que fosse bom, jamais teriam a oportunidade de se verem novamente. Essa era a formula que encontrava para ter coragem de ir. Escolhia calmamente o vestido, o perfume, a calcinha. Tudo podia ser bem cuidado, se tratava de uma encenação, de uma personagem que não voltaria a encenar. Como uma atriz se despedia da sua platéia, cada vez como se fosse a última. Mas, como toda diva, ela voltava, mesmo após cada despedida e após cada ultimo espetáculo.

Passaram-se tantos encontros que não pode mais contar e mesmo que tenha esperado o encanto ir embora as ultimas horas passadas juntos eram sempre melhores que as anteriores, a intimidade aumentava o encantamento, ao invés de acabar com ele.

Saia de cada momento juntos, encharcada do amante. Não se tratava do cheiro impregnando nas suas narinas, não podia lembrar o cheiro que ele tinha, mas o sorriso estava sempre colado na sua memória, as mãos marcadas na sua anca, a imagem dos corpos nos seus olhos, as propostas ainda sussurravam ao seu ouvido. Banhava-se, a água não era suficiente para lavar.  Não sabia se com o amante acontecia algo semelhante, não importava, na verdade não esperava reciprocidade, não esperava continuidade. Primeiro tinha se apaixonado pela própria paixão, viver as emoções, os prazeres. Entregava seu corpo aquele estranho, e se empolgava ainda mais com o prazer que via nos olhos dele.  Sentia pena de si mesma, deveria ter tido a chance de viver isso na juventude, se sentia roubada. Alguém tinha lhe usurpado o direito ao gozo livre. Agora aprendera a se entregar, a viver as mãos do outro como sendo parte de sua pele, agora era presa das suas convenções, da sua historia, das suas escolhas.

Chorava lágrimas secas para que ninguém percebesse.

Quando voltasse a cidade iria tentar marcar mais um encontro e sem duvida deveria ser o ultimo.  Gostaria de encontrá-lo em um bar ou restaurante, assim poderiam conversar sem que ele tentasse tapar suas palavras com beijos e fingir que ali não havia nada além de desejo. Os homens ainda fazem isso melhor que as mulheres, são capazes de se convencerem que amor e desejo são coisas tão separadas que não precisam se questionar sobre o que eles sentem pelas amantes. Sabia que ele não iria aceitar outro tipo de encontro e os motéis ainda continuavam sendo o lugar mais seguro para que as atividades secretas se mantivessem secretas.

O fundamental era que nada daquela historia saísse dali, aquele conto de fadas jamais poderia se tornar uma parte de sua realidade. Afastou a ideia do restaurante.

O vento bateu nos seus cabelos, enterrou o chinelo na lama, ficou descalça e sentiu medo da possibilidade de seus segredos serem desvendados. O marido lhe estendeu a mão, o neto lhe alcançou outra laranja. Teria que acabar com aquele absurdo imediatamente, não suportaria o sofrimento daquela gente que ingenuamente acreditava em seu amor, se sentia desonesta, horrorosa.

              Seus prazeres e seus amores sempre estiveram na mesma bagagem. Seus filhos, seu lar, seu trabalho na mesma ordem que era de esperar a uma boa mulher. Agora tudo ficou assim, sem lógica, sem prioridades, aquilo que é o amor estava a léguas do dever.

            Tinha tentado brincar com seus sentimentos, tinha tentado se fazer outra, menos romântica, menos sonhadora. Precisou de pouco tempo para descobrir que continuava sendo uma menina boba, de hábitos e sonhos medíocres. O que poderia ter sido uma aventura perversa, estrondosa e sem fronteiras, transformou-se em um delírio de união e um desejo infantil de estar junto. A seguir vieram as músicas, os presentes, os perfumes, o interesse pelo trabalho dele, por sua intimidade, sabia que esse era o caminho mais rápido para finalizar um romance furtivo.

       A ponta da camisa tinha virado uma sacola improvisada onde o neto colocava as frutas do pomar, parada olhando a si própria, viu a sacola encher e ir-se derramando. As laranjas caindo pelo morro e ela acompanhou aquilo com o olhar preso nas frutas que rolavam como se sua vida estivesse assim, rolando, rolando.

     Há alguns meses tinha descoberto a fórmula para acalmar sua angústia e diante de tudo pensou que ao final estava segura, bastava nunca mais procurá-lo. E, aquilo que poderia ser a morte de qualquer amante, saber que seu amado não lhe buscaria e que o fim dependia dela, tornou-se um calmante para ela. No outro dia, já na rotina urbana, enviou ao amante uma mensagem, nela escreveu: “Oi, ainda lembra de mim?”

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