quarta-feira, 31 de março de 2010

Outro Conto

26 de agosto


Dor




A casa tinha uma pequena torre e foi apenas isso que a entusiasmou na mudança da fazenda para a cidadezinha. Transformou o lugar no seu refugio. Ali, daquele pequeno mirante ela conseguia ver tudo ao redor. Costumava ficar lá muitas horas costurando, bordando, cerzindo, às vezes, só olhando ou pensando. Muita coisa importante decidiu naquele lugar, entre elas mandar as filhas para o internato em uma cidade maior. Decisão difícil, o marido alegava que era cedo demais para as meninas deixarem a casa, ela achava que uma educação refinada só era possível em uma escola interna. Claro, jamais poderia imaginar o que estava por vir. As meninas em casa poderiam ter ajudado muito com os mais novos.
Ficava feliz e tranqüila quando sua vista ia longe. O jardim, as arvores, o murinho branco, as ruas, os vizinhos, a estrada e além deles os campos muitos verdes lhe dando a sensação de que existem muitos mundos, mesmo que não possamos vê-los, assim tinha mais esperança.
Não poderia imaginar um dia que sentiria saudades daquela cena diária. A charrete do marido apontava antes da ponte, mesmo que ela não reconhecesse ao longe os gestos fortes com que ele batia na parelha de cavalos, poderia reconhecê-lo pelo chapéu, com abas mais largas que o normal. Esboçou um sorriso triste ao pensar que agora pareciam mais largas no seu rosto estava cada vez mais fino.
“Me alcança um mate. Presta atenção no que estas fazendo guria. Assim, derramas tudo no chão e chama a Maria. Não, não precisa chamar. Diz para ela levar o guri para o sol. Diz para ela enrolar um xale nele, e colocá-lo na cadeira de balanço que ele gosta. Ele precisa tomar sol, o médico disse. Rápido antes que fique tarde e que o pai chegue para almoçar”
Ela precisava tomar conta de tudo, seguir tocando a vida e ser forte, apesar de todo seu cansaço e tristeza.
Conseguia ver o guri ao sol, a manta cobrindo parte das pernas, o corpo excessivamente magro, a pele muito mais branca. Era o mais belo dos seus filhos. Desde o nascimento sabia que algo nele era diferente, mais meigo, mais obediente, com um olhar brilhante como que agradecendo todo tempo vivido. O peito doía forte, não podia mais falar com o marido sobre isso, ele já estava pele e osso e no rosto a marca do sofrimento não deixava duvidas que estava no limite. Deveria poupá-lo, quem tomaria conta do abatedouro, do gado, da fazenda? Os outros filhos precisavam ser alimentados. O mundo não pararia para enterrar seu caçula.
Um dia, ao amanhecer, na mesa do café, alguém notou o olho inchado do menino. Não adiantava fingir que não antecipou a tragédia que viria, nenhuma das doenças que conhecia, ou que os outros filhos haviam tido, começava assim, tempos sofridos previra. Um ano depois, ainda podia ver essa primeira manifestação na foto tirada em Montevidéu quando foram consultar, o terno marrom já folgado, o sorriso parado, o olho caído.
Aconselharam levá-lo para a capital, de nada adiantou. O medico, outro menino sem experiência, encaminhou para mais exames e só souberam do que se tratava quando já era tarde demais. Fosse outros tempos a doença teria cura. A medicina evolui ventando.
“Apura guria, ceva mais um mate. Vai lá e diz para a Maria conversar com ele. Calada, feito um espantalho, vai fazer o guri piorar e avisa para lhe colocar um chapéu, o sol esta forte, nem parece de inverno.”
Pensou que as férias estavam próximas, rapidamente as filhas voltariam do colégio e a ajudariam a distrair o guri, ele já estava sentindo falta da escola. No inicio, achou divertido ficar em casa, odiava estudar, mas o tempo foi passando. Quando estava um pouco menos abatido pedia livros e gibis, ate tentou jogar bola com os irmãos. Ela chegou a tempo de impedir, brigou com a Maria. Pagava-a para obedecer às ordens, para cuidar do menino e não para achar isso ou aquilo. Não sabia que com a fraqueza e se exaurisse as forcas a doença avançaria?
Precisava se cuidar. Não podia descarregar nas empregadas ou nos outros filhos a angustia que vivia.
Algumas manhas quando o marido levantava mais cedo para sair de viagem, sozinha na cama podia chorar, mas o fazia baixinho, tinha medo que o guri a escutasse do quarto ao lado. Depois do aparecimento da doença ela o tirou do quarto dos meninos e o colocou naquele ao lado do seu, destinado ao bebes pequenos. De uma coisa tinha certeza, não teria mais bebes para colocar ali. Perdeu dois filhos no ventre, um outro que nasceu morto, e agora esse com 10 anos. Era para secar o útero de qualquer mulher. Sorte o marido também estar assim, sem vontade de mais nada.
Na escada os passos pesados e o cantarolar da guria de recados, “Essa não se abala com nada, que pestinha atoa, se não fosse minha afilhada já tinha mandado embora. Está pronto o almoço? Seu Ignácio já vai apontar.” E, olhou o horizonte para ver se avistava a poeira na estrada adiantando que o marido estava vindo cansado, querendo logo almoçar e dormir um pouco para depois voltar ao trabalho.
As vezes ficava com raiva dessa distancia do Ignácio, desse jeito de nunca falar na doença do filho, de nunca se queixar, apenas emagrecer e ir se curvando como se quisesse alcançar os joelhos com o queixo. No entanto, sabia que precisava ser forte para suportar a dor do marido e a sua, se o marido ficasse em casa chorando quem trabalharia?
Noutro dia, o guri choramingava de dor, ela não agüentou, suas pernas tremeram e se atirou na cama a chorar. O marido não disse nada, entrou no quarto, depois de beijar o filho, deitou-se ao seu lado e abraçou-a forte contra seu peito. O tremor foi passando aos poucos, o choro secando e ela pode voltar ao quarto do guri para fazer-lhe mais uma injeção de anestésico.
Uma cortina de poeira manchou o céu dourado, mais um segundo e avistaria um pontinho que iria crescendo. “Vai, diz para a Maria levar o guri para dentro, ir lhe dando o caldo. Os outros já chegaram da escola? Diz que já estou descendo. Avisa para a Genésia ir pondo a mesa, Seu Ignácio está vindo.”
Agora os cavalos trotavam, o chicote no ar descia com firmeza, o chapéu de abas muito largas naquele corpo miúdo, não deixava duvidas, era Ignácio chegando. Secou o rosto com a camisola do filho, tirou o avental, desamassou o vestido e desceu para o quarto. Como sempre iria pentear o cabelo, colocar mais batom, um pouco de água de colônia e esperar na porta pelo marido.

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