quarta-feira, 31 de março de 2010

Um conto



19 de junho

Vila do Sossego
Maria Cristina Sole

Ela morava em um lugar que se chamava Vila do Sossego. Desde guria achava aquele nome lindo. Adorava quando nas lojas ou nos empregos lhe perguntavam o endereço e ela precisava dizer: Av. Ipiranga número 2110. casa c4, e então, respirava fundo, levantava o volume da voz e dizia: Vila do Sossego.
Certamente isso trazia um ar de dignidade aquele endereço tão sem importância, tão desconhecido.
Morar em um lugar que se chama Sossego daria uma boa impressão, todos ali seriam serenos, pensava, mesmo que ela soubesse que isso era apenas mais uma de suas ilusões.
Na infância era gorda, a cintura redonda e a barriga cheia das pipocas roubadas da avó, antes de serem colocadas nos despachos. Cresceu e descobriu que era gostosa, a cintura marcou, a bunda arrebitou e os peitos saltariam para fora do sutiã se fosse preciso.
Mais como vingança do que por prazer, adorava atravessar o pátio da Vila do sossego quando todos os rapazes à tardinha, após o trabalho, bebiam o por do sol encostados em seus carros baratos e sujos. Os mesmos guris que a chamavam no passado de “gorda baleia, saco de areia”. Nessa hora, puxava a fuso na cintura ate ela marcar mais a calcinha, arrebitava a bunda, chupava a barriga fazendo os peitos levantarem e imaginava um tamborim, um surdo e um agogô marcando compasso para seu caminhar. De canto de olho podia ver os grupinhos se calando e as cabeças acompanhando sua passagem até ela sumir na casa número 4, de onde nunca saiu. Ela apenas sorria orgulhosa. Nenhuma de suas amigas de infância, as bonitinhas magrelinhas, as espertas e as loirinhas, nenhuma delas hoje em dia tinha esse olhar. Agora elas estavam gordas, cheias de filhos e lutando para suprir as faltas dos maridos bêbados.
No entanto, seu prazer acabava logo ali, no portal que atravessava. Começava a janta da mãe, os cuidados com os sobrinhos que a irma depositava um a um na casa paterna, abusando da piedade da família e fazendo um novo filho em uma maloca da vida.
As vezes, pedia aos gritos para ver se os santos escutavam, pelo sossego que o nome proclamava, e nada, ele não vinha.
O emprego de bilheteira no teatro mais antigo da cidade a fazia sonhar ser alguém diferente. O lugar de destaque na escola e na comunidade eram os culpados, segundo sua mãe, de nunca ter encontrado um homem para casar. A mãe dizia que ela se achava melhor, mais importante que os outros da Vila do Sossego e por isso acabou solteirona e iria morrer assim, orgulhosa e sozinha. Ela não queria casar com um homem gordo, fedendo a cachaça.
Todos os dias ela vendia bilhetes a homens perfumados, de ternos bonitos, aqueles que seguravam suas mulheres levemente pela cintura, as deixando passar na sua frente ao entrar no teatro. Sonhava com um homem desses.
Claro que nunca contou para a mãe as suas experiências amorosas que eram mais para passar o tempo e aplacar a ânsia do que para uma paixão da vida toda. Preferia dizer que fez amor com o porteiro do teatro, com o rapaz da faxina, com um montador e com mais outros maquinistas, do que dizer que se deitou com eles, embora de amor não tenha tido nada naqueles encontros todos, mas ficava mais digno e educado.
Uma vez leu em uma revista de moda as palavras de uma atriz famosa que passou a repetir sempre que lhe perguntavam sobre casamento ou marido: “Enquanto o homem certo não aparece me divirto com os errados”.
Distraída lendo uma dessas revistas que levava para passar o tempo não viu quando ele se aproximou do guichê. Levantou a cabeça para ver de onde exalava aquele perfume. Terno escuro, dentes brancos adornados por um bigode bem aparado, camisa engomadinha e o cabelo bem brilhoso para trás, mas o que lhe encantou foi o “por favor, senhorita” que ele acrescentou ao final do pedido de dois bilhetes. Provavelmente para ele e para a esposa pensou. Aquilo que sentiu sem duvida era inveja.
Tentou rapidamente esboçar um sorriso, ele não saiu, pareceu amarelo, sem graça. Entregou os bilhetes e o acompanhou com os olhos brilhando ate que saísse pela porta da bilheteria. No balcão ficou a carteira de identidade, a foto e o nome.
Poderia devolver no espetáculo. O porteiro vivia lhe oferecendo ingresso grátis, coisa que ela nunca aceitou, pois, sabia o preço que teria de pagar. Desta vez aceitaria, mas diria que a mãe iria esperá-la na parada de ônibus. A roupa não seria problema, a camareira tinha estoques de figurinos dos muitos espetáculos encenados lá.
Quem sabe um dos vestidos que Vera Fischer usou ou uma das blusas da Fernanda Montenegro. Na hora, o vestido apertou na cintura e a camareira falou que era cafona, década de 50, não se usa mais, colocou uma blusa florida por cima do Jeans que usava. Chique, disse a amiga, ninguém notaria que é bilheteira. Tinha certeza dos bilhetes vendidos: camarote 17, lateral-central, lugares A e B.
O Antonio Fagundes, lindíssimo, falava sem parar coisas sobre amor, um discurso amoroso. Teve vontade chorar. Cada vez que a platéia clareava, olhava para o camarote tentando ver se era ele que estava lá. Um casal ocupava as cadeiras. A mulher meio gorda vestia uma gola de pele, o homem calvo, bem calvo, não era ele. E, agora, como devolveria a carteira? Ela deveria ter ficado na porta do teatro até que o gerente não deixasse mais ninguém entrar, só assim poderia ter certeza que ele não estava no local. Pensou que nunca mais o veria.
Ao final, entristecida dirigiu-se a parada de ônibus e retornou a Vila do Sossego.
Era sábado, o churrasco de latão ainda estava sendo assado pelo pai, que já devia estar bebendo desde cedo. Passou pelo pátio sem ter olhares acompanhando seu andar e matou na cama as esperanças da semana. O domingo passou lento como todos os outros, sobrinhos, Faustão na televisão toda tarde, uma briga de bêbados no boteco da esquina, e a segunda-feira para lembrar o quanto ela estava atolada na vida.
Arrastada enfrentou o novo dia, sem sol, sem chuva, sem nenhuma promessa. Nem a internet foi a salvação, o nome dele não aparecia. Os dias foram passando e ela decidiu colocar a carteira com a foto no vidro da bilheteria, quem sabe ele voltava, mas até lá poderia ficar olhando.
Todo dia pela manha, ao começar o trabalho desejava “bom dia” ao seu deus bigodudo e moreno. Jorge, como aquele que matou o dragão. Salve, Jorge, dizia ao vê-lo na foto. Às vezes, trazia uma flor e colocava no vasinho diminuto que ganhara da amiga secreta no Natal. Outro dia, a mãe ficou doente, acrescentou uma medalhinha de São Jorge ao altarzinho e mais adiante uma pequena vela daquelas fininhas de aniversário, vermelha da cor do santo. Assim acostumou-se a sonhar com ele quando deitava sozinha e a pensar nele quando rapidamente deitava com um de seus “prestadores de serviços” e assim a vida ficava mais leve, e a tarefa mais fácil.
Perdeu a conta quanto tempo havia passado desde que tinha feito daquela foto sua parceira e daquele homem que tinha visto apenas uma vez, seu companheiro.
A mãe se queixava que um dia morreria e que solteira iria acabar sendo empregada do pai ou dos irmãos, tanto quanto ela própria já era. Irritada pensava que Jorge viria e com sua lança afastaria a tristeza em que vivia.
No inverno, de frio, de tristeza ou de preguiça, ficou uma semana acamada por um resfriado, quando retornou ao trabalho Jorge não estava mais lá, lhe contaram que alguém veio comprar um ingresso, reconheceu a carteira e quando viu o cuidado com que estava guardada deixou 10 reais em agradecimento.

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