terça-feira, 6 de abril de 2010

Estou apaixonada

Bem sei que a paixão pode ser uma doença.
Quem sabe mais tarde eu queira escrever sobre isso, agora estou mais preocupada em vivê-la.
Poderia dizer que “no hago otra cosa que pensar em ti”.
Na verdade as suas letras não me saem da cabeça, a sua melodia embala meus dias
Estou apaixonada e quanto mais penso, mais suspiro por um espanhol.
De repente, sem nenhuma explicação, me apaixonei por esse idioma cantado, escrito e falado.
Estou completamente seduzida por um espanhol magrinho, cabeludo, com um cavanhaque cigano que fuma e bebe exageradamente.
Um espanhol contestador, antifranquista dos anos 60, amigo de Fidel Castro, Almodóvar, Fito Paez, Mercedes Sosa, Garcia Marques, e que poderia ser do Lula também.
Um poeta urbano que canta seu amor as mulheres, a pátria, a liberdade e a America latina.
Eu tenho passado horas ouvindo-o dizer coisas lindas que mesmo vivendo mil anos minhas palavras não seriam capazes de dizer.
Ao som de seus poemas eu sonho, viajo e caminho e danço.
Ele também esta apaixonado por mim, eu sei.
Cantou seu amor me dizendo coisas lindas ao ouvido.
“A ti que hás preferido vivir como se nada fuera eterno, a ti que hás compartido conmigo una almohada em el infierno..”
“ No le ofreció la luna, Le dijo solo quedate conmigo, no hay fortuna que valga el corazon que te daré”.
Diante dele eu já desfilei minhas melhores qualidades, meus mais nobres atributos, minhas mais lindas armas de sedução.
E, lhe disse em um espanhol atravessado:
“nin tan arrependido ni encantado de haberme conocido, lo confieso.
Tu que tanto hás besado..”
Tentando acompanhar seu bailado cantei ao seu lado:
“Tus pies bailan um tango com mi pasado,
Tus cejas son las rejas de uma prision,
Tus lábios son el fuego por duplicado,
Tu olvido es um descuido de mi pasion”


E, em uma voz rouca, ele continuou a jurar seu amor por mim
“Y me envenenan los besos que voy dando
Y sin embargo, cuando
Duermo sin ti contigo sueno”

“solo calan os besos que no has dado, los labios del pecado...”

Respondi, então:
“ no quiero um amor civilizado,
con recibos y escena de sofá,
yo no quiero que viajes al pasado
y vuelvas del mercado com ganas de llorar...”

Mais apaixonada, insisti:
“ Y morirme contigo si te matas
y matarme contigo si te mueres,
porque el amore cuando no muere mata,
porque amores que matan nunca mueren..”

Ele seguiu em um lamento flamenco que não sai da sua garganta mas, de meus ouvido:
“ Anda, deja que te dasabroche un boton,
que se come com piel la manzana prohibida,
y tal vez no tengamos mas noches,
y talvez no seas tu la mujer de mi vida.
Hoy tienes una ocasion de demonstrar que eres uma mujer
ademas que una dama”

Assim, o Estádio Centenário estava lotado cantando as musicas que ele compôs.
As luzes do palco batendo na chuva rala, e um show que há muito eu não assistia no Brasil.
Mas, aqui entre os brasileiros ele não é nem conhecido. Eu esperava que na fronteira, pela mistura da língua, eles soubessem de quem eu falava, nem lá.
Quando eu disse que iria a Montevidéu assistir ao seu show alguns me perguntaram quem era. Os mais pretensiosos me olhavam com aquele olhar vazio de quem não sabe, mas prefere supor que eu iria assistir um Julio Igleses qualquer.
Estamos todos submetidos a estética americana, Michel Jacsons empalhados e Beyoncés siliconadas. Só podemos ver e ouvir aquilo que eles nos vendem.
Ainda estamos separados pelo tratado de Tordesilhas.
Os gaúchos sofrem mais as conseqüências dessa divisão. A cultura é quase a mesma, mas a diferença da língua acaba nos colocando atrás de um muro. Um muro que nos faz pensar que somos muito diferentes deles.
Mais que gaúchos, mais que palas, vino e caballos, pensamos ser tamborins, sol e musica axé.
Será que não somos capazes de enxergar através desse muro? Ou ele é tão alto que tapa toda nossa visão?
Muito se falou do muro de Berlim que dividia a mesma Alemanha em duas coisas distintas. No entanto, nunca falamos do muro lingüístico que separa aquilo que seria muito igual em duas partes diferentes. Mantém uma distancia intransponível.
Não existe nada que cause mais angustia do que algo intransponível. Quando a gente tenta se aproximar daquilo que insiste em se manter longe do nosso alcance.

Mesmo assim, eu e Sabina, desde Montevidéu, desejamos:

“...Que no te compren por menos de nada
Que no te vendan amor sin espinas
Que no te duerman com cuentos de hadas
Que no te cierren el bar de la esquina.

Que el corazon no se pase de moda
Que los otonos te doren la piel,
Que cada noche sea noche de bodas,
Que no se ponga la luna de miel.”

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