terça-feira, 6 de abril de 2010

UM CONTO


Madressilva

Ele disse que meu perfume era forte, tu acreditas nisso?
Verdade! Ele disse que meu perfume era forte.
Eu não consegui acreditar. Estava vestindo a camisa, já apressado, querendo ir embora, já arrependido, começando a cair na real, já culpado.
Tentei abraçá-lo mais um pouco, ai ele perguntou se eu queria deixar meu perfume na sua camisa, o perfume forte que eu usava.
Assim: Esse perfume forte que vocês usam. É, com essa cara de desdém.
Logo eu que passei anos tentando encontrar um perfume que fosse o meu cheiro, algo como uma marca, entendes?
Assim como a Marilyn, ela só usava Chanel número 5. Toda vez que a gente sente o cheiro desse perfume lembra dela. Quem não sabe disso?
Eu não queria aqueles cheiros da modinha, aqueles que as gurias borrifam na gente em loja de importados e depois sente em toda festa de bacana que se vai. Lembra do Patiolli? Todo mundo usava, menos eu, usava o Sândalos.
Eu queria um daqueles perfumes que se sente quando a pessoa balança o cabelo, ou quando ela entra no elevador e para ao nosso lado, vem aquele cheirinho de banho recém tomado, de limpeza.
Não, nada de perfume doce, odeio perfume doce. Gosto daquele cheirinho de flores Como na primavera quando se passa por uma Madressilva e o vento trás seu perfume, um cheirinho que vem do ar, sabes como é?
E daí? Claro que eu queria cheirar como uma Madressilva. Como é? Ele poderia então trepar em uma Madressilva? Não brinca comigo. Na verdade estou furiosa, aquele viado falou que meu perfume era forte. Eu não me incomodaria tanto se ele tivesse falado das minhas celulites. Essas eu não escolhi. Não passei anos procurando, trocando e gastando, até encontrar esse cheiro perfeito que falasse de mim, de quem eu sou, de como eu sou. Foi como se ele tivesse dito que tudo aquilo que eu estava lhe oferecendo não valia nada, não tivesse a menor importância.
Não, eu não vou perdoar jamais.
Mentir-me que era solteiro, ter esquecido meu aniversário, me deixar toda enfeitada na mesa do restaurante, tudo bem, já perdoei. Mas, falar que meu perfume é forte? Isso eu não perdôo jamais.

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